Espiritualidade emocionalmente saudável

Giovanni Alecrim
Mar 9 · 7 min read

As palavras de Paulo em 1 Coríntios 2.14–3.3 estabelece para nós uma divisão entre o mundo espiritual e o humano. A ideia de duas naturezas, em si, não é nova. Platão, cerca de três séculos antes, falou do mundo das ideias e o mundo sensível, sendo o mundo das ideias o lugar onde tudo é ideal. O que Paulo faz é, à luz da experiência com Jesus, estabelecer o espiritual como este mundo pelo qual nós, nascidos de novo, nos movemos. No entanto, este mundo espiritual não está desconexo do mundo sensível, está presente e atuante nele, mesmo que as pessoas não possam discernir as questões espirituais.

Vinte anos atrás, no quando da virada do milênio, muito se dizia que o novo tempo havia chegado e que as religiões seriam esquecidas, viveríamos a era do cientificismo. Aqui estamos nós, na segunda década do século XXI assistindo os cenários sociais ao redor do mundo sendo transformados e regidos por forças religiosas. Das teocracias islâmicas do Oriente Médio aos governos “democráticos” declarados cristãos, vemos como a religião influência e determina os rumos das nações no presente século. Ao lado de todo esse macro cenário, bem resumido, estamos nós, Cristãos, Reformados e brasileiros, chamados a viver nossa fé comunitariamente e expressar nossa religiosidade por meio de nossa espiritualidade.

Damos início, hoje, a uma jornada de doze aulas sobre Espiritualidade emocionalmente saudável. Os estudos serão baseados no livro de mesmo nome, de autoria de Peter Scazzero, da editora United Press. Ao longo de dez capítulos, Scazzero trata de como nós negligenciamos a relação espiritualidade e emoções, nos apontando caminhos e opções para transformarmos nossa realidade e nossa relação com Deus, a família e a Igreja. Hoje, como introdução ao tema, precisamos definir o que é espiritualidade e o que é emoção, para então, compreendermos o que é espiritualidade emocionalmente saudável.

Espiritualidade

O termos espiritualidade espiritualidade remonta ao adjetivo latim “SPIRITUALITIS”, que por sua vez é tradução do grego “pneumatikos”, indicando o ser humano que é regido pelo Espírito Santo. Este conceito difere, em muito, do conceito moderno de espiritualidade, que foi cunhado pelas ordens religiosas francesas no século XVII. Quando abordavam teologicamente a relação pessoal com Deus e a vivência da vê, faziam uso da palavra “espiritualité”. Quem bem define espiritualidade é o Dicionário Brasileiro de Teologia, da Editora ASTE, no verbete de autoria de Paulo Afonso Butzke:

Espiritualidade é a expressão exterior e corporal da fé interior motivada pelo Espírito Santo. Ela inclui a fé, o exercício espiritual e o estilo de vida do cristão.

Ao longo da história, o cristianismo se expressou espiritualmente de maneiras diversas. Os evangelhos nos relatam Jesus orando solitariamente, ensinando aos discípulos e às multidões. Há uma certa rotina nessa relação. Além da relação com os discípulos, os evangelhos nos mostram Jesus indo à sinagoga e participando das festas no Templo. Em linhas gerais, os evangelhos nos permitem conhecer a espiritualidade de Jesus por meio dos seguintes elementos: ouvir, orar, compartilhar, testemunhar e agir.

Os primeiros discípulos desenvolveram sua espiritualidade à partir dos ensinos de Jesus, tendo como ponto chave o Pentecostes. É na manifestação narrada em Atos 2 que os discípulos tomam consciência de que Jesus, o ressuscitado, é o Senhor e continua a agir por meio do Espírito Santo. Tal experiência resulta numa vivência comunitária que pode ser entendida em Atos 2.42–47. A espiritualidade de Jesus se convertera em espiritualidade comunitária, ouvindo os ensinos, orando, compartilhando a Ceia, os bens e os ensinos, testemunhando a respeito de Jesus e agindo por meio de prodígios, sinais e distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade.

Ao longo da história a Igreja reinterpretou a espiritualidade de Jesus e dos primeiros cristãos. Dentre elas podemos destacar:

Espiritualidade ascético-monástica

O asceticismo é a disciplina e o autocontrole do corpo e do espírito, um caminho imprescindível em direção a Deus, à verdade ou à virtude. Um conjunto de regras que norteia a ação das pessoas. Tal prática surgiu como uma reação ao fato da Igreja ter se tornado Imperial. Uma vez que não havia mais perseguição e o martírio saira de cena, o asceticismo ganhara força entre os cristãos que viam na Igreja imperial uma corrupção dos princípios de Cristo. Encontramos na história o registro de ascéticos eremitas e conventuais. É desse período que temos os pais e mães do deserto e seus ensinos profundos.

Espiritualidade bíblico-meditativa

Os monastérios, desenvolvidos durante o período anterior, levaram o desenvolvimento de dois tipos de meditação bíblica: a ruminatio e a lectio divina. A ruminatio consiste em recitar exaustivamente palavras bíblicas avulsas, em voz baixa, e assim “ruminadas” na inteligência e na memória de quem as recita. A lectio divina foi ensinada aqui na igreja em 2018, no curso sobre práticas devocionais. Trata-se de um método de leitura pausada e contemplativa da Bíblia com silêncio e oração.

Espiritualidade místico-contemplativa

Desde o século IV a tradição cristã conhece a divisão espiritual de três vias: purgativa, iluminativa e unitiva. As duas primeiras consistem em purificar a pessoa por meio da leitura da Palavra e iluminar, resolver questões, também pela leitura da Palavra. Já a terceira é a busca por uma espiritualidade contemplativa, afastando-se do conhecimento e permitindo uma iluminação divina. Por isso é mística, palavra originária do do grego mgein, “fechar os olhos”, e de mgsterion, “a escuridão do sagrado”.

Espiritualidade e Reforma Protestante

Martinho Lutero releu a espiritualidade medieval à luz do princípio da salvação pela graça, assim estabelece uma prática espiritual em que a meditação deve se refletir na vivência do cotidiano, sendo sobretudo expressa pelos leigos, por meio do sacerdócio universal de todos os cristãos. Fazem parte da prática espiritual o culto, os sacramentos, a exortação fraterna, o hino, leitura bíblica e oração.

Espiritualidade pietista e fundamentalista

O pietismo foi um movimento surgido no meio protestante holandês e alemão, em meados do século XVII. Buscava vivenciar a fé de maneira prática e autêntica. As marcas da espiritualidade pietista são a conversão e a santificação, entendida como uma espécie de purificação do cristão. Influenciado pelos pietistas e os valores da Reforma protestante, no século XIX os fundamentalistas surgem buscando responder às questões levantadas pelo liberalismo teológico e intensificando as marcas do pietismo, incluindo a perdição eterna dos descrentes.

Espiritualidade carismática

O movimento carismático é recente no cristianismo e está presente em igrejas históricas, pentecostais e neopentecostais. Apesar de todas as diferenças entre estes grupos, temos na prática espiritual um senso comum. São marcas do movimento carismático o “batismo com Espírito Santo” como evidência de conversão expresso nos dons de língua, cura e profecia, tendo nos cânticos a centralidade do culto. Merece aqui uma nota a questão dos cânticos, que tem influenciado nossas comunidades há décadas. Entoamos muitos cânticos oriundos destas igrejas, que veem no “louvor” o momento de ação e manifestação do Espírito Santo curando e transformando a vida da pessoa. É no louvor que, no entendimento carismático, o Espírito Santo atua.

Emoção

A emoção é uma reação, ou seja, algo provoca a emoção. O que? Pode ser um estimulo do ambiente onde a pessoa está, ou algo de sua consciência. Este estimulo produz experiências que podem ser reais ou subjetivas, sendo que ambas produzem alterações neurobiológicas significativas. As emoções estão associadas ao temperamento, personalidade e motivações, sejam elas reais ou subjetivas. Podem ser divididas em emoções primárias: o medo, a raiva, a tristeza e a alegria, e em emoções secundárias: ciúme, inveja, vergonha, etc.

O Dicionário de Filosofia define assim as emoções:

Em geral entende-se por qualquer estado, movimento ou condição que provoque no homem a percepção do valor que determinada situação tem para a sua vida, suas necessidades, seus interesses. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles diz que emoções é toda afeição da alma, acompanhada pelo prazer ou pela dor — sendo o prazer e a dor a percepção do valor que o fato ou a situação que se refere a afeição tem para a vida. No Esboço de uma teoria das emoções (1930), Sartre vê uma conduta dotada de sentido por meio da qual o indivíduo se esforça por se adaptar ao mundo mudando-o ou negando-o de forma mágica. Na Filosofia clínica, Lúcio Packter afirma que as emoções traduzem as composições subjetivas de dados sensoriais e abstratos que resultam em estados afetivos que tem origem em dados somente sensoriais, ou melhor, em movimento que a pessoa vivencia como um estado afetivo qualquer: prazer, dor, alegria, tristeza, amor, ódio, bem-estar, esperança, desejo, saudade, carinho.

Não devemos confundir emoções com sentimentos. Sentimentos são orientados para o interior, emoções para o exterior. Primeiro você experimenta uma emoção para depois ela se tornar um sentimento. Saúde emocional passa por um entendimento do que são as emoções e como devemos reagir diante delas. Não se trata de reprimir emoções, pois reprimi-las trará consequências físicas e psíquicas danosas. Devemos identificar, compreender e expressar nossas emoções levando sempre em conta o ambiente e a forma de se expressar.

Conclusão

A partir da próxima aula vamos trilhar os dez capítulos do livro Espiritualidade emocionalmente saudável lançando um olhar investigativo e assimilativo. Reter o que é bom, meditar e contrapor o que não for bom. Tive a oportunidade de ler o livro em 2016 e o estou relendo para as aulas que teremos a seguir. O objetivo é que você chegue ao final dessa jornada de doze domingos com o desejo de mudar sua forma de se relacionar com Deus e com o próximo, compreendendo o que é viver de emocional e espiritualmente saudável numa perspectiva comunitária, como faziam os primeiros cristãos.


O presente texto foi escrito para a aula de Escola Dominical da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi, São Paulo, SP, em 4 de março de 2020

Giovanni Alecrim

Written by

Produtor de conteúdo do Café com Alecrim: https://cafecomalecrim.com.br . Pastor da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi.

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