Eu me arrependo

Giovanni Alecrim
Oct 3 · 3 min read

João mal podia acreditar no que via. Depois de percorrer mais de três dias procurando, de comunidade em comunidade, eis que ele a encontra. Camila estava deitada, no chão, entre um poste e uma parede, numa viela. Ele a pegou pelos braços e sorriu. Ela estava desacordada. A abraça forte e sussurra em seu ouvido:

— Eu te achei! Eu te achei! Vai ficar tudo bem agora.

Ele a levantou e a apoiou em seus ombros. Começou a descer em direção ao carro, que estava parado poucos metros da entrada da comunidade. Quando chegou na saída, quatro homens portando fuzis se colocaram na frente dele e o encararam.

— Ô malandro, onde tu pensa que tu vai com ela?

— Levá-la para casa, senhor…como é mesmo seu nome?

— Lobato. Aí, tu tá me achando com cara de otário? Ela me deve e só sai depois que pagar

— Quanto ela te deve?

Lobato ergueu a voz em direção ao boteco

— Ô Leônidas, quanto a princesinha do rapaz aqui deve?

— Cinco e quinhentos, chefe

Lobato encarou João por uns segundos.

— Eu pago. São 11h agora, pede para um dos seus ir comigo, vou até o banco, pego o dinheiro, ele me espera no carro com ela. Pago, ele me libera. Nada de armas.

Lobato coçou a cabeça. Olhou para os lados e se lembrou do menor que tinha pedido uma oportunidade de mostrar fidelidade.

— Ô Espinhento, chega aí, tem uma missão para tu. Tu vai com o príncipe encantado aqui até o banco, tu vai esperar no carro com ela, ele vai sacar a grana e te dar cinco e quinhentos. Tu sabe contar dinheiro, né?

— Pode pá, Lobato, Vou prová que sou dos bons.

— Entrega tua pistola pro Hiena, nada de armas.

Lobato observou os três começarem a sair da comunidade, quando correu até João e disse:

— Escuta aqui, príncipe encantado, se tu me enganar, eu vou até o inferno atrás de você, tá me entendendo?

— Fica tranquilo, eu não vou te enganar, e se tu for até lá, não vai me achar, mas no céu eu tenho certeza que tu me acha. Se quiser, te mostro como chegar lá.

Assim, entraram no carro e foram até o banco. Dinheiro sacado, Espinhento pago, Camila liberada. Dentro do carro, a caminho da casa de João, Camila abriu os olhos, o reconheceu e, juntando suas forças, balbuciou

— Eu me arrependo tanto…eu quero mudar…eu quero…eu…

E desmaiou.

É domingo. Já faz quatro dias que Camila havia sido resgatada por João. Num salão com cerca de 100 pessoas, João escutava atentamente a reclamação de todos.

— Nós não damos dizimo para isso!

— Pagar dívida de drogada, onde já se viu?

— Meus filhos não vão ter que conviver com uma viciada, né?

João olhava serenamente para cada um deles. Todos estavam cheios de si. Eram a maioria e achavam que tinham o direito de determinar tudo. João então tomou o microfone e passou a falar serenamente, como é de seu feitio:

— Se assentem, pessoal. Vamos acalmar. Alegrem-se comigo, pois encontrei nossa ovelha perdida! Há mais alegria no céu por causa de uma pecadora perdida que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam se arrepender. Hoje é festa no céu pessoal! Vamos festar!


O presente texto foi escrito para o projeto Parábolas do Século XXI, onde eu reescrevi a Parábola da Ovelha Perdida

Giovanni Alecrim

Written by

Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. alecrim.me

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