O cosmo, único e eterno

Giovanni Alecrim
Dec 20, 2019 · 21 min read

O Advento na ótica de João 3.16

Estamos em dezembro, mês que encerra o ano e que, sempre, lembramos do Natal. Desafio você a sair pela cidade e me dizer onde não há um comércio com uma decoração, por mais simples que seja, remetendo ao bom velhinho, ao espírito natalino e às festas de fim de ano. Cada ano vemos menos advento e mais natal. Aliás, a mera menção ao período litúrgico do advento causa estranheza em alguns cristãos, que se esquecem que ele foi instituído para nos lembrar que Jesus veio e ele voltará.

O cosmo

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido, já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais
Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais
(Anunciação, Alceu Valença)

Ele veio. O versículo com que inicio essa mensagem é, de longe, um dos mais conhecidos dos cristãos brasileiros. A mera menção à sua referência bíblica já aciona memórias afetivas, boas e ruins, em cada um de nós. João 3.16. na Nova Versão Transformadora.

Porque Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.

O evangelho de João é o mais recente dos quatro que a tradição nos legou, escrito por volta de 80 d.C. Sendo o mais distante temporalmente do ministério de Jesus, é uma obra mais focada na fundamentação teológica e na apresentação do evangelho como a manifestação do amor sem medida de Deus pela criação. Ele não se concentra nos milagres, parábolas e discursos públicos, mas enfatiza que Jesus é o Filho de Deus e nos mostra como reagir diante dos ensinos do mestre. Logo de cara, o autor afirma que “a Palavra se tornou ser humano, carne e osso, e habitou entre nós”. Ninguém vai morar com quem não ama. Você quer morar com quem ama, onde você é bem quisto e quer bem. Deus escolheu morar com a criação, se fez gente, e veio habitar conosco. O natal é mais que a história de um nascimento, é a história de uma morada, de uma habitação, por isso que, para viver a alegria do natal, precisamos viver a expectativa do advento. Havia espera, ansiosa espera, pela vinda do messias. Hoje, dois mil anos depois, também há expectativa e uma ansiosa espera, pela concretização do Reino. Ele já está entre nós, já habita conosco, agora precisamos proclamar que ele virá para pôr um fim à desordem de nossos mundos.

Hoje veremos como a mensagem de João 3.16 está intimamente ligada ao conceito do advento e como você deve, a partir de agora, parar de olhar para o Natal como uma data passada, mas olhar para ele também como uma data presente e futura. Vamos olhar para três verbos que regem este versículo e que dão sentido a ele: amar, dar e ter. Começamos com o primeiro verbo: amar.

Deus amou tanto o mundo. Esta expressão me fascina. A palavra mundo vem do grego cosmos e significa o universo em seu conjunto, desde o micro ao macro. Acontece que este termo foi apropriado pelos cristãos como contraponto à vida eterna, e o cosmo passou a ser ruim, pois não gostamos das coisas do mundo. Não é assim que nos referimos ao que é de fora do cosmo da igreja? Existem diversos cosmos. O filósofo alemão Karl Theodor Jaspers afirma que “o Cosmos é a imagem do mundo que cada pessoa forma, mas por isso mesmo não é o mundo como soma total de todas as coisas e os eus existentes, isto é, como totalidade de objetos específicos”. Complexo, né? Calma, o que Jaspers quer dizer é que cada pessoa enxerga o mundo como um todo e esse enxergar não significa que sua visão é do todo. Eu tenho a minha visão de mundo, você a sua.

Acontece que quem ama o mundo, segundo João 3.16, é Deus. E Deus não é cada um. Deus é o criador de cada um. Ele criou todas as coisas. Portanto, João, ao usar o termo cosmos, usa-o mostrando que ele amou a criação como um todo, inclusive entendendo e abraçando a forma como cada um de nós enxergamos o cosmo ao nosso redor. Em outras palavras, se para você o mundo ao seu redor significa única e exclusivamente o espaço geográfico e de relacionamento que você tem, ele ama tudo isso. Se para você o mundo compreende a totalidade de tudo o que há, dentro e fora do planeta terra, se estende por todas as galáxias, sistemas solares, indo ao infinito e além, Deus está lá, e aqui, amando tudo isso. Se para você seu mundo não tem dimensão geográfica nem pessoal, porque ele se encerra dentro de si mesmo, quer por uma condição de sua saúde — vide alguns graus de espectro autista — quer por você ser uma pessoa tremendamente egoísta, não importa, Deus está lá, amando tudo isso.

Perceba como a definição de cosmo nos coloca diante de uma condição especial de que o próprio cosmo não é estático, mas dinâmico, como dinâmica é a vida e a criação do cosmo como um todo. Temos a falsa ideia de que Deus, ao criar tudo, fez tudo da forma como está hoje. Ledo engano. O texto bíblico nos mostra que vida é evolução. Sim, isso mesmo. Não, não você não veio do macaco, fique tranquilo, nem a ciência crê muito nisso. Mas o fato é que a vida pressupõe evolução. Tanto isso é verdade que o que eu sou hoje, biológica e fisicamente falando, em pouco se parece com o que fui há trinta anos. Nossos corpos passam por transformações ao longo da vida. E o mundo foi se transformando ao longo de sua existência. O cosmos está em constante transformação e olhamos para o todo como se ele fosse estático, não passível de mudança.

Isto nos coloca diante da realidade de que ao amar o cosmos, Deus não está amando apenas no quando ele criou, ou o cosmos na forma em que ele se encontrava nos dias de Jesus. Não, ele amou o cosmos acima do conceito temporal e acima do conceito estrutural do cosmo. Ele amou o mundo de tal maneira, e ama de tal maneira, que ele derrama esse amor ao longo da evolução das sociedades e da nossa existência enquanto criação dele mesmo. O amor de Deus não evoluiu, o que evoluiu foi o cosmo, a criação, que foi se adaptando e se transformando como fruto criativo de Deus, que é vivo, que se relaciona, que se permite conhecer também por meio do cosmo ao nosso redor. Por isso, não importa o contexto social, a cultura, o país ou quem é a pessoa em si, importa que Deus ama o cosmo de cada um deles, e esse amar não é condicional, ele é amor, e deseja que compreendamos e vivamos em amor, ou seja, segundo o cosmos que ele criou, que abarca todos os cosmos e os transforma eternamente.

E por falar em eternidade, precisamos nos lembrar que o criador do cosmo é atemporal. Ele está acima do tempo. Sua existência independe do cosmo e ousaria dizer, podendo até soar heresia, que ele é o próprio cosmo. Conversa para um bom debate teológico. Sigamos na eternidade. Sendo o criador do cosmo eterno, olhamos para a realidade do cosmo na perspectiva da eternidade. Sabemos muito bem que tudo passa, tudo muda, tudo tem o seu fim, mas só a Palavra de Deus permanece. Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre será. Ora, se tudo tem o seu fim, como então compreender que o cosmo não tem fim? Ele não tem fim porque fomos criados para viver eternamente ao lado de Deus. Logo, a criação de Deus, o cosmo que ele desejou e deseja para nós não pode ser vencido pela temporalidade do cosmo tomado pelo pecado.

Eis aqui a diferença entre o cosmo visto na perspectiva de Deus e na nossa perspectiva. A nossa é sempre enviesada pelo pecado, pela falta de amor e compaixão, a de Deus é movida e tomada pelo amor. O pecado criou separação, dividiu o cosmos, criou universos e multiversos pessoais e agora somos confrontados com o cosmo de Deus que nos convida ao coletivo e não ao individual, nos convida a ser povo e não lobo solitário. E assim vamos construindo nossas relações como se o nosso universo fosse o único possível, e o cosmo do outro não nos interessa. Deus rompe com nossos discursos ao nos convidar a caminhar segundo o único cosmo possível, o que ele criou. Compreendemos então o que o reformador Martinho Lutero quer nos dizer: “Deus cria a partir do nada. Portanto, enquanto um homem não for nada, Deus nada poderá fazer com ele”. Enquanto não renunciarmos ao nosso cosmo, que nós achamos que controlamos, não conseguiremos viver o que Deus tem para nós.

No mundo de dualismos, bem contra o mal, esquerda contra direita, e por aí vai, não é de estranhar que o cosmos possua sua antítese, e não, não é o ades, mas sim o caos. O caos é o estado de completa desordem, não necessariamente a bagunça que está na sua casa e que você precisa arrumar, mas sim a desordem total, a falta de compreensão e entendimento do que se vê, se é que há algo para ser visto. O Gênesis nos diz que “a terra era sem forma e vazia”. Se não há forma, há caos. Cosmos ordena, caos desordena. Se sua vida está um caos, alegre-se, Deus criou e continua a criar a partir do caos. Deus amou tanto o mundo que o criou a partir do caos e, diante dos cosmos em desordem, de nossas vidas, deu seu filho único para restabelecer o cosmos e acabar com o caos de uma vez por todas.

Quando eu insisto em dizer a você que é importante celebrar o advento, eu estou te convidando a refletir se a sua vida, universo, mundo, cosmo, chame como quiser, não está mais centrado em você mesmo que naquele a quem celebramos no Natal. Pare de viver com os olhos fixos em sinais que geram satisfação imediata, mas são meros placebos para enfrentar a dura realidade do seu dia. Atente para os sinais de Cristo. No advento, não estamos interessados nos presentes, mas na satisfação que é viver a construção diária, a evolução, do Reino de Deus.

Vivemos na expectativa do cosmos eterno. Por isso é advento, tempo de espera, de aguardar, com expectativa, a vinda do Rei. Numa manhã de domingo, em 1983, brincando com uma flauta simples, Alceu Valência compôs Anunciação, da qual nos apropriamos para apontar para os sinais que vemos e ouvimos e que desejamos e almejamos no advento. Retomo os versos:

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido, já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais
Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais

O que você tem ouvido nestes dias de advento? Quais os sinais que estão despertando seus sentidos? Para onde você tem olhado mais nesta época do ano? Abra seu ouvido e sua mente, pois Deus nos ama de uma forma intensa a ponto de romper com a eternidade e se fazer gente, dando seu filho para habitar entre nós.

O único

Tenho acompanhado de perto um movimento de resgate litúrgico que vem ocorrendo pelas mãos de jovens espalhados em todo Brasil e que tem reacendido a chama do advento neste período do ano. Já compartilhei com vocês que já vi igreja antecipar o Natal pois na data reservada para ele os membros não estariam presentes. Mas hoje compartilho a alegria de ver jovens pastores, líderes e membros de comunidades compartilhando a renovação da liturgia reformada, com a inserção do advento com suas leituras, cânticos e símbolos no dia a dia da comunidade, tornando a experiência litúrgica da comunidade um meio de benção e graça para todos.

Qual a consequência do amor? Dar, doar, entregar. Amor é doação. Dizem alguns teólogos que João, autor do Evangelho que lemos, é o apóstolo do amor. No evangelho, nas cartas e no Apocalipse, vemos o quanto o amor está presente em sentenças, construções e testemunhos do apóstolo. É impressionante como João consegue manter o foco no amor em todo relato do Evangelho. Ele apresenta uma fundamentação teológica para expressar o quanto Deus ama sem medida a criação. Este amor se manifesta no verbo feito gente. Na abertura de seu Evangelho, João já nos aponta para como Deus se faz presente em todo tempo: No princípio, aquele que é a Palavra já existia. A Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. Aqui, precisamos lembrar do poder gerador de vida que é a Palavra de Deus. Gênesis 1, um texto poético escrito para falar do princípio de tudo, nos mostra que é pela palavra que Deus cria todas as coisas. De igual modo, os profetas vão nos mostrar que é pela palavra vinda do Senhor que eles falam, não de si, mas daquilo que Deus ordena. O poder da palavra é que dá vida. Se pensarmos nesta direção, juntando Gênesis com João e os profetas, podemos chegar a um consenso de que a Palavra que estava com Deus desde sempre é a manifestação do próprio Deus. A Palavra que dá vida aos universos, cosmos, e que agora concentra todo o universo na pessoa da Palavra que se torna gente e vem fazer morada conosco.

O texto de João 3 é uma história bastante conhecida e pode ser contada facilmente por qualquer um de nós. O diálogo travado às escuras, às escondidas, entre Jesus e Nicodemos, um fariseu que não queria ser visto em companhia do nazareno e seus seguidores. Neste diálogo Jesus afirma verdades que são as bases de sua missão: “Eu lhe digo a verdade: ninguém pode entrar no reino de Deus sem nascer da água e do Espírito”, “Ninguém jamais subiu ao céu, exceto aquele que de lá desceu, o Filho do Homem”, “Deus enviou seu Filho ao mundo não para condenar o mundo, mas para salvá-lo por meio dele”. Ele veio para nos dar vida, na água e no Espírito. Ele é o Filho de Deus. Ele veio para salvar. Tudo isso nos coloca diante da realidade que Deus enviou seu único filho, ele nos deu seu filho, por amor. Estamos caminhando desde o domingo passado olhando para João 3.16 e, depois de falar do primeiro verbo, amar, agora olhamos para o segundo verbo dessa sentença, que é o verbo dar.

Deus deu seu filho. Aqui temos uma afirmação que nos conecta com a abertura do Evangelho. Deus e o Jesus são um. Esta é a característica que marca o entendimento e mistério acerca da Trindade. No texto de João 3, Jesus fala da necessidade de nascer do Espírito, do Pai desceu e veio cumprir sua missão. A unidade de Deus com seu Filho, desde o início, não se rompe quando Jesus encarna. Sendo homem de homem e Deus de Deus, Jesus é dado por Deus para que a vida se faça eternamente presente.

A unidade do Pai com o Filho pode parecer irrelevante num primeiro momento. Acontece que, quando tomamos conhecimento da nossa condição de pecadores, de que necessitamos da graça de Deus e seu amor para termos a vida, percebemos que não há outra maneira a não ser nascer da água e do Espírito e, para que isso aconteça, foi preciso que Deus desse seu único filho. A consciência do pecado nos conduz à realidade de que sem Jesus não há vida, pois ele é a vida. Deus é amor e vida. Tudo que é vida nasce do poder criador e amoroso de Deus. Somente o Filho de Deus pode transformar nossos universos particulares de egoísmo, desespero e solidão num novo cosmo, uma nova vida, nascer de novo.

A unidade do Pai com o Filho serve de padrão de relacionamento para nós, comunidade cristã. Eu não posso viver isolado, em meu universo, achando que se estou bem está tudo bem. Eu preciso erguer os olhos e amar o universo do meu semelhante e me doar para que haja comunhão e transformação. Muitos são os cristãos que adentram o universo da Igreja, mas não abandonam o seu universo. Continuam a enxergar a vida pela ótica de seus mundos, sem olhar para vida como dádiva do Reino de Deus. Adentram a Igreja, mas não nasceram de novo, não mortificaram seus universos particulares. O Reino de Deus é um Reino de amigos. Não se é amigo sozinho. Rompa a solidão do seu universo, venha para o Reino do amado do Pai. Jesus é único, só ele é capaz de nos dar vida.

Deus deu o seu filho. Esta afirmação me faz recordar de um evento que em breve a Igreja Cristã olhará para ele, o do batismo de Jesus. “Esse é o meu filho amado”. Neste ato do batismo, Deus está apontando para seu filho, expressando seu amor, mas está expressando também seu desapego. É preciso entregar o Filho para que haja vida. O teólogo alemão Werner de Boor nos ajuda a compreender esse desapego de Deus: Esse Filho precisa ser “dado”, entregue, até ser abandonado por Deus na cruz. “Assim” é o amor de Deus. Por essa razão ele também não pode ser simplesmente encontrado na natureza, na história, mas apenas onde essa entrega do Filho está diante de nós: na manjedoura, no Cordeiro de Deus, que incansavelmente tira o pecado do mundo, no Senhor da glória açoitado e cuspido, no Rei que morre no madeiro. “Porque de tal maneira Deus amou.”

Um amor que doa, que entrega. Ele deu seu filho único, amado, para ser gente, para enfrentar as dificuldades e passar pelas alegrias. Não há razão para que nós enfrentemos sozinhos nossas dificuldades, nossos perrengues, pois Deus deu o seu filho para estar conosco. “Deus nos amou, Deus enviou, Cristo Jesus Filho amado”. Cantamos há pouco e podemos continuar a cantar alegremente, pois ele o fez e ele não nos abandonou. O filho amado de Deus nos convida a sermos inundados pelo amor sem medida de seu Pai, um amor que rompe o espaço, o tempo, as barreiras, as individualidades e até as coletividades perniciosas que nos afastam uns dos outros.

O Filho amado do Pai, que ele entrega por amor ao mundo, serve de exemplo para nós, para que vençamos as barreiras que nos impedem de olhar com amor ao nosso semelhante. É abraçar a comunidade como missão do amor de Deus. É deixar-se envolver pelo Espírito Santo para que possamos anunciar o Evangelho que convida a todos para a vida eterna. Não fazemos distinção de pessoas. Não existem classe de seres humanos. Deus, em toda sua glória e majestade, se faz gente, para romper com as divisões e dizer que seu Filho amado nos chama para viver em amor. Ele é único!

Deus deu o seu filho. Seu único filho. Eu gosto muito de visitar o texto grego, pois nele temos a oportunidade de pegar alguns sentidos das palavras que nos fogem na tradução. Vejam, por exemplo, a palavra traduzida por “único” em nossa língua. O adjetivo único indica que só há um no seu gênero ou espécie, não há outro igual. No grego, único é “μονο”. Acontece que João não escreveu “μονο”, ele escreveu μονογενῆ, que é a soma do adjetivo “μονο” único com o substantivo “γένος,” descendência. Ele está reforçando que υἱὸν, filho, é o único descendente de Deus. Deus deu seu filho seu único descendente. Agora você pode compreender melhor quando João registra os “Eu sou” de Jesus. Porque de fato ele é o caminho, a verdade, a vida, a luz, tudo, absolutamente tudo. Ele é mesmo, o filho, o único descendente, da linhagem de Deus.

Ele é único, não há outro. O primeiro sermão cristão, pregado pelo Apóstolo Pedro, afirma que “Não há salvação em nenhum outro! Não há nenhum outro nome debaixo do céu, em toda a humanidade, por meio do qual devamos ser salvos”. Jesus é único. Quando Deus dá o seu único Filho, ele está entregando a singularidade de si para que possamos viver a pluralidade da salvação. É em um nome que somos salvos. Não devemos fechar nossos ouvidos e mentes para esta verdade. Se sua vida de fé te afasta do teu semelhante, te faz enxergar problemas ao invés de oportunidade de proclamar o evangelho, te coloca constantemente insatisfeito com tudo, pois nada está do seu jeito, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, renda-se agora àquele que é o único que pode, em toda humanidade, derrubar esse egoísmo que está plantado, arraigado em sua alma.

Jesus é único, não há outro. Pare de buscar respostas para as questões da sua vida e aprenda a viver com o único capaz de dar paz em meio às dúvidas e incertezas. Não importa o quão distante você esteja da vontade de Deus, quantas dúvidas permeiam o seu pensamento, importa que Deus amou o mundo a ponto de entregar seu filho único, de sua linhagem, para que haja vida em nossas vidas, para que haja comunhão e confraternização, sem ninguém ficar de fora.

No mundo de egos massageados e estimulados constantemente pela sociedade do deus dinheiro, somos convidados a nascer de novo, olhando para o filho único de Deus e sermos inundados pela graça e amor que transforma a solidão do ego na comunhão da família de Deus. Essa comunhão é expressa no sacramento da ceia. Partilhamos o pão, fruto do trabalho das mãos que semeiam, cultivam a terra e fazem brotar o trigo para que haja o pão. Partilhamos o vinho, fruto do esmagamento da uva, de mãos que semearam e colheram para que houvesse o vinho. Pão, corpo. Vinho, sangue. Corpo e sangue do filho único de Deus entregue para que tenhamos a vida eterna.

Quando eu insisto com você na importância de celebrar o advento, eu estou te convidando para refletir se o seu ego não está fazendo você querer tomar o lugar de “filho amado” de Jesus diante de Deus. No natal celebramos a Palavra feito gente, Deus encarnado na pessoa de Jesus. Ele veio para que nosso ego não nos coloque como filhos mimados que exige tudo do Pai, mas como alvos da graça e do amor de Deus, que por meio de seu filho único, nos dá salvação, nos faz seus filhos, coerdeiros, para que vivamos como Jesus viveu.

Jesus rompeu com a eternidade, se fez temporal, gente, habitou entre nós, para que a salvação nos retirasse do caminho da morte e nos colocasse no caminho da vida. O que você tem vivido nestes dias de advento? A expectativa de uma apresentação musical? As confraternizações da família e do trabalho? Ou tem vivenciado tudo isso na perspectiva do Reino de Deus, sabendo que tudo é uma oportunidade para que possamos proclamar o evangelho? Amar, dar e ter. Deus amou o mundo, deu seu Filho único para que você e eu, e todos os que nele creem, tenham.

O eterno

Na primeira parte fiz menção ao fato de que Deus ama todo o cosmo, não importa onde nem quando. Por conta de nossa temporalidade, nascemos, crescemos e morremos, não nos damos conta do que é a eternidade. Ela não é mensurável, ela não tem início, nem tem fim, eterno é a característica do que não é temporal. Aguardamos o eterno, mas já o vivemos hoje. Vivemos uma esperança contínua e viva: a de que nossos corpos ressuscitarão e com Jesus viveremos a eternidade. O eterno é nossa esperança, mas não é um evento futuro, pois, sendo eterno, já vivemos a eternidade hoje.

O evangelho de João foi escrito no final do século I. Nele, encontramos a fundamentação teológica, a explanação amorosa e a conceituação de quem é Jesus. Logo no início, o autor já deixa claro para nós: “Aquele que é a Palavra possuía a vida, e sua vida trouxe luz a todos”. Ele é a vida e traz luz em meio às nossas trevas. O mundo que andava nas trevas, viu luz. Tal qual no Gênesis, quando a força da palavra criadora faz a luz surgir, agora, em Jesus, a força que criou o mundo encarna em uma criança, se torna gente como a gente para nos conduzir nos caminhos de vida eterna.

João 3 relata o encontro de Nicodemos e Jesus. Neste encontro Jesus faz afirmações riquíssimas de significado para nós e que vão conduzir a narrativa em direção ao versículo 16 e seguintes. Há, no entanto, uma afirmação que se repete nos versos 15 e 16: para que todo o que nele crer tenha a vida eterna. Sendo que no 16 é acrescentado o “não pereça”. Aqui há um grande questionamento. Não sabemos se é erro dos copistas, que acabaram repetindo e isso ficou, ou se de fato é uma ênfase que João dá. Independente de qual alternativa escolhamos, há aqui uma síntese do que acontece quando Deus dá o seu Filho único por amor ao mundo: temos a vida eterna. Depois de falar do primeiro verbo, amar, do segundo verbo, dar, hoje olhamos para último verbo do versículo, ter.

Interessante olharmos para o conceito de crer na perspectiva da eternidade. E lá vamos nós para o grego mais uma vez. Como eu amo a riqueza léxica do grego koiné. Crer é a palavra πιστεύων que está seguida da preposição εἰς que vai ligar a palavra a αὐτὸν, que é “ele”. Crer em ele. Mais que crer nele, é um crer na pessoa dele de maneira contínua, pois πιστεύων está no particípio presente, olha a aula de gramática aí, isso significa que ele, mesmo sendo presente, não está fixo no tempo, ou seja, não descreve quando a ação acontece. Por isso “para que todo o que nele crer” não pode ser interpretado como uma ação única de conversão ou de crer uma única vez, mas sim uma confiança contínua, um crer contínuo no único Filho de Deus dado em amor pelo mundo. O crer é eterno, como eterno é o viver.

Tendo esta perspectiva do crer como eterno, agora eu posso me livrar das amarras teológicas equivocadas que insistem em dizer que temos uma data fixa de conversão. Não temos, por mais forte que seja a sua experiência com o sagrado, ali é o início de uma jornada de mudança de vida. O próprio apóstolo Paulo, que teve uma experiência fantástica no caminho de Damasco, reconhece que sua vida continua em constante desenvolvimento, e que ele ainda não havia alcançado a coroa da vitória. Não à toa ele recomenda para que quem esteja em pé, tome cuidado para que não caia. Algumas linhas teológicas interpretam a relação com Cristo a partir do evento temporal: a data da conversão, a data do “pecado”, a data que ganhou a salvação, a data que a perdeu. Não é possível perder na temporalidade aquilo que nós recebemos como graça eterna. Salvação não se perde, pois é graça de Deus para nós. João afirma que “De sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça”, ou seja, da eternidade plena do Pai recebemos a graça por meio do filho, e ela é abundante, graça sobre graça. O crer nos leva a ter. O crer é eterno, como eterno é o viver.

Ter é um verbo perigoso demais, pois ele indica posse, e posse pressupõe poder e com grandes poderes vem grandes responsabilidades. A nossa, é viver a vida eterna, que nós temos em Cristo Jesus. Vamos de novo para o grego. William Hendriksen nos ajuda a compreender melhor: O adjetivo eterna (αἰώνιος) ocorre 17 vezes no quarto Evangelho e seis vezes em 1 João, sempre com o substantivo vida … Indica uma vida que é diferente em qualidade da vida que caracteriza a era atual. No entanto, o substantivo com seu adjetivo (ζωή αἰώνιος) também possui uma conotação quantitativa, tal como usado aqui em 3.16: é realmente uma vida eterna, sem fim. E é por ser uma vida com conotação quantitativa, sem tempo determinado, é que Jesus afirmou a Nicodemos que é necessário nascer de novo: “Eu lhe digo a verdade: quem não nascer de novo, não verá o reino de Deus”.

É preciso nascer para viver. Com a vida eterna não é diferente. Precisamos nascer novamente, e isso não significa reencarnar, pelo contrário, pois a vida eterna nós já desfrutamos dela hoje. Nós a tempos hoje. Aqui recorro a Wener de Boor, teólogo alemão, para compreendermos melhor: “Ter” é possível porque não se trata de uma “eternidade” filosófica, que seria um mero contraste ao “tempo”, mas da vida divina, que também já pode ser vivida no tempo presente. Essa “vida” está presente na palavra, em Cristo, como ouvimos em João 1.4: 4 Aquele que é a Palavra possuía a vida, e sua vida trouxe luz a todos. E cá estamos, novamente, olhando para o conceito de eternidade como olhamos para o conceito de cosmos: em todo e qualquer tempo e espaço, Deus lá está e podemos viver sua graça e amor. Além disso, a graça de Deus nos retira da temporalidade de nossos corpos para nos colocar diante da eternidade de nossa totalidade existencial. Não mais vivemos na contagem do tempo, mas na qualidade do tempo, que é eterno com Cristo.

Ter é um verbo perigoso, lembre-se, pois se temos a vida eterna, precisamos viver conforme a vida eterna. Por isso, antes de enfatizar a fé, Jesus enfatiza a necessidade de regeneração: nascer de novo. Como isso acontece? Deus nos deu, por amor, o seu filho, e Deus nos dá a fé, a fé é dom de Deus. É pela fé que cremos e, quando cremos temos a vida eterna. A vida eterna é, portanto, resultado do amor doador de Deus pelo mundo. Ter a vida eterna acarreta transformação, pois não podemos viver a vida eterna se não nascermos da água e do Espírito. Por isso cremos que no batismo somos selados com o Espírito que testifica em nós que somos de Deus e, portanto, podemos viver hoje os valores de vida eterna.

No mundo onde a experiência do momento é a que vale, somos convidados à eternidade. A graça de Deus se derrama sobre nós para tenhamos vida eterna. É uma afirmação simples, mas não simplista. Ter a vida eterna não é um ato egoísta e individual. Deus amou o mundo, a criação, da qual você faz parte, mas você não é o todo da criação. Você não é o preferido de Deus, o queridinho de Jesus. Ele nos chama como povo, para uma vida eterna comunitária, para a salvação que é estendida a todo aquele que nele crê e que reverbera alterando o universo ao nosso redor. O quão impactante é sua conversão na vida de seus familiares e amigos? Nascer de novo é saber que a eternidade já começou para os que creem. Nós não temos um “mandato cultural”, uma ordem de transformar a sociedade em uma sociedade cristã. Nós temos uma missão, que é pregar o evangelho, a boa nova de salvação, a verdade que transforma não uma sociedade, mas o universo todo, a de que Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.

Quando eu insisto com você na importância de celebrar o advento, eu estou te convidando para celebrar a esperança de que ele voltará, de que a eternidade é vivida hoje e que o Reino está em construção constante. Nós somos os operários do Reino de Deus, estamos a serviço de nosso Salvador Jesus, o nosso Rei de amor e graça, que nos convida a crer o tempo todo, não importam as circunstâncias. Lembre-se do particípio presente do verbo crer: não é só hoje, é o tempo todo. No Natal celebramos a Palavra encarnada, Deus entre nós, fruto do amor do Pai para que creiamos e tenhamos vida eterna. Enquanto o Natal não chega, viva a esperança do Natal: a de que Jesus e ele voltará.

Chegamos, então, ao final desta mensagem sobre o advento e sua relação com João 3.16. O desejo do meu coração é que olhes para um dos versículos mais conhecidos da Bíblia na perspectiva da vinda de Jesus e da promessa de que ele voltará. Não importa onde está, quando está e como é o seu mundo e todos os mundos que existem, Deus ama a todos eles. Não há outro nome pelo qual há acesso a Deus, a não ser seu único filho, Jesus. Você foi chamado, com amor e graça, para viver a vida eterna, por isso creia sem cessar. Que Deus assim nos abençoe.

Giovanni Alecrim

Written by

Produtor de conteúdo do Café com Alecrim: https://cafecomalecrim.com.br . Pastor da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi.

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