O que é ser evangélico

Giovanni Alecrim
Oct 31 · 3 min read

Um olhar etimológico sobre um grupo social

A palavra evangelho vem do grego εύαγγέλιον (euangelion) e significa boas novas. Só por aí já compreendemos que o evangélico é aquele que se pauta pelo evangelho, a saber, a boa nova.

Jesus respondeu: “Voltem a João e contem a ele o que vocês veem e ouvem: os cegos veem, os aleijados andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e as boas-novas são anunciadas aos pobres”. Mateus 11.4–5

As boa novas são anunciadas aos pobres. Quais as boas novas? A de que há salvação ao pecador. Sinais são feitos, mas o mais importante, é que as boas novas são anunciadas. Quando defino que alguém é evangélico, tenho que definir que essa pessoa pertence aos que anunciam as boas novas de Cristo Jesus. Acontece que vivemos num tempo em que o termo “evangélico” se tornou um distintivo social. É evangélico, em suma, aquele que não é católico mas está numa igreja do ramo cristão. É assim que o senso comum, e boa parte da mídia, coloca todos os demais ramos do cristianismo numa mesma cesta. Acontece que os católicos também são evangélicos, eles também anunciam as boas novas de boa alegria.

Não posso especificar demais, mas também não posso generalizar quando defino evangélico. Se etimologicamente estamos diante de um termo que nos coloca aos pés do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, socialmente isso nem sempre acontece. Os evangélicos dos nossos dias são reconhecidos por sua impáfia, sua falta de compaixão e sua doutrina alinhada à política. Moderninhos nas formas de culto, conservadores nos valores sociais, representam uma classe da sociedade que cresce de maneira exponencial. Frutos das divisões dos protestantismo de imigração, os evangélicos hoje em pouco se assemelham seus antepassados e em muito influenciam os herdeiros do protestantismo.

Quando pego o significado da palavra evangelho e coloco diante dos valores dos evangélicos dos nossos dias, acontece o mesmo que acontece com os católicos e com os protestantes: encontramos pontos de convergência e pontos de divergência. Natural, no entanto, o que tenho visto, não pelos meios de comunicação, mas pelas experiências que tenho tido, é que os evangélicos andam cada dia mais distantes do nome que carregam. Uma visita à Expo Cristã, maior feira do mercado evangélico, seguida de uma leitura dos quatro Evangelhos de Nosso Senhor Jesus Cristo pode te fazer compreender como é difícil encontrar mais convergência e menos divergência.

Sigo com um olho lá e outro aqui. Nos últimos dois anos muitos protestantes e reformados se renderam não apenas às fórmulas de culto, música e gestão dos evangélicos, como também à agenda política, o que me entristece muito, mas contradiz a postura dos reformadores do século XVI e de seus sucessores até o presente século. Os que estudam a Bíblia, meditam e são por ela guiados não se rendem à agenda do mercado nem à agenda política do presente século, mas compreende que carregar o nome de evangélico é, antes de uma condição social, uma postura de vida.

Giovanni Alecrim

Written by

Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. alecrim.me

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