O reino dividido

Giovanni Alecrim
Nov 13 · 6 min read

O ponto de partida para uma história de Israel enquanto reino.

Foto atual do Negueb

Note-se o breve espaço dado a reis politicamente importantes em âmbito internacional como Omri, rei de Israel, ao qual o texto bíblico reserva apenas cinco versículos — 1 Reis 16.23–28. [1]

Pode parecer estranho, depois de tanto tempo, falarmos de um ponto de partida para uma história de Israel. O fato é que a partir da era pós-salomônica é que temos uma serie de dados para abordar historicamente o relato bíblico. O livro dos Reis reserva um extenso espaço, do capítulo 12 do primeiro livro até o capítulo 25 do segundo livro, para tratar dos reinos divididos até o exílio. Estamos falando de um período que se estende de 931 a.C. até 722 a.C. para o reino do Norte e 586 a.C. para o reino do Sul. O caráter do relato, tanto no livro de Reis quanto nos profetas, é sempre mais teológico que histórico.

As doze tribos

O povo de Israel, num determinando momento de sua história, que uns dizem ser após Jacó e outros dizem ser no quando da entrada em Canaã, foi agrupado em doze tribos, recebendo os nomes de cada um dos filhos de Jacó:

  • Os filhos de Lia: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom.
  • Os filhos de Zilpa, serva de Lia: Gade e Aser
  • Os filhos de Raquel: José e Benjamim
  • Os filhos de Bila, serva de Raquel: Dã e Naftali

Notem que, se pegarmos a relação das tribos de Israel, dois nomes não aparecem na lista acima, dos filhos de Jacó, a saber, Efraim e Manassés. Além disso, Levi não possui território, pois é dedicado a cuidar do culto a Javé.

Quando o reino se divide, a maioria das tribos se unem no reino do Norte: 1.Rúben 2.Issacar 3.Zebulom 4.Gade 5.Aser 6.Efraim 7.Manassés 8.Dã e 9.Naftali. Restando ao reino do Sul Judá, Benjamim e Simeão. No entanto, se formos ao texto bíblico veremos que lá se faz menção primeiro a apenas Judá como fiel a Roboão, filho de Salomão. Depois, acrescenta Benjamim. Simeão não é citado, pois seu território é praticamente todo dentro do território de Judá.

O que levou à divisão?

Dentre os historiadores não há um consenso de quando a divisão de fato começou. O que temos após a morte de Salomão é o culminar de uma série de fatores que levaram até ali. Dentre eles temos os altos impostos, o trabalho forçado, uma corte muito luxuosa e um certo privilégio às tribos de Judá e Benjamim no que diz respeito ao peso dos tributos. Isso vemos no pedido das tribos de Israel e, note, que ao final dessa conversa, temos apenas Judá como fiel a Roboão.

Os líderes de Israel convocaram Jeroboão, e ele e toda a comunidade de Israel foram falar com Roboão. “Seu pai foi muito duro conosco”, disseram. “Alivie a carga pesada de trabalho e de impostos altos que seu pai nos obrigou a carregar. Então seremos seus súditos leais.”

Quando o povo de Israel soube que Jeroboão tinha voltado do Egito, convocou uma assembleia e o proclamou rei sobre todo o Israel. Apenas a tribo de Judá permaneceu leal à família de Davi.

1 Reis 12.3–4, 20

Como se pode perceber, apenas o fato de Judá ter um território vasto e ser lá a sede do império, fazia com que o povo todo para lá fosse na hora de negociar. O que Jeroboão, em nome das tribos, queria era um governo menos autoritário e pesado. Roboão, no entanto, deu ouvidos aos jovens conselheiros, e não aos mais experientes. Já havia insatisfação, ela foi transformada em divisão.

As diferenças entre o Norte e o Sul

É interessante olharmos para o mapa da região e notarmos que o reino do Norte é mais amplo territorialmente, está localizado numa região de grande trânsito de viajantes, possuí rotas internacionais que cortam seu território ligando a Síria ao Egito. Possuí um acesso ao mar pelo vale de Jezrael. Era um território muito mais fértil e produtivo do ponto de vista agrícola que as montanhas rochosas do reino do Sul. Judá era um território reduzido, economicamente pobre e isolado do ponto de vista do plano internacional. Toda essa diferença se refletia nas riquezas e no poderio militar de cada um dos reinos. Quando Jeroboão vai confrontar Roboão, eles já possuíam um exército capaz de enfrentar e se impor sobre o do então rei de Israel ainda unificada. Outra grande diferença, talvez a principal, se refere ao plano étnico e religioso.

A população do Sul é mais homogênea, enquanto no Norte ainda existem núcleos de habitantes de origem e religião cananeia e o influxo das populações circundantes (fenícios, arameus e assírios) é muito forte. [2]

Vemos claramente como o teor teológico da narrativa de 1 Reis se apresenta, confirmando a afirmação de MAZZINGHI. No capítulo 12.25–33 narra a construção pelo recém aclamado rei Jeroboão de dois bezerros de ouro, um em Dã e outro em Betel, ou seja, nas extremidades do reino do Norte. Os bezerros simbolizavam o pedestal da divindade, que não necessariamente era Baal. Ao construí-los, Jeroboão elimina a necessidade de o povo descer para Jerusalém, no templo, para cultuar. O autor do livro dos Reis está nos mostrando que a parte fiel a Javé, mesmo que agindo de maneira contrária à sua vontade, é Judá, pois lá permanece a Casa de Davi.

Os primeiros anos

Os primeiros anos dos reinos do Norte e do Sul pode ser resumido em uma palavra: caótico.

O cisma foi seguido por duas gerações de guerra regional esporádica, que não levava a nenhuma conclusão, e durante as quais a posição de ambos os Estados piorava cada vez mais. [3]

Eram frequentes as incursões militares nas áreas de fronteira entre os dois reinos, no entanto, como enfatiza BRIGHT, não levavam a conclusão nenhuma, nada se modificava no cenário geral. Uma característica deste período é a instabilidade no reino do Norte no que diz respeito aos reis. Num intervalo de cerca de 40 anos temos quatro reis ocupando o trono: Jeroboão, Nababe, Baasa e Elá. Jeroboão e Baasa chegaram ao trono por meio de um golpe de Estado. Já Nadabe e Elá foram sucessores que foram assassinados com menos de dois anos de reinado.

Havia um fator que agravava ainda mais o conflito entre Judá (Sul) e Israel (Norte) e que era externo: o Egito. Sisaque, nobre da Líbia que fundou a Vigésima Segunda Dinastia do Egito, tinha como uma de suas esperanças a de reafirmar a autoridade egípcia sobre a Ásia. Num primeiro momento, antes ainda da divisão, ele dá asilo a Jeroboão e, pelo mesmo motivo, após a morte de Salomão, o permite voltar para que lute. A luta termina com o enfraquecimento de Israel e a divisão. É aí que Sisaque vê uma oportunidade e invade Judá e Israel, devastando toda a Palestina. Entraram pelo Negueb, e chegaram até o Edom. A tomada da região, no entanto, não permitiu a Sisaque consolidar o Egito na região. Conflitos internos o obrigou a reduzir as incursões. Judá, por ser mais fora do eixo de rota comercial, sofreu menos com as incursões do Egito, há ainda a hipótese de Roboão ter pago tributo, simbolizando uma vassalagem. Ao longo das incursões do Egito na região temos como reis de Judá Roboão, Abia e Asa. As lutas entre os reinos do Norte e do Sul continuaram durante esse período, mesmo que em menor escala, com um predomínio maior do reino do Norte, até que Asa, rei de Judá, se alia a Ben-Hadade, rei dos amorreus que residia em Damasco, o que obriga o reino do Norte a recuar em suas intensões.

Conclusão

A divisão do reino de Davi e Salomão acontece como fruto de diversos fatores que nasceram na consolidação do reino e que culminaram em uma separação, o que, em certa medida impediu uma guerra civil, mas não impediu uma guerra constante entre os dois reinos.

Ao se unir a Ben-Hadade, Asa inaugura um novo momento na política internacional dos dois reinos: o de se fazer alianças por interesse e conveniência. Esta prática será adotada constantemente em ambos os reinos e, por vezes, trará consequências trágicas para ambos.


[1] MAZZINGHI, Luca. História de Israel: das origens ao período romano. Editora Vozes. Petrópolis, RJ. 2017

[2] ibidem

[3] BRIGHT, John. História de Israel. Edições Paulinas. São Paulo, SP, 1978


O presente texto foi escrito para a aula da Academia Bíblica da , São Paulo, SP, escrito em 13 de novembro de 2019

Giovanni Alecrim

Written by

Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, atualmente na IPI Tucuruvi. Produtor de conteúdo do Café com Alecrim: https://cafecomalecrim.com.br

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