O Reino do Sul — Ezequias

Giovanni Alecrim
Jan 22 · 6 min read

Reformas e sonho de liberdade

Inscrição em hebraico do tempo do Rei Ezequias, na entrada do aqueduto para o tanque de Siloé.

Ezequias confiava no SENHOR, o Deus de Israel. Não houve ninguém como ele entre todos os reis de Judá, nem antes nem depois. 2 Reis 18.5

Em 722 a.C. o Reino do Norte termina. Israel passa a ser uma província do Império Assírio, que rebatiza a região com o nome de Samaria. Judá, sob reinado de Acaz, torna-se estado vassalo do império Assírio e não é invadido. É nesse período que Jerusalém se torna o centro da religião dos israelitas e a elaboração dos textos ganha força. A escola Deuteronomista surge nesse período e os profetas escritores também, como Isaías e Miqueias. É nesse contexto de centralidade da fé e submissão política que Ezequias chega ao trono. Quando se trata de cravar uma data para a chegada de Ezequias ao poder há sempre uma controvérsia. Há historiadores que datam em 728 a.C., reinando em conjunto com seu pai, Acaz. Outros datam em 716 a.C., após a morte do pai e já passados seis anos da tomada do Reino do Norte pelos Assírios.

O querido dos cronistas

Ezequias é retratado de maneira muito positiva pelos textos de 2 Reis e 2 Crônicas:

Ezequias se apegou ao Senhor, não se afastou dele e teve o cuidado de obedecer a todos os mandamentos que o Senhor tinha ordenado por meio de Moisés. 2 Reis 18.6

Em tudo que fez no serviço do templo de Deus e em seus esforços para obedecer à lei e aos mandamentos de Deus, Ezequias buscou seu Deus de todo o coração. Como resultado, foi muito bem-sucedido. 2 Crônicas 31.21

Nas narrativas de ambos os livros, Ezequias é apresentado como rei justo, fiel e que buscou unificar o povo em torno do templo de Jerusalém. Tal imagem sempre apresentada em contraste a seu pai, que foi infiel. No quando da celebração da Páscoa, narrado em 2 Crônicas 30, Ezequias manda chamar todo o povo de Israel e Judá. É interessante tal narrativa, pois ainda se refere ao Reino do Norte como Israel e mostra que Ezequias, mesmo sabendo da destruição do vizinho, não desconsidera aqueles para as celebrações da Páscoa em Jerusalém. É um movimento religioso e político muito perspicaz por parte do Rei de Judá.

A ação de Ezequias respondeu a anseios da sociedade. Com uma tradição de culto estável e uma população mais conservadora, Judá era menos aberta a importações de costumes estrangeiros que pudessem influenciar a sua religião. Vemos isto consolidado, alguns séculos depois, nas figuras dos escribas e fariseus do tempo de Jesus. Com o vizinho do Norte tomado pela Assíria, a teologia desenvolvida na época apontava para que a desobediência da casa do Rei levava a queda da nação, e, portanto, a obediência da casa do Rei, levava a sua permanência e da nação. A aliança eterna de Javé com Davi era os óculos pelo qual o cidadão de Judá e Israel lia o contexto ao seu redor. Neste sentido, Bright nos ajuda a compreender:

Poder-se-ia admitir, com certeza, que um rei pecador pudesse atrair castigo sobre si mesmo e sobre a nação, mas não se podia admitir a possibilidade de que a dinastia pudesse acabar ou que as promessas falhassem. Uma teologia desta natureza só poderia encarar aquela humilhação como sinal de desagrado divino para com o rei de então. [1]

É com esse sinal de alerta gigantesco acesso que Ezequias olha para seu passado, seu contexto e entende ser necessária a tomada de medidas de centralização do culto, reforma e readequação dos ambientes do Templo e estabelecimento do culto a Javé como o verdadeiro e único culto de Judá. Um rei que valoriza a religião de seu povo, restabelece os princípios fundantes do culto e menospreza os demais deuses e cultos só poderia ganhar a simpatia do povo e, principalmente, dos cronistas de sua época.

O contexto externo

Se o contexto interno era profundamente favorável, o externo parecia corroborar. Só parecia. Sargão reinava na Assíria e enfrentava oposições em todos os cantos de se u império. Na Palestina, rumores do enfraquecimento de Sargão, que havia perdido a Babilônia, chegaram reforçando a esperança de um novo momento de transição de poder. Tudo foi alimentado pela tomada do Egito em 716 e 715 a.C. por Piankhi, rei da Etiópia, que pacifica as rebeliões de sucessão da Vigésima Quarta Dinastia e abre a Vigésima Quinta Dinastia do Egito, colocando um rei vassalo no poder. Lembremos que o Egito tem papel fundamental na história antiga da Palestina e que, como já falamos antes, dominou por diversas vezes a região. Esse pêndulo da história parecia se mover novamente em direção ao Egito, o que daria a oportunidade de Judá, Moab, Edom e outros reinos da região se unirem numa aliança contra a Assíria. Ao que tudo indica, Judá não se juntou a essa aliança, pois não só Sargão não estava enfraquecido, como estava no auge de seu poder. A resposta a rebelião dos reinos da região foi com mão pesada e a ajuda do Egito não veio. Judá saiu ileso.

O não envolvimento com um movimento de rebelião deu a Ezequias as condições de que precisava para implementar as reformas religiosas e políticas em Jerusalém. Ezequias não apenas quis reformar, mas ele queria reunificar Israel e Judá, sob um Reino de paz, imparcialidade e justiça. O texto de Isaías 9, possivelmente deste período, aponta para esta expectativa de Ezequias e que é seguida por Manassés e Josias. Isso se vê no casamento de ambos com mulheres galileias. Diante de toda essa expectativa de Ezequias, tinham os assírios, reerguendo o santuário de Betel para contrapor as reformas de Judá, dando aos cidadãos da província de Samaria um lugar de culto a Javé.

Com a morte de Sargão assume o trono Senaquerib. Menos habilidoso que seu pai, o novo Rei Assírio causou estranhamento a Ezequias, que viu ali a oportunidade de uma independência, fiada na ajuda do Egito, mais consolidado com Shabako no poder, e na aliança de reinados da Palestina que viam a oportunidade mais concreta que antes. É neste contexto que 2 Crônicas registra o fortalecimento das defesas de Jerusalém e construção do aqueduto de Siloé, que trazia águas da fonte de Gion por baixo da colina de Jerusalém.

Em 1880 foi encontrada na entrada do túnel uma inscrição em hebraico que provavelmente remete ao próprio Ezequias, na qual os operários narram de modo detalhado e apaixonante a fase final de construção do túnel. [2]

A resposta de Senaquerib vem forte. Ele invade a região e sitia Jerusalém. No entanto, inesperadamente não a invade, mas se retira de volta à Nínive. Este recuo é interpretado pelos cronistas como um auxílio divino, em resposta à fidelidade de Ezequias a Javé. Não sabemos o que aconteceu para um recuo tão imediato, sabemos apenas que houve um pagamento de grande tributo de Judá para a Assíria.

Conclusão

Se não temos como precisar o início do reinado de Ezequias, também não temos como precisar seu fim. Alguns historiadores fixam em 687 a.C., que é a mais aceita, mas há uma cronologia alternativa que a coloca em 700 a.C., logo após a campanha de Senaquerib contra Judá. Todo caso, Ezequias deixa o trono para Manassés, e entrega uma Judá menor, restrita a Jerusalém e seus arredores, e mais enfraquecida interna e externamente. No entanto, segue a dinastia no poder, e Manassés vai assumir, sendo o rei que mais tempo permaneceu no trono em toda a história de Israel: 45 anos.


[1] BRIGHT, John. História de Israel. Edições Paulinas. São Paulo, SP, 1978

[2] MAZZINGHI, Luca. História de Israel: das origens ao período romano. Editora Vozes. Petrópolis, RJ. 2017


O presente texto foi escrito para a aula da Academia Bíblica da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi, São Paulo, SP, escrito em 22 de janeiro de 2020


Giovanni Alecrim

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Produtor de conteúdo do Café com Alecrim: https://cafecomalecrim.com.br . Pastor da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi.

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