Qual é o limite?

Giovanni Alecrim
Dec 19, 2019 · 3 min read

O governo deve ser combatido a partir de quando?

Dias desses segui a pé de casa até o centro comercial do Tucuruvi, aqui na Zona Norte de São Paulo. Precisava comprar um material e resolvi deixar o carro na garagem. Fazia tempo, uns seis a oito meses, que não passava em horário comercial pelas ruas do bairro. Tenho o privilégio de morar há uma quadra da Igreja que trabalho. Voltando para a caminhada, no trajeto, em horário comercial, me assustei com a quantidade de lojas fechadas, com a placa de aluga-se na frente, e outra considerável de “passo o ponto”. Voltei para casa com certa tristeza no coração. Dias depois, preço da gasolina começou a subir, depois o dolar, a carne e segue-se a subida de preços.

Uma das coisas que tem me causado certa angústia, e confesso até uma desilusão, é o fato dos discursos de intolerância e a agenda de embates e polêmicas serem o modus operandi do autal governo. Tenho procurado me manifestar pouco sobre política, mas confesso que os tempos atuais me colocam diante da inevitável tarefa de apontar o dedo e de acusar, o que, para mim, é uma tarefa muito difícil, pois estou fugindo de embates.

Acontece que chegamos num ponto complexo e perigoso demais para aturar e aceitar determinadas ações. Pesquisadores fugindo do país por estarem sendo ameaçados, artistas sendo perseguidos pessoalmente e em redes sociais, pastores tendo que enfrentar comunidades e denominações inteiras por dizer o que pensa sobre o atual governo. Não é possível que alguém assista isso e ache normal. Para piorar ainda mais, os preços dos combustíveis e carnes estão nas alturas. Mas a crise tem endereço certo: a camada mais pobre da população. E nem precisa ser os da periferia não, estou me referindo aos 90% de brasileiros que recebem menos de cinco salários mínimos e que estão atolados em dívidas. E dá-lhe taxa de juros alta, dolar alto e lucro estratosférico dos bancos.

Dizem que se a economia vai bem, não há crise no país. O que tenho visto no Brasil é um milhar de pessoas se contorcendo para justificar a política econômica desastrada do governo, se valendo de argumentos pífios e não percebendo que, enquanto eles trocam a carne vermelha por ovo no almoço, o ministro posta foto de churrasco para tirar onda com ambientalistas. Mas tá tudo bem, a Avenida Rebouças em São Paulo está a todo vapor construindo apartamentos para os 10% da população, o acesso a serviços básicos como educação, saneamento e cultura está sendo deixado de lado e a imensa massa de iletrados está amedrontada, se desdobrado para não perder o emprego e ter condições de pagar o salário.

Eu olho ao redor e vejo que as nações vizinhas, bem ou mal, estão se mexendo. Eu ainda não sei qual o limite para sairmos às ruas, para deixarmos as redes, textos, podcasts e vídeos e passarmos à ação de fato. O discurso da revolução é lindo, mas ainda não nos tocamos que a hora dela já passou e que urge nosso país virar a mesa, deixar de ser refém de uma elite do atraso, que só pensa em sua viagem para o exterior e que não se dá conta que, sem igualdade social, não há nação desenvolvida. E eu ainda me pergunto: qual é o limite para que haja união popular em nossa nação?

Giovanni Alecrim

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Produtor de conteúdo do Café com Alecrim: https://cafecomalecrim.com.br . Pastor da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi.

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