Salomão

Giovanni Alecrim
Nov 6 · 7 min read

O rei da era de ouro de Israel

Salomão reflete a situação religiosa extremamente instável de seu tempo. [1]

A história de um reinado pode ser contada de diversas maneiras. Quanto mais antigo, mais provável que encontremos relatos positivos e exaltadores das figuras dos reis. Na Bíblia, no entanto, os grandes feitos sempre vêm narrados ao lado das falhas de caráter. Saul, Davi e Salomão fizeram grandes coisas, boas e ruins. Quando olhamos para Salomão, no entanto, possuí uma fama difícil de se mudar: a de um rei sábio. Teria sido ele mesmo sábio? O que fundamenta tal afirmação, o que a contrapõe? Vamos conhecer um pouco do reinado de Salomão e compreender sua importância na história de Israel.

Davi reinou de 1010–970 a.C. Em 970 a.C. Salomão assume o trono, reinando por cerca de quarenta anos. Um tempo de consolidação e expansão do Reino de Deus. Salomão era um tido como um homem de paz, o que aliás, é o significado de seu nome. O que é bastante interessante pensarmos nisto, pois ele é filho de Bate-Seba, portanto, nasceu em um contexto e fruto de uma situação nada pacífica. Salomão foi quem conduziu Israel ao auge, mas legou à nação a derrocada de uma dinastia.

A ascensão ao trono

Salomão era o décimo filho de Davi, portanto, longe demais do trono. Ainda por cima, era filho de Bate-Seba, a mulher com quem Davi cometera adultério e mandara matar o marido. Na linha de sucessão, Salomão sequer era contado. No entanto, é para ele que vai o trono, segundo promessa de Davi. Adonias, primeiro na linha de sucessão, vendo que seu pai estava doente, decide se autoproclamar rei e dar um banquete, “Mas o sacerdote Zadoque, Benaia, filho de Joiada, o profeta Natã, Simei, Reí e a guarda pessoal de Davi se recusaram a apoiar Adonias”. (1 Reis 1.8). Bate-Seba e Natã comunicam Davi que proclama Salomão rei. Após a morte do pai, Adonias tenta mais uma vez tomar o trono, mas Salomão tom a frente e executa todos os que se opuseram a ele e apoiaram seu irmão. No relato de 1 Reis 1–3, temos essa história com mais detalhes e, como é de se imaginar, escrita bem depois dos fatos ocorridos. Ao final de tudo, Salomão recebe a aprovação divina durante a noite passada no santuário de Gabaon. O que temos, nos três capítulos, é a legitimação teológica da subida de Salomão ao trono. Se Davi, seu pai, foi o rei que fez nascer Israel enquanto reino e nação, a Salomão coube a consolidação das instituições.

Salomão e o templo

A consolidação do reinado em Israel se dá em consonância com a construção do Templo. 1 Reis reserva do capítulo 5 até o 9 para registrar este feito. O Templo se tornaria o mais importante monumento de Israel até sua destruição pelos babilônicos na época do exílio. O edifício erguido sob o reinado de Salomão possuía como recintos principais o pátio externo, onde se ofereciam sacrifícios e o santuário, onde estava o Santo dos Santos, local que abrigava a Arca da Aliança. Não havia nenhuma inovação no que diz respeito a arquitetura, em comparação com os templos cananeus ou siro-fenícios. É preciso lembrar que 1 Reis 5 registra que “Homens da cidade de Gebal ajudaram os construtores de Salomão e Hirão a prepararem a madeira e as pedras para o templo”. Isto nos mostra que havia construtores de dentro e de fora de Israel, pagos pelo rei de Tiro, que recebia de Salomão o pagamento pela mão de obra especializada.

Não é possível precisar quando os cultos em outros santuários deixaram de acontecer, o que se sabe é, paulatinamente, após a conclusão do Templo, Jerusalém se tornou o local central do culto. Assim como seu pai, o rei Davi, Salomão conviveu com outros cultos, mas não só isso, ele prestou culto a outros deuses:

Salomão adorou Astarote, a deusa dos sidônios, e Moloque, o repulsivo deus dos amonitas. Com isso, Salomão fez o que era mau aos olhos do Senhor; recusou-se a seguir inteiramente o Senhor, como seu pai, Davi, tinha feito.

No monte que fica a leste de Jerusalém, chegou a construir um lugar de culto para Camos, o repulsivo deus de Moabe, e outro para Moloque, o repulsivo deus dos amonitas. Salomão construiu esses lugares de culto para que suas esposas estrangeiras queimassem incenso e oferecessem sacrifícios aos deuses delas. (1 Reis 11.5–8)

Poderíamos aqui pensar num desvio moral e religioso de Salomão, mas como citamos na abertura, Salomão reflete a situação religiosa instável de seu tempo e o casamento e culto a deuses estrangeiros é apenas um desses aspectos.

O palácio real

Outro elemento de consolidação da monarquia israelense é a construção do palácio, na qual Salomão investe treze anos, quase o dobro estimado para a construção do templo. Em torno do palácio se forma uma classe administrativa extensa, muito maior que a de Davi, e mais complexa. A consequência de tal estrutura foi a constituição de uma classe de funcionários responsáveis pela corte e governo do país, o que levou a criação de uma formação de novos administradores públicos. Não sabemos se em modelo de escola, ou de ensino por grupos, mas sabemos que tal busca pela teoria e capacitação levou, anos mais tarde, ao surgimento das primeiras obras sapienciais de Israel, como por exemplo as partes mais antigas de Provérbios. Embora a escrita em Israel tenha sido difundida mais por volta de VIII a.C., com a descoberta do abecedário Tel Zayit, datado de X a.C., atestou-se que alguma atividade escrita era comum em Israel, mesmo nos níveis populares, na época de Salomão.

Com o palácio e a consolidação da monarquia, duas grandes características se podem apontar do governo de Salomão. Primeira, a introdução de um sistema de impostos, essencial para a manutenção e investimento do governo, desenvolvido com base nos doze distritos, que são uma nova divisão que substituem as tribos, deixando para o passado a formação tribal e remodelando a forma de se ver Israel. Segunda, a criação de um serviço de trabalhadores públicos forçados, um grupo destinado ao serviço em obras públicas, sejam eles escravos, prisioneiros ou cidadãos livres. A introdução de tal sistema fez com que Salomão fosse visto como um grande rei, mas foi exatamente este sistema que levou, após sua morte, à guerra pela sucessão do trono e a divisão dos reinos.

Salomão, o construtor

Não só de Templo e palácio foi feita a herança arquitetônica de Salomão. Os arqueólogos encontraram em Jerusalém, Gezer, Hazor e Meguido estruturas da época do rei. Uma das características da arquitetura salomônica é o portal de seis câmaras, um tipo de portal construído na entrada principal das muralhas das cidades com espaço interno para os guardas. Tal características são, de fato, relevantes para a pesquisa arqueológica, pois enfim temos mais que o texto bíblico e os fragmentos de peças como evidências da atuação de um rei de Israel.

Salomão, o estadista

O rei Salomão também construiu navios em Eziom-Geber, um porto próximo a Elate, na terra de Edom, às margens do mar Vermelho. Hirão enviou uma frota com marinheiros experientes para servirem nas tripulações dos navios, junto com os marinheiros de Salomão. (1 Reis 9.26–27)

O que o texto de 1 Reis nos revela é uma expansão no comércio. Salomão investe na construção de uma frota com fim comercial, trocando produtos agrícolas, comercializando artesanatos, bigas e cavalos. Tamanha expansão comercial trouxe como consequência a entrada de outros cultos e de sabedorias vindas de outras partes. A literatura sapiencial é potencializada neste período. Embora não haja registro na historiografia egípcia do casamento de uma filha de faraó com um rei israelita, a Bíblia registra tal acontecimento. Toda essa profusão de acontecimentos, do comércio a expansão literária, dos muitos casamentos aos cultos a outros deuses, nos atesta que, diferentemente de Davi, Salomão preferiu a via diplomática à guerra.

Salomão, o sábio?

Não há consenso na pesquisa bíblica quanto a autoria de Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos. A tradição tende a atribuir a Salomão, porém é mais provável que se trate de coletâneas de sabedorias, quiçá do rei, quiçá de outros autores. O fato é que, toda a sabedoria atribuída a Salomão tem um profundo contraste com sua atuação como rei de Israel. Se tomarmos por base Provérbios 1.7, que diz que 7 “O temor do Senhor é o princípio do conhecimento, mas os tolos desprezam a sabedoria e a disciplina”, fica difícil dizer que Salomão foi um rei sábio, pois ele se casou com várias mulheres para conseguir uma paz de Estado, cultuou os deuses de suas esposas e construiu para eles locais de culto, não soube administrar sua casa com o fim de deixar um herdeiro consolidado para o trono e ainda não ouviu seu povo quanto às queixa a respeito dos impostos, serviços forçados e a divisão dos distritos. Teria sido Salomão de fato um sábio? Não foi com pouca sabedoria que o reino se consolidou, no entanto, assim como seu pai foi o homem segundo o coração de Deus, mas cometeu assassinatos, foi conivente com o estupro de uma de suas filhas, cometido por um de seus irmãos, entre outras falhas importantes registradas na Bíblia.

Conclusão

O reinado de Salomão foi marcado por grandes feitos, conquistas importantes e um legado cultural e religioso que permanece até hoje. Legou também a derrocada da dinastia e a divisão do reino em dois. Se Davi unificou as tribos em sua liderança em torno da Arca da Aliança e Jerusalém, Salomão consolidou o aspecto religioso trazendo a Arca para o templo, consolidando assim a religião de Israel.

Davi e Salomão realizaram o que Saul não conseguira: uniram comunidade secular e religiosa sob a coroa. Samuel renegou Saul e o arruinou; mas foi Salomão quem arruinou Abiatar. [2]

É singular que um profeta tenha causado a ruína de um rei e que um rei tenha causado a ruína de um profeta, ainda mais quando sabemos que Abiatar era profeta funcionário de Salomão. Um rei que toma o lugar de um profeta leva seu povo à ruína. Foi isso que aconteceu após a morte de Salomão: as consequências de suas decisões administrativas causaram revolta e levaram a divisão em Israel e Judá.


[1] MAZZINGHI, Luca. História de Israel: das origens ao período romano. Editora Vozes. Petrópolis, RJ. 2017

[2] BRIGHT, John. História de Israel. Edições Paulinas. São Paulo, SP, 1978


O presente texto foi escrito para a aula da Academia Bíblica da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi, São Paulo, SP, escrito em 06 de novembro de 2019

Giovanni Alecrim

Written by

Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. alecrim.me

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