Teologia em tempos de ruídos sociais

Giovanni Alecrim
Feb 4 · 3 min read

Buscando na diversidade o caminho para a construção teológica em tempos de ruídos sociais

Teologia é diálogo, é diversidade. Se a ciência teológica é pautada pela revelação do sagrado, a maneira como interpreta-se tal revelação é relativa. A própria Bíblia apresenta diversas maneiras diferentes da percepção humana da revelação do sagrado. Fazer teologia é transitar na diversidade.

A diversidade na revelação

A teologia, enquanto fazer teológico, se ocupa da revelação de Deus e sua relação com o todo. O sermão é escrito, ou esboçado, tendo em vista a revelação do texto bíblico e sua aplicabilidade e diálogo com os nossos dias. Vemos a diversidade na forma como Deus se revela nos relatos bíblicos. Em Êxodo temos Deus se revelando na forma de uma sarça ardente e dando a Moisés o seu nome: “Eu Sou”. À Jacó ele apareceu em forma de Anjo e com ele lutou. No Novo Testamento ele se revela em forma humana, Jesus, a revelação plena de Deus entre nós. Em diversas passagens vemos que Deus se manifesta de diferentes maneiras e age de diferentes maneiras, conforme a ocasião. Isso não faz de Deus um dissimulado, mas sim que ele leva em conta a nossa limitação temporal e humana para conosco se relacionar.

A diversidade na interpretação

Há, portanto, no próprio texto bíblico uma diversidade na revelação, o que nos leva a perguntar: há diversidade na interpretação? Com certeza. Cada vertente teológica interpreta o texto bíblico com seus fundamentos e características. Os sacramentos são a prova mais visíveis disto. A sotereologia — estudo da salvação — é outra prova visível disso. O fato de que para um Batista a Ceia do Senhor é símbolo e para um Presbiteriano é meio de graça não torna um menos cristão que o outro. A diversidade interpretativa revela as nuances de como Deus se relaciona conosco.

Os Evangelhos Sinóticos nos apresentam uma série de diferenças entre eles que validam o que acabo de escrever. O Sermão do Monte em Mateus ocupa três capítulos, em Marcos temos o sermão citado em meio a diversos ensinamentos, sendo apenas dois versículos, em Lucas ele está todo espalhado pelo evangelho, sem uma sequência como em Mateus. A diversidade com a qual os evangelistas interpretaram o acontecimento Sermão da Montanha é impressionante e atesta a diversidade interpretativa acerca da revelação divina.

A diversidade como rota para o diálogo

Quando compreendemos que a diversidade não é ruim, mas sim parte da multiforma com que Deus se relaciona conosco, podemos então assumir os princípios de Santo Agostinho para nos relacionarmos com confissões de fé diferentes da nossa.

No essencial, unidade; nas diferenças, liberdade; em tudo o amor.

Há no cristianismo princípios que são essenciais. Um cristão não pode negar o caráter divino-humano de Jesus. Não pode negar a necessidade da comunhão dos santos. As diferenças não podem impedir que a unidade seja vivida e o diálogo seja o caminho pelo qual se construa uma teologia dialogada com outras formas de teologia e com outras formas do saber. Quando eu me fecho na minha doutrina, na minha forma de ver e ler o Evangelho, eu me fecho para o próprio Evangelho. As diferenças não podem nos impedir de dialogar.

Os ruídos sociais

Os tempos são de ruídos sociais. Amo utilizar o Twitter, o Medium, o Telegram, mas em todos eles a chance de criarmos ruídos mais que comunicação é grande demais. Podemos sim aprender e crescer com eles, mas se eu publico, devo estar pronto para dialogar. O diálogo é a base toda relação e desenvolvimento humano. É no diálogo que aprendemos, é sendo contestados que experimentamos o crescimento. Se a sua teologia não pode ser questionada, deixou de ser teologia, virou mais uma ideologia extremista.

Em tempos de ruídos sociais, convido você para olhar para a teologia que você produz e passe a considerar o diálogo como fundamento para a produção teológica. Abraçar a diversidade de interpretações fortalecerá suas convicções e aumentará seu amor pela forma como Deus escolheu se relacionar com você. Lembre-se sempre que somos seres relacionais e não nos relacionamos da mesma forma com todas as pessoas. Deus se relaciona de diversas maneiras, para que, de diversas maneiras, sua graça, amor e misericórdia conduzam o ser humano mais próximo dele.

Giovanni Alecrim

Written by

Produtor de conteúdo do Café com Alecrim: https://cafecomalecrim.com.br . Pastor da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade