
“Thank you, but Godot is in another castle!”
Não basta ir atrás, tem que administrar as encruzilhadas que a gente atravessa. O mundo não vai dar boi pra você, só porque tá na batalha. O suor e o sangue que a gente despeja não serve pra dar carteiraço na vida, você não é melhor ou pior que ninguém por lutar mais. E eu, a um passo de formiga de me formar, pensei: "Agora eu tô mais perto do sonho ou era só miragem, dissipando no horizonte?"
Na universidade, não tive aulas sobre como ser um escritor. Tive que manter essa chama dentro de mim por conta, juntando tudo que acumulei, cada fração cósmica de conhecimento que pude catar. Mas afirmo que o curso de Letras (e muito por parte de seus membros, meus veteranos e colegas) foi preponderante para abastecer essa fogueira, às vezes mexendo a brasa, outras derramando querosene. E foi nesse movimento que tirei essas lições, completamente suspeitas e nada confiáveis. Se quiser parar de ler, agora é a hora.
Se parar, atrofia
Eu tenho um amigo que é um amante de academia, Whey, a porra toda. Cada barra de peso a mais no supino é uma vitória. A alimentação saudável tortura, deixa ele mal-humorado. O ácido láctico faz gemer enquanto ele anda, come, levanta da cama. Já eu sou um entusiasta da letra no papel. Bebo Bukowski no café, almoço Veríssimo, janto Murakami. O ácido (um outro aí) já coloriu minha noite, o álcool já embaçou minha visão. Abri horizontes da alma com meu supino literário. Exercito o músculo da escrita e, se descuido, pra recuperar a forma é que nem tentar perder gordura localizada.

Decoro gramatical é farsa.
Esqueça do adjunto, ignore a passividade sintática e a quadradeza da língua formal que te disseram que era certa. Você não precisa disso, pode jogar fora. Ou você sabe escrever ou não sabe, não é a gramática que vai te ajudar nisso. Estrutura não diz nada, palavras sim.

"Ah, eu vou trabalhar em qualquer coisa e escrevo no meu tempo livre."
Seria um sonho ter tempo pra isso. Mas o dia tem 24 horas e fica difícil escrever quando se gasta toda sua energia em alguma coisa que não te completa e só sobra força pra fazer coisas como respirar, comer, ficar vivo. Uma das minhas decisões para o futuro é baseada justamente nessa premissa: pra fazer meu sonho dar certo, é preciso me colocar numa situação profissional que me obrigue a escrever. Não tem outro jeito.
Engolir sapo tá no contrato, mas tem limite
Não aceite — mesmo que só internamente — que pessoas que te rebaixem por que você não leu Ulisses, do Joyce, ou quem critique seus textos porque falta um quê de Mallarmé neles. Não se sinta um débil-mental porque não conhece os aforismos de Nietzsche de cor ou se você achava que Kant era uma banda de indie rock. Isso nem de longe define coisa alguma, muito pelo contrário. De fato, é altamente recomendável que vá atrás de tudo que puder sobre esses caras, mas só se fizer sentido pra você. Ler é um dever do bom escritor, mas não perpetuar cultos idiotas de autores que você não gosta. Aliás…
…escreva sobre o que gosta, como você quiser
Não restrinja seu mundo. Escritor não escreve pros outros, nem pra si. Escreve porque é a única coisa que ele sabe fazer, porque não dá pra fugir de quem se é.

Sim, vai dar medo. O holofote está em você, o palco está esperando e é sua vez de falar. Você vai suar frio nas mãos, vai engolir em seco e as têmporas vão tremer. E não vai saber pra onde olhar, pra onde ir. Provavelmente, hoje você dirá que não sabe se está pronto pra abraçar essa vida.
Mas um dia, um dia… vai descobrir.