É o cálculo econômico, estúpido!

Quando os entusiastas de ideais esquerdistas são questionados sobre o porquê de todas as investidas de implantação do almejado sistema “justo e igualitário” terem falhado miseravelmente ao redor do mundo, resultando em profundas conjunturas de caos nos quais o totalitarismo, a miséria e a fome dominaram, a resposta usual é a de que “deturparam Marx e essas experiências não constituem o verdadeiro socialismo”.
Entretanto, o motivo de tamanha ruína estaria apenas em decisões equivocadas tomadas pelos líderes promotores da revolução ou nas próprias bases teóricas em descompasso com a realidade? Buscando elucidar tal ponto, Ludwig von Mises (1881–1973) publicou no ano de 1920 O Cálculo Econômico em uma Comunidade Socialista, um voraz ensaio no qual argumenta a respeito da catástrofe inerente ao planejamento central da economia — e que agora está sendo relançado no Brasil pela LVM Editora em versão revisada com conteúdo complementar para um aprofundamento nos estudos através de textos de diversos especialistas, como Fabio Barbieri, Joseph Salerno, Yuri Maltsev e Gary North.

Prezando pelo rigor no grau de clareza das palavras, Mises inicia a costumeira dissecação minuciosa no tema abordado por meio da análise da proposta de abolição da propriedade privada dos meios de produção para o posterior estabelecimento de uma propriedade coletiva (ou seja, um monopólio estatal), definida pelo veto à liberdade de mercado. Todavia, com a ausência do processo espontâneo de cooperação entre indivíduos, se torna impossível determinar preços genuínos, essenciais no envio de informações e incentivos.
Por consequência, sem valores monetários não há maneira de fazer um real cálculo de custos, tornando a estimativa de lucros e prejuízos irrealizável. Como efeito da falta de um arranjo guiado à base de ganhos e perdas, a alocação de recursos de modo competente revela-se quimérica, ignorando as reais demandas dos consumidores num cenário economicamente distorcido cujo desfecho é a escassez generalizada de bens e serviços.
Demolindo de forma impiedosa as pregações igualitaristas ao desnudar o “paradoxo do planejamento”, o livro também fez os rivais ideológicos do autor saírem da zona de conforto intelectual por ser precursor no debate sobre o problema do cálculo econômico, um desafio até hoje caracterizado pela carência de resposta. Dentre os esforços de refutação apresentados, o mais famoso foi elaborado pelo polonês Oskar Lange (1904–1965).
Influenciado pelos trabalhos de Fred M. Taylor (1855–1932) e H. D. Dickinson (1899–1968), Lange desenvolveu modelos do chamado “socialismo de mercado” utilizando a teoria de equilíbrio geral neoclássica para propor uma estrutura artificial de preços, ajustados mediante “tentativa e erro” em alinhamento com as instruções entregues pelo comitê central às firmas estatais, habilitada a simular mercados naturais.
Em tom de deboche durante uma das palestras ministradas na Argentina em 1959, correspondente ao segundo capítulo de As Seis Lições: Reflexões sobre Política Econômica para Hoje e Amanhã, Mises chegou a classificar o estapafúrdio plano tal qual uma mera tolice infantil, sugerindo que seus defensores devem pensar “como as crianças, quando brincam de escolinha” enquanto “não aprendem coisa alguma”.
Felizmente, passados quase cem anos desde a primeira publicação, O Cálculo Econômico em uma Comunidade Socialista envelheceu muito bem: consegue permanecer uma leitura crucial para o esclarecimento nos mínimos detalhes acerca de certo esquema nefasto ao bem-estar da humanidade — ainda mais em tempos da arrogância fatal do “socialismo e liberdade”.
