Meu nome é Kafka.

Kafka Almeida Pires.

Mesmo depois de 23 anos, eu custava acreditar que meu pai tinha mesmo me dado esse nome. Kafka. É lógico que existem nomes bem piores que o meu, mas, às vezes, parece que falta bom senso nos adultos até nessas horas. Por um capricho do meu velho, que era forte admirador do escritor tcheco, eu passei por poucas e não tão boas com esse nomezinho de cinco letras.

E com um nome desses, nunca foi preciso que me inventasse um apelido. Não tinha um dia sequer que seu pronunciamento não causasse inúmeras risadas, até mesmo os professores lutavam pra segurar os dentes dentro da boca na hora da chamada, só com o tempo iam se acostumando.

Na faculdade toda graça em torno do nome foi se perdendo, já que nessa fase os colegas de classe, a maioria deles pelo menos, não possui mais aquela crueldade inocente, ou quase inocente; E todos tinham noção de quem foi Franz Kafka. Pelo contrário, em certos momentos, esse nome até me rendiam alguns frutos, todos relacionados à literatura, é claro.

Já fazia alguns meses que eu procurava um emprego com o diploma de Jornalismo debaixo do braço. Perdi a conta de quantas entrevistas tinha feito essa semana, quantos “fica pra próxima” e quantos “entraremos em contato” ouvi; só sabia que aquela seria a primeira do dia. Na pequena sala, eu encarava todos os meus concorrentes, uns doze, gente de todas as idades e formas, um tanto constrangedor; era isso ou olhar pro chão cinza que refletia meu rosto. Percebi que uma das moças entre os candidatos me olhava constantemente, parecia me conhecer, me fitando timidamente e lançando um leve sorriso, daqueles que se dá sem mostrar os dentes.

O tédio já vencia minha ansiedade. De repente, a única porta além da que eu entrei se abriu e um homem baixo, magro e bem vestido apareceu. Enfim, alguém vai ser chamado, pensei. Fosse por ordem de chegada ou alfabética esse alguém não seria eu. O homem foi até a recepcionista, pegou a lista de candidatos e disse em alto e bom som.

“Sr. Kafka Almeida Pires.”

Parecia que o homem havia contado uma piada. Alguns deram risada e logo se contiveram, a moça que parecia me conhecer foi quem teve mais dificuldade de se conter; outros riram de canto de boca e alguns continuaram sérios, provavelmente por que estavam na frente do homem, aposto que pensaram em outra coisa pra se desviarem da vontade de rir, Afinal, o homem olhava de uma forma que rir parecia não ser uma boa coisa a fazer.

Eu me levantei e entrei na sala com o homem para a entrevista. Após quinze minutos saímos e ele falou algo com a recepcionista que não deu pra entender, e, antes que eu pudesse voltar ao meu lugar, ele me segurou pelo ombro e disse.

“Pessoal, já encontramos a pessoa pra vaga.”

Ele me olhou sorrindo e eu retribui meio sem jeito. Percebi que dessa ninguém havia achado graça. Nos viramos pra voltar pra sala, enquanto a recepcionista dispensava os candidatos com o famoso: “fica pra próxima.”

Ah! Só por curiosidade o nome do homem era Cortázar da Silva.