APOTEOSE DA FRAGMENTAÇÃO

“Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?”
(Traduzir-se, Ferreira Gullar)

Sou fragmentos

Eu não sou um todo, sou formado de fragmentos. Um pouco daqui um pouco de lá; um pouco assim um pouco assado. Se não sou todo, por quê escrever como completo? Quero saber quem deveria ser: me penso por completo; quero saber quem sou: amo meus fragmentos.


O final do copo de breja é quente

Eu odeio aquele finalzinho do copo de breja, ele fica quente e perde aquele corpo maltado, cevado e lúpulado — dependendo da breja até milhado transgênicado. É horrível. Eu desejo o copo cheio e gelado, mas, na verdade, tenho o resto quente como fardo que dói a garganta a cada um gole. Mas ainda não sei se o pior é saber que existem muitos restos de breja na minha vida ou saber que eu sou o resto quente e horrível dos outros. É horrível, eu odeio.


Eu evito tomar banho

Depois de um dia de faculdade e serviço voluntário chegar em casa e tomar um banho é algo que ultrapassa o prazer, já é considerado como necessidade. Mas por quê não tomar banho amanhã? Dormir me parece mais prazeroso, adiar minha sujeira pensando que posso deixar para amanhã me parece o modo mais confortável de viver: não confronto a sujeira e fico na mesmice prazerosa da vida. Será que por isso que fujo de me lavar dos meus pecados?


Mostarda

Quando monto meu hot-dog, eu sempre faço uma ondulação com o ketchup e nas cristas e vales dessas ondas pingo um pouco de mostarda. Uma coisa que eu fico emputecido é quando o tubo de mostarda falha e o condimento amarelo acabada se misturando com o vermelho. O que me consola é saber que ao comer o lanche os dois molhos vão se unir e fazer um gosto único — eu desejo esse gosto único —, afinal, se quisesse apenas o gosto de um, eu não colocaria o outro. Como bom ketchup que sou, procuro mostarda que complete meu hot-dog.


Amor e ódio de mãos dadas no shopping

Não há nada mais prazeroso que saber que alguém te odeia pelos motivos que outros te amam.


Obras em nome dEle, para mim

Eu amo viver como se não houvesse Deus na minha vida, ser dono do próprio nariz é maravilhoso. Eu, por qualquer motivo que seja, sempre entrego a Deus tudo que faço — aliás, se faço, é em nome dEle. O que seria pior: para Ele em meu nome ou para mim em nome dEle? Escrevo esse texto para mim em nome dEle.


Eu, eu mesmo e mais um pouco de mim

Eu sou o expoente máximo da minha vida. Das coisas que eu mais tenho pavor, depender emocionalmente de alguém com certeza tiraria meu sono. Se anos atrás, meu emocional era totalmente apoiado nas pessoas que me cercavam — principalmente pessoas que me abandonaram. Hoje estou em minha fase mais oposta ao que vivi: me vejo como meu próprio deus intocável, detentor interno de tudo que preciso para mim mesmo, único a quem devo me dedicar integralmente. Quando deixarei de ser assim?


Nazareno

Alguns anos atrás, fui fazer a visita rotineira ao dentista. Antes de sair de casa, minha mãe ordenou que escovasse os dentes. Pensando comigo mesmo, por que escovaria os dentes? Para o dentista, a autoridade máxima do local, não me achar sujo? Para minha mãe não passar vergonha? Em resumo: era tudo para “sair bonito na foto”? Gosto de me ouvir quando digo a mim mesmo: não escove os dentes para fazer bonito, nem para agradar, nem para seguir a ordem que manda em você — “aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!”.


Para a eternidade

O mais difícil de saber que “a eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez” ou, em outras palavras, “o que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente” é saber que não há nada de novo em nossas vidas, apenas uma eterna repetição de fatos e episódios. Coincidentemente, o mais difícil é o mais prazeroso, saber que o que serei no futuro é moldado agora, saber que vou viver inúmeras vezes momentos de prazer e desprazer, saber que pessoas sempre irão e virão de/para nossas vidas, é saber da existência dum ciclo maravilhoso, eterno e repetitivo. Que merda seria chorar apenas uma vez na vida.