Olha lá a intolerância

ou "Crônica da meia molhada"

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Acordei e o dia estava feio, cinza, sem graça, já não tenho aquele ânimo de levantar da cama. Arrumo minhas coisas, tomo meu banho, ponho uma roupa, estava frio, então, infelizmente, coloquei calça e tênis, quando dou o primeiro giro na chave começa a chover. Vou para o ponto de ônibus, debaixo de água, nem 5 minutos longe do meu conforto quentinho e seco e minha meia já estava molhada. O ônibus demora para chegar, passam todas as linhas possíveis por mim, mas meu ônibus me esquece, penso em desistir e ele aparece, alguns segundos de "olha que merda de dia, vou voltar para casa" passam pela minha cabeça, mas quando vejo já estou dentro do ônibus indo para o metrô.

No metrô chego e já tem fila para passar pela catraca, espero parado com a meia molhada, com a roupa com respingos e aquele pensamento de "por que não voltei para a casa?". O metrô demora, quando chega: vem lotado, vou espremido com a cara no ar condicionado que não foi desligado e minha meia ainda estava molhada. Chego na Sé para fazer a transferência, a meia molhada quando eu ando piora, sinto aquele caldinho fluir entre meus dedos. Entro no outro metrô, o ar condicionado também estava ligado, fico com frio na orelha vou por o capuz da blusa, estava molhando também. Novamente vem o pensamento de "por que não voltei para casa?".

Pego o ônibus para a faculdade, a Dutra na chuva tem mais trânsito que o normal. Subo a ladeira para a faculdade, a meia molhada, o caldinho fluindo e eu não aguentando mais, ainda eram 12h30. Tenho a aula, saiu da sala e está chovendo. Descendo a ladeira tenho que desviar de tudo porque estou de guarda chuva – nossa como odeio andar com o guarda chuva – a meia molhada e o caldinho fluindo. Quando estou dobrando a esquina da rua da faculdade em direção ao ponto de ônibus um carro passa em cima de uma poça bem do meu lado, ele estava rápido e eu fiquei mais molhado, aquele banho de água de guia molhou minha calça, minha blusa, mas não esqueço da meia molhada e o caldinho fluindo. Subir a rua em direção ao ponto foi o momento de maior tortura da minha vida até então, o sentimento de "não devia ter saído de casa" não apenas ecoava na minha cabeça, ele buzinava feito um navio. Eu não deveria ter saído de casa.

No ônibus voltando da faculdade recebo uma mensagem do pastor da minha igreja falando que temos um assunto importantíssimo para ser resolvido. Não era um convite, era uma convocação. Lá fui eu: cansado, com a meia molhada, calça molhada, blusa molhada, o caldinho fluindo, o guarda chuva aberto e, nesse momento, estava com fome também. Por que raios eu saí de casa hoje? Poderia estar na minha cama de boas, com o pé quentinho e sequinho, sem meia molhada! Conversei com o pastor, voltei de metrô para casa, enfrentei exatamente os mesmos problemas que tive nas outras duas vezes que usei o metrô nesse dia.

Cheguei em casa, me libertei das roupas molhadas, guardei meu guarda chuva sabendo que não o usaria mais hoje, tirei minha meia molhada e fui tomar banho. Ah, o banho. Eu deixei cair água quente só no meu pé por uns 3 minutos, entrei debaixo do chuveiro e fiquei parado lembrando do dia de merda que foi hoje. Tudo deu errado, vou começar a levar a sério esse lance de sentir que é preciso voltar para casa.

O sentimento: como eu gosto de estar em casa, sozinho em casa, mesmo quando tem gente nela, como eu amo isso, eu posso prever o que irei fazer, é como se controlasse quase que 100% da minha vida quando me isolo e fico de boas sozinho. Eu odeio ter de lidar com coisas que estão fora do meu comando, sou um intolerante: não tolero as coisas não estarem debaixo do meu controle, não suporto meia molhada.