Reino dos Céus: o Reino dos afetos

Um discípulo e seu mestre estavam no Metrô de SP, entre uma estação e outra da linha vermelha, eles conversavam sobre o Reino dos Céus, então o discípulo perguntou:
— Mestre, como eu posso ver o Reino dos Céus?
— Basta enxergar, não apenas olhar, o mundo sua volta — respondeu o Mestre. 
— Olhar? Isso me parece difícil. Eu tô falando no sentido de sentir o Reino, Mestre. 
— Se quer sentir, basta respirar fundo. 
— Acho que o senhor não está me entendendo. Quero saber como é o Reino, Mestre. 
— Então é só degustar a vida, desfrutar cada segundo. 
— Mestre, o senhor não está me ouvindo direito, existe alguma coisa do Metrô que está impedindo sua audição?
— Você que ainda não aprendeu a ouvir o Reino. 
— Mestre, eu não consigo entender o que o senhor fala, parece que falamos coisas diferentes. Eu só quero saber o que é o Reino dos Céus!
Nesse momento, percebendo a exaltação do discípulo, o Mestre deu-lhe um abraço apertado e assim que largou o jovem, disse: 
— Isso é o Reino dos Céus.
Trocada a raiva pelo desabafo emocionado, o discípulo respondeu ao Mestre: 
— Eu só queria conhecer o Reino dos Céus. 
— Mas você já o conhece, você vive nele.
— Como assim?
— Veja ao seu redor, veja aqui dentro deste vagão mesmo; veja aquela moça feliz, sorrindo para o celular, o que será que ela recebeu? Uma mensagem da pessoa que a ama? Uma foto de um parente distante? Uma notícia que libertou seu peito da angústia? Sinta esse cheiro de leite de rosas, é aquela senhora que se perfurmou antes de sair de casa. Lembra daquele lanche que você acabou de comer, sua mãe que preparou para você antes de sair de casa, não foi? Escuta esse som de riso de criança? E o abraço que te dei? Não liberou sua raiva trazendo paz? Tudo isso é o Reino dos Céus. Você está imerso nele.
O discípulo viveu por alguns segundos o momento mais maravilhoso de sua vida, que foi brutalmente interrompido por uma dúvida: 
— Mas Mestre, nesse mesmo vagão onde o senhor descreveu o Reino de forma maravilhosa, vejo gente com cara de triste, exausta pela exploração diária. Sinto o cheiro desagradável que vem daquele homem. Ao mesmo tempo aquele menino está pedindo comida ou algum trocado para ter o que comer. Escuta esse homem gritando com a sua esposa? Por fim, se encosta-se em alguém você ganha uma bela cara de nojo. O que é isso? Não pode ser o Reino dos Céus! 
— Bem observado: realmente, não é o Reino dos Céus. 
— Então, Mestre, o senhor está se contradizendo. 
— Concordo com você, porém, está equivocado. O Reino é uma realidade do agora mas ao mesmo tempo é uma realidade inconcreta no hoje. Esse antagonismo: "é agora-ainda não é", é o que constitui o vir-a-ser do Reino.
— E o que significa esse "vir-a-ser do Reino"?
— Significa que não podemos mais ver o sofrimento, a exclusão, a dor, a exploração, as marcas como condição humana em negação a vida eterna no Éden e esperar cair do céu a salvação para esses corpos que sofrem e agonizam até a morte pois suas almas já estão entregues ao Eterno. É necessário enxergar a partir da ótica de Jesus: todos temos vida, vida em abundância, portanto, as mazelas da vida, são potencial de libertação, de cura, de renovação, de paz. 
— Como vivemos no mundo? 
— Lutando contra tudo e todos que se esforçam para obscurecer a vida abundante em Cristo. 
— Como fazemos isso?
— Através da pastoral. Diferente da teologia, a pastoral é o encontro de pessoas. 
— Então, é o encontro de pessoas que possibilitam o agora do Reino dos Céus? 
— Sim. 
— E como fica Deus, a alma, a teologia, o transcendental?
— Eu não sei. Eu cuido do que me é dado: as pessoas; não cuido de teorias, verdades absolutas, conhecer o além-do-físico está longe das minhas pretensões. O conhecimento sobre o Reino não pode ultrapassar os limites do afeto. Uma incerteza transcendental​ fundamenta toda ação imanente: cuide das pessoas, isso lhe é efetivo. 
— Mestre, isso é maravilhoso! Mas pelo que enxergo da tradição cristã-ocidental, eles dão mais valor as teorias, verdades absolutas, o metafísico. O que o senhor lê, quem o senhor segue?
— Jesus.