Desbravando #2: Jornadas sintéticas à noite, casas lo-fi na alvorada em Nite Ride/Home


Base Flonop-X-724, 1:35 a.m., algum ano dos primeiros séculos do terceiro milênio — já não importa muito mais.
O letreiro de neon acima pisca-pisca, falta uma ou outra letra, só se distingue bem juntos os três caracteres de ARS, sabe-se lá o que isso significou um dia. As linhas quadriculadas de condução atravessam os portões de enrolar, pichados — hieróglifo para mim — e quebrados aqui e ali, como que com armas laser. Vejo luzes perenes adentro. Eu adentro.
Me vêm a infância, não sei o porquê. Passados repassados em vitrines, espelhos d’água e vidro — nunca d’alma — , manequins, fotografias, bancas, quiosques, lojas, produtos, árvores falsas, ao longe pavimentos, rampas, patamares. Alguns sons saem de uma fresta, confiro. É uma antiga loja de videojogos, pelo que mostram algumas telas plasma quebradas saturadas. Alguém mais pode se dar ao luxo dessas obsolescências programadas hoje? Duvido, tempo é uma comédia. Como OST para essa madruga, é agradável, tem uma vivacidade subaquática para aguentar o resto das horas.
Enquanto as baterias programadas derretem a minha mente, percebo. Aqui-ali, algum arranhão no concreto, uma rachadura grotesca revelando fundação avariada, pé-direito carcomido, coisas, muitas coisas, que deviam estar e foram levadas pelos rebeldes. Provavelmente, o logotipo de loja no meu pé, montoeira de camisas espalhadas ensujadas pelo vão. Bem ou mal, não devem estar tão longe.
Subo o patamar, perseguição infundada. Acho a primeira, talvez única coisa de interior intacto, uma loja de, que será isso, discos? As prateleiras estavam todas cheias com uns embrulhos com fotos, uns grandes, outros pequenos. A loja não tem um nome específico, arrancaram o letreiro, porta trancada. Muito suspeito, melhor dar o vazare. Atravesso o que provavelmente foi um banco na era do oligopolismo — que injusta época — , uma escada rolante tão preguiçosa que está enguiçada e
Susto.
Um carro-táxi — um modelo Retro, suponho, não sou bom de direção — , estacionado no calçadão, com um condutor jovem, de cabelo loiro retorcido e de jaqueta, do lado de fora. Não dá para ver muito sua aparência, a única coisa acesa perto era o letreiro do carro: Nite Ride. “Quem é você?”, mando, resposta zero. Chego perto, vejo convite para ir junto. Acho que não muito mais a perder, não é mesmo? Como se eu fosse um personagem mal construído de sitcom, sigo a ordem sem muita reflexão. Adeus vitrines, a coisa tá apenas começando por hoje.
Partimos por cima dos paralelepípedos, das mesas de xadrez-dominó e orelhões virados ponta-cabeça, dos flyers de quando ouro era item-luxo. O motora ligou o rádio com um dispositivo pendrive dele, começou algo. Já regulando a bandeira, perguntou onde eu ia. “Não tenho muito rumo”, expliquei. “Fugindo?”. Não quis dar impressão, fiquei quieto. Ele então desligou a máquina da bandeira, “pode pá, vamos pra casa então”. Ficamos quietos por alguns instantes, enquanto ele tentava achar o caminho mais safo para a Autopista Beira-Mar, só ouvindo a música, muito diferente do que eu costumava ouvir. “Muito bacana o som”. “Sim, o surround do Retro é excelente, não deixa vazar nada pra fora tamb…” “Não, não é isso, estou falando da música mesmo, essa que está tocando” “Ah!…”, e ele ficou pensativo. “Isso é coisa minha, eu que fiz. Eu queria ser um Juno-60”, suspirou. “Você é daqui, amigo?” “Sim, sou, e você?”, retruquei. “Sou de Base-POA-772. Antigamente se chamava Porto Alegre, que nem aqui era Floripa ou Florianópolis, agora não sei mais…”, nem eu sabia, sempre fui o cara mais novo em todos os grupos de ronda e sentinela dos últimos meses, minha memória é boa para tolices e curta para o relevante mesmo…
Chegando na Autopista vazia, o som do rádio continuava, como se fosse a trilha perfeita para aquele caminho. Fui puxar mais assunto com o motora, perguntei se ele tocava há muito tempo, começou a verborragia. “Cara, decidi aprender a tocar violão quando tinha 15 anos. Eu fiz um ou dois anos de aula com um professor de música que ensinava na escola em que eu estudava. Depois disso segui sozinho”, rememorou, gesticulando. “A minha preocupação sempre foi fazer música de uma maneira honesta e que soasse bonita pra mim. Por um lado isso é ruim. Me falta MUITA teoria, e eu tenho que prestar atenção pra acabar não me repetindo nas coisas que gravo. Por outro lado é ótimo porque eu sinto que desenvolvi uma maneira muito particular de construir minhas músicas. Não é como se o que eu fizesse fosse revolucionário, eu mantive somente os elementos que eu achei mais interessante naquilo que eu escutei até hoje — acordes, texturas, sentimentos, et cetera”.
“Realmente, a sua música é bem diferente do que eu costumo ouvir”, abri o jogo. “Se bem que eu ouço muita coisa antiga mais acústica e tal, me lembra de momentos mais felizes”. Ele sorri.
“Então,” recomeça, “eu me preocupo mais com as coisas que vem de dentro do que em repetir o que já aconteceu. Eu acho muito mais empolgante ouvir as impressões que uma pessoa tem sobre, sei lá, o pôr-do-sol e como ela transforma essas sensações em música, mesmo que não me agrade muito, do que ouvir alguém mandando um solo nervoso super bem tocado dum ‘clássico’.” Consinto. “E bom, eu já gravei muito material aleatório, mas foi somente ano passado que eu me senti corajoso o suficiente pra lançar algo e dizer ‘ei, pessoal, olha isso que eu gravei’, sabe?”
Sei. Mas o que não sei direito é esse caminho. Passamos os drive-thrus, os barzinhos, agora é um ermo, parece um lugar pro Norte da Base, nunca vim muito pra cá. E essa calma toda me dá uma sensação de que vou me perder no abismo das linhas e dos postes, um universo paralelo dos livros de Philip Pullman. Começo a apreensão, enquanto escuto meu serendipitoso motora.
“E quando eu componho essas músicas, meu processo criativo é absurdamente caótico. As ideias e sentimentos vão aparecendo e eu ‘pego no ar’ e começo a noiar em cima”, e quem está noiando pouco a pouco sou eu… “ Das coisas que me influenciaram eu posso citar a violência e o exagero dos anos 80 lá do século 20, e como isso acaba sendo inevitavelmente cômico e irônico de certo modo. Videogames. Carros — não à toa tenho o Retro Taxi — , velocidade e espaço, as noites de Miami em 1984, sabe, Miami?, Waveshaper, o BREGA…”. Não sou bom com referências, desculpa. Quero é só sair, mas preciso agir natural. Tenta…
Respira, respira, fala algo intelectual, cara, reage:
“Você então quer ter guardado todo o seu passado no dia de amanhã?” Não, Caetano agora não, cara, tenta de novo. “Quero dizer, vai no passado distante por que é difícil achar algo lógico e tradicional hoje no que se ouve e cria?”. Estou viajando muito, meu De…
“É isso aí!”, responde animoso. “Eu mesmo sou um usuário PESADO daquelas coisas de quando éramos mais novos, vaporwave/outrun/synthwave/future funk, o que eu faço aqui de música definitivamente tá dentro desse universo.”
Me calo, a náusea bate. Acho que vou vo…
“Ei!” Ein?
“Já estamos chegando. Você pode ficar lá hoje”. Ufa!, ainda bem. Recomponho. Mais alguns quarteirões e chegamos mesmo. Uma casa, um andar, de condomínio — o levante não chegou por aqui, suponho, tudo organizado — poucos cômodos e muito cômoda por sinal, tons pastéis saídos dos Wes Anderson que eu via lá no BADESC. Bons velhos tempos.
“Pode entrar, sem medo”, me disse enquanto abriu a porta de vidro. Entro. Um espaço minimalista, mais esbranquiçado, longe daquela noite insóbria do Centro. Começo a ver as coisas, a cama dos hóspedes ao fundo, um televisor com muita fiação, os tubos saindo do teto. Me espanto com um tecladinho pequeno, perto do pecê i7 antigo atravancado no canto oposto ao que eu estou. “Isso é o synth das suas músicas?” “Ah, não-não, isso é o Ableton, um controlador midi pequenininho, e no computador estão os instrumentos virtuais. Gravar usando synths e drum machines analógicos é algo que está BEM LONGE da minha realidade no momento, heheh” e faz sons de dinheiro com a boca. Normal, todos somos pobres — e não somos gatos para nascer livres.
O sono bate, bate. Não sei, acho que tenho que capotar, são quase três da manhã. Mais uma match cut na minha existência.
Mais um dia nublado.
Acordo com sons de beats programados, cordas dedilhadas com ruído, gravação caseira. Não eram tão distantes de mim quanto aqueles do pendrive no carro. Subitamente, me lembra cada coisa que ouvia quando menor: um rapaz de nome excêntrico, não vou lembrar agora, que cantava Mecânica Celeste; aquele gringo de cigarros e dente separado, acho que era alguma coisa De Marco, o nome; também aquele outro, Toledo acho que era, falavam Tolírou porque era gringo, claro, meus pais deviam gostar dele, talvez eu fique parecendo com ele com esses óculos e cabelo zoado, como disseram os caras da sentinela. Ah, já não sei mais de nada… O som vem de um outro vão da casa, acho que é o quarto. Levanto e ando, lazarando.
Mexo na porta entreaberta. O motorista está lá, perto da janela, uma fumaça em redor, paisagem de alvorada em meio ao restante das casas e árvores pras quais a janela dá. Ele agora parece mais magro que antes no pseudo-táxi. Pergunta se eu gostei, eu digo que sim. Larga a guita e caminha em direção ao computador.
“Nesse projeto de bedroom pop, que eu chamo de Home, já fiz também bastante coisa, foram 2 álbuns e mais uns EPs também”, me conta, caminhando e mostrando as outras faixas no computador meio ultrapassado da casa.
Sequências de devaneios de inverno sonoras entram nos meus ouvidos. Será que os rebeldes seguiram? Olho para o quintal, tudo normal, aqui não há rondas, definição de área perigosa ou área segura. É o Elísio, talvez, mas nada é tão perfeito assim. A voz do motorista saindo pela caixa de som ruidosa me responde, sem querer: “não há nada que o tempo não vá levar / como o vento / leva / areia até o mar”. O mar, há quanto tempo não o via, e olha que vivo numa ilha.
Ver o mar ou não, era hora de carcar dali, de preferência manhã que noite de novo. Abri a porta de vidro lentamente, enquanto meu anfitrião se deliciava ainda olhando as músicas darem play no computador outrora possante. Vai dar certo, ele não vai notar. Estava saindo, pé pra fora, ele se deu conta. “Ei, não vá!” Oh, Deus, ele está vindo.
Nos olhamos, a uns centímetros um do outro. Cordialmente, me estende a mão. “Fique aqui, não tem problema, tem comida e tudo… A propósito, nem nos apresentamos, meu nome é Eduardo Possa. E o seu?”
Devo responder? Ele não tem cara de que vá denunciar, acho que está tudo bem, tranquilo, tranquilo, diga o nome, sem medo… “B-B-Bom, o meu n… o meu nome é
~HARSHNOISES EM TODO LUGAR~
Eita.
Desligo o despertador. Em Florianópolis, no relevante ano de 2017, nove da manhã, sol veraneando na minha cara pelas frestas da cortina, não há ronda, sentinela, rebeldes, and so on. Realmente, colocar Merzbow como toque de levantar do celular não foi uma boa ideia, experimentalismo tem limite. Mais tarde eu troco pro toque-padrão.
O note, na prateleira, ainda tá ligado na tomada, a bateria vai viciar assim. Levanto pra sair da frente do sol — Alexandre x Diógenes — , abro a tela. Mais mensagens da entrevista com o Eduardo Possa — ou EP, como está no seu canal do youtube — pro projeto no Like A Rock. Eu havia perguntado a ele sobre as divulgações mais amplas dos trabalhos, futuramente.
“Não sei se divulgação ampla é a palavra certa, pois vai ser algo bem amador, mas eu estou trabalhando pra fazer dois selos de música independente acontecerem. Um de musica eletrônica e/ou virtual (?) e um de música lo-fi/bedroom pop”, me explica. Eles se chamarão respectivamente Ghost Mall Records e Daydream Records.
“O Daydream é o de musica lo-fi bem normalzinho, e o Ghost Mall é o de vaporwave e toda e qualquer NÓIA. Pra ele, eu fiquei imaginando até tipo uma historinha pra ele tipo futuro distópico/pós-apocalíptico numa cidade quase fantasma onde tem um shopping abandonado, e só tem uma loja de discos funcionando na cidade inteira. E ela fica dentro desse shopping.”
Não pode ser, é como a loja do sonho. Mas poxa, isso eu não havia sequer lido antes. Ou será que já tinha? Viverei com o mistério, provavelmente.
Ao que parece 2017 para Possa vai ser complicado: além dos selos, ele vai trabalhar na produção de três álbuns autorais — Nite Ride e Home já incluídos, talvez aquele projeto de samples do Nintendo 64 — , mais dois de outros artistas amigos. “Rest in peace”, ele exclama a si mesmo.
Sento por fim na poltrona com o note, agora estou perdendo o horror com as aventuras sônicas e retrofuturistas da noite. E mesmo EP no fundo está otimista. “Eu acho”, arremata, “que a gente tá vivendo um momento único, onde qualquer pessoa pode gravar em casa, sem depender de ninguém nem de nenhuma empresa pra fazer a sua música acontecer. Eu imagino que nunca deve ter sido tão bom fazer música quanto agora. Eu não vejo nenhum problema com nada disso.”
Esse foi o segundo texto da série Desbravando aqui no Like A Rock. Bom carnaval a todos, voltamos em março!
