A Revolução Russa, um rádio quebrado e a vontade de eternizar histórias
Eu, Giovana e Caíque, temos andado pelos quatro cantos de São Paulo para resgatar memórias sobre a Revolução Russa. Em uma dessas caminhadas, encontramos uma personagem que preservarei o nome por motivos de ética.
O que ela falou sobra a Revolução, o caro leitor terá que esperar o nosso livro para descobrir. Mas posso adiantar, que algo além das memórias da URSS me chamou atenção no caso. Aquele dia não seria só sobre Lênin, Stálin, Kruschev e Gorbachev. Seria sobre a vida.
Quando chegamos, as fechaduras do portão da casa rangiram para abrir como sinal de que há algum tempo não eram lubrificadas. Afinal, quem poderia fazê-lo? A entrevistada, no alto dos seus 85 anos me contou que tinha duas colunas fraturadas. A tinta verde que descascava do portão também indicava que a casa não recebia reformas.
Ela ficou feliz em nos receber como visita. Me deu um abraço afetuoso enquanto Giovana tenta estacionar o carro no jardim. Primeiro, pensei que a cordialidade era algo aprendido com os brasileiros, mas depois lembrei ter lido em algum lugar sobre os russos também serem um povo caloroso.
A cordialidade continuou. “Como você é bonita!”, ela afirmou . Agradeci e observei atentamente a face da mulher que nos recebia. Os olhos eram de um dilacerante azul celeste e não o único elemento que faziam com que a senhora tivesse um belo rosto. A voracidade do tempo, não fora capaz de devorar os traços firmes e obviamente finos que ela carregava.
A chuva e o tempo fechado acentuavam a solidão do antigo casarão em um bairro nobre de São Paulo. Era triste. Era belo. Poucas coisas são tão bonitas para um espectador quanto a tristeza. Tenho certeza que os protagonistas não compartilham da mesma opinião.
Não posso dar spoilers sobre a entrevista. No futuro, a história ficará muito mais legal com as aspas dela. A conversa ocorreu numa antiga sala, que lembrava uma mini-versão do cômodo da casa de João Moreira Salles documentada em “Santiago”. Para me despertar dos devaneios, o samovar no canto da sala, fazia questão de enfatizar que se tratava de um lar russo.
Posso adiantar, que falamos sobre o KGB, enquanto a gata Jasmin investigava o meu cheiro e depois tentava devorar minha mão. Suspiramos com uma história de amor (quase um “Meia Noite em Moscou”), sobre arte, sobre socialismo, sobre censura e sobre Brasil.
Naquela tarde, o fato que me surpreendeu em todos esses assuntos, foi que o fio condutor da história oral da entrevistada era a profundidade da figura humana. Como ela ama, tem crenças de sociedade, muda de país, tem filhos, envelhece e morre. O último, a figura humana enfrenta muitas vezes sozinha.
A figura humana foi quem entendeu a luta de classes, foi também quem inventou e derrubou regimes totalitários. Ele está acima do bem e do mal. É complexa demais e é isso que a torna mais bonita. Contra a figura humana existe o tempo e a morte que tentam apagar tudo o que foi realizado. A partir de agora, eu escrevo para preservar a figura humana.
Com meu medo do esquecimento, apenas naquela tarde, eu desisti de abraçar o mundo. Eu só queria poder consertar o som daquela idosa que reclamou: “não tenho quem leve para arrumar. Queria ouvir minhas músicas clássicas”. Talvez, eu apele para o Catarse.
por Girrana Rodrigues
