O drama kafkaniano do Partido dos Trabalhadores

por Girrana Rodrigues

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, José da Silva deu por si na cama transformado em um eleitor do PSDB”. Caso Franz Kafka tivesse escrito “A Metamorfose” em 2016, para retratar a crise de representatividade vivida no Brasil, este teria sido um bom começo.

Em São Bernardo do Campo, os resultados do 1º turno das eleições não trouxeram uma situação diferente. Assim como em São Paulo, o candidato tucano que concorreu ao Executivo foi o melhor colocado. Orlando Morando (PSDB), teve 169. 310 votos, o equivalente a 45,07% dos votos válidos.

Alex Manente (PPS) ocupou a segunda posição com 106.726 (28,41%), seguido pelo candidato do Partido dos Trabalhadores, Tarcisio Secoli (PT), que conquistou 84.768 votos (22,57%) e não se classificou para disputar o segundo turno.

A origem no sindicalismo

Quando falamos de eleições em São Bernardo, a crise que o partido passa merece um pouco mais de atenção. Berço do movimento sindical e consequentemente do Partido dos Trabalhadores, a região do ABC sempre foi considerada forte do ponto de vista eleitoral.

Foi no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo, que o torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva se consolidou como liderança sindical. Presidente da entidade, Lula liderou grandes greves na cidade na Ditadura Militar, como a conhecida greve dos 41 dias.

A informação tem ainda mais importância ao considerarmos que o atual prefeito do município, Luiz Marinho (eleito em 2008 e reeleito em 2012), também presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

O candidato do PT escolhido para disputar às eleições deste ano, Tarcísio Secoli, também tem raízes no movimento sindical. Trabalhador da Mercedes, Secoli foi tesoureiro do sindicato.

Ao contrário das críticas feitas ao partido, em São Bernardo o estereótipo do candidato à prefeitura pelo PT atendia ao requisito de uma das origens mais importantes do partido: o sindicalismo.

Quando fica claro que o candidato não mudou, nos resta entender a guinada da opinião do eleitorado e o como o drama nacional do partido se estende ao município.

A crise econômica

O cientista político estadunidense, Morris P. Fiorina, defenderá que a economia influencia a forma como a população escolhe seus representantes.

De acordo com o Dieese em setembro de 2016 o índice de desemprego no ABC chegou a 226 mil pessoas. O cenário de desemprego já apresenta melhora, pois variou de 16,4% em agosto para 16% em setembro.

O desemprego na cidade pode justificar a fuga do eleitor, que relaciona o governo atual a crise econômica e projeta que uma mudança da gestão pode criar oportunidades para reaver o emprego.

A classe média

André Singer destaca que com a publicação da “Carta aos Brasileiros” Lula conquista uma segunda alma para o Partido dos Trabalhadores: a classe média, a “alma do Anhembi”.

Pesquisas da Fundação Perseu Abramo indicam que, de 2002 a 2006, os eleitores da ala de esquerda do PT diminuíram de 50% para 42%, e os identificados com a esquerda subiram de 20% para 30%.

Singer também mostra que ao analisarmos a pesquisa de intenções de voto do Datafolha para a presidência percebemos uma mudança na opinião da classe média logo em 2006.

A porcentagem dos eleitores de 5 a 10 salários mínimos que votavam no Partido caiu de 18% em 2002 para zero em 2010.

Um cenário ainda mais preocupante começa a se desenhar nas eleições presidenciais em 2014. O Datafolha indica que os eleitores de 2 a 5 salários mínimos correspondiam a 52% dos votos de Aécio Neves e 48% dos de Dilma Rousseff.

O que vem agora?

Na noite do dia 2 de outubro, fim do primeiro turno das eleições municipais, parte da militância do partido em São Bernardo acompanhou a apuração dos votos no comitê da então eleita vereadora Ana Nice.

A outra metade aguardou o resultado no Bar da Rosa, local que muitas pessoas na região afirmam ter sido palco da primeira bandeira costurada do PT — com as cores ao contrário do que são hoje.

Apesar do resultado negativo, o clima de tristeza não tomava conta do ambiente. “Precisamos repensar o partido”, afirmava 10 entre 10 pessoas que você encontrasse.

A vontade do grupo era que os muitos Josés da Silva espalhados pelo País e inclusos no eleitorado de 2 a 5 salários mínimos que deixaram de votar no partido, voltassem a optar pela sigla.

Sem candidato no segundo turno, os dias seguintes serviram para intensificar a afirmação de que o PT desejava se reconstruir.

O Diretório Municipal emitiu nota liberando a militância para votar em que preferisse e não apoiou nenhum candidato oficialmente.

Morador de São Bernardo, Luiz Inácio Lula da Silva provavelmente pensou o mesmo: no dia 30 de outubro ele não saiu do seu apartamento na Prestes Maia para votar.

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