O primeiro encontro e a pós-modernidade

Ele tinha olhos verdes. Não eram de cigano, nem de oblíquo ou de dissimulado, eram apenas verdes.

Sentamos no que parecia ser a grama de algum parque e eu poderia jurar que se tratava do Ibirapuera.

— Girrana, por que você odeia a pós-modernidade?

Sobre o que ele estava falando? Até onde eu me lembrava aquilo era um encontro. Deveríamos estar recitando Neruda, tentando ver um “fora Temer” nos desenhos formados pelas nuvens, ou nos beijando como as pessoas normais fazem.

— Olha, eu acredito que isso seja apenas uma consequência do processo tardio do capitalismo que alguns países sofreram.

Eu não saberia falar sobre arte pós-moderna, ele provavelmente saberia, mas eu tinha várias críticas ao fim da centralidade do trabalho. Eu realmente não estava com vontade de prosseguir com a discussão. Infelizmente, ele estava.

— Perceba como você está vestida. Essa blusa de bolinhas claramente uma referência as pin-ups dos anos 50. Essa sua calça jeans, tecido que já foi usado no campo pela sua resistência -eu tinha certeza que ele tinha tirado aquelas informações de um texto do Renato Ortiz. Eu odiava Ortiz- você realmente não acha sensacional a globalização da produção? A reutilização de formas e conceitos?

— Eu não acho incrível a “mundialização”- fiz questão de corrigir- e sei que você também não acha. Isso tudo é apenas um jeito de tentar me deixar irritada.

— Na verdade eu acredito sim! Olha, queria te mostrar que essa minha perna aqui foi fabricada na China- e arrancou a perna enquanto pronunciava a frase -esses meus olhos verdes vieram de…

Antes que ele pudesse completar a sentença acordei com o som do despertador do meu celular com peças de todo o mundo. Meio suada com a camisola da Hering, fabricada no Brasil, me virei babando no travesseiro que utilizava tecnologia da Nasa. Percebi que essa tal pós-modernidade já tinha ultrapassado os limites do planeta.

Levantei para me trocar e encarar os olhos verdes do crush na vida real. Crush, droga! Até isso era importado.

***

Girrana Rodrigues

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