Visibilidade

Dia 29 de agosto, dia Nacional da Visibilidade Lésbica, essa data foi decidida em 1996, no I SENALE, que é um espaço de interação político pedagógico nacional construído por lésbicas e mulheres Bissexuais no Brasil, com a finalidade de discutir, refletir e propor ações para intervir nas políticas públicas, através da construção coletiva, na busca por direitos e dignidade, pela livre expressão das sexualidades e pela diversidade de orientação sexual e identidade de gênero. De 1996 para cá, houve 7 edições deste evento. É um encontro importante para nossa visibilidade.

Muita coisa mudou desde então, a sociedade está aparentemente mais tolerante à diversidade sexual humana, é possível ver vários casais LGBTs, de mãos dadas ou trocando carinhos em lugares públicos, mas o Rio de Janeiro, é uma cidade partida, o que é tolerado, acolhido, visto com naturalidade na zona sul, não se repete nas outras áreas, dessa forma, continua sendo muito comum LGBTs, do subúrbio e periferia, procurar points, no Centro e Zona Sul. Morei uma parte da minha vida na zona sul desta cidade, há muitos anos moro no subúrbio, não é uma avaliação aleatória, o subúrbio é mais conservador, não somente com essa comunidade, mas com qualquer novidade.

Em 2014, fiquei desempregada, enfrentei e ainda enfrento a depressão e talvez, fobia social, assim, resolvi criar um trabalho doméstico, não conseguia mais ir além das entrevistas de emprego, meu currículo era selecionado e eu não, o que poderia ser? Muita coisa, minha raça, meus dreads, minha bengala, minha sexualidade. A gota d‘água foi uma entrevista em que a pessoa responsável pelo processo seletivo, entrevistou todas as candidatas e “me esqueceu”, decidi: “Chega, não saio mais de casa!”. Criei então o Resiliência Espaço Cultural, na garagem da minha casa, seria um bar, biblioteca, lugar com música ao vivo, acolhimento para mulheres vítimas de violência doméstica, na realidade, não queria me afastar muito da minha profissão, a Terapia Ocupacional, afinal, foram anos de investimento. Pensei tb num lugar LGBT, mas os gays que conhecia, não se interessaram muito, como a internet faz milagres, conheci grupos lésbicos, que começaram a freqüentar, fiquei super animada, que perfeito, que confortável, um mundo sem homens! Porém o Resiliência, é também a minha casa e de Lucia, uma mulher maravilhosa, que seres de luz conspiraram nosso encontro no meio deste turbilhão de emoções e é sabido que a violência é masculina, dessa forma, receber só mulheres é muito mais do que confortável, é mais seguro. Porém tudo na vida sofre mudanças e a política é uma delas, desavenças femininas sempre interessaram ao patriarcado, dessa forma, pouca coisa mudou de 1996 para hoje na militância LGBT, homens sempre mais visíveis e lésbicas com suas divergências e conseqüentes rachas.

O Resiliência Espaço Cultural fez dois anos e neste mês de agosto, decidi, por sua independência de qualquer direção política, por mais que fique seduzida, pois meu objetivo principal é pagar minhas contas e falar sobre dinheiro com militantes, é um pecado, seguido de condenação à fogueira, por mais que esteja óbvia minha situação de desempregada e sem chances de voltar ao mercado, por ser negra e lésbica, há 3 anos, essa parte da história, não interessa, doenças subseqüentes, tão pouco, mortas que falam geram incômodos, as assassinadas são muito mais práticas na hora do marketing militante. Por mais que me identifique e me indigne com diversos equívocos que estão sendo impostos na prioridade na militância lésbica, não tenho o direito, pela minha saúde física e mental, é imprescindível que cuide de mim em primeiro lugar.

Continuarei fazendo a minha parte, este mês foi realizada a primeira edição do Rodas Visíveis, que foram 4 encontros, nos sábados, onde conversamos sobre Nossa Saúde Mental, Hormonização Infantil, Invisibilidade das Lésbicas da Favela, Lesbocídio, Negritude e Maternidades. Foi muito rico, com participação de lésbicas, bissexuais e heterossexuais, todas convergindo ou divergindo e todas sobrevivendo. Acredito nisso, na possibilidade de diálogos, não necessariamente dentro das nossas caixinhas, o que pode ser traduzido como gostar de tretas ou polêmicas, fazer o que? Não existe existência sem dores, militância sem aborrecimento.