Cela-apneia

Há muito, um segundo verso tem me ecoado. Um verso que fala de duplo. Um verso que pretende o infinitivo. Um segundo verso-susto que desmonta, entre o primeiro e o terceiro, a afixação. Não existe, eu arriscaria. Não o próprio verso, mas esse intervalo da conjunção passado-orgasmo e futuro-pânico que o autor encerra. E não me importa desfazer o aparato lógico do poema.

“é sempre no presente aquele duplo”

Há muito, o sono induzido separa orgasmo e pânico. O escambo vem em forma de duplo-presente, e como quem desentende o tempo, aceito:

  • 25 mg de Clomipramina, pela manhã
  • 10 mg de Escitalopram, pela manhã
  • 2,5 mg/ml de Clonazepam, à noite e em possíveis crises

Há muito, o presente-ambivalência nomeia o que há de ânsia, mas não encontra palavra que caiba dentro do suspiro abafado que lacrimeja pânico-súplica e não reencontra gozo-decurso.

O diagnóstico é privativo: Você que não entendeu que, para além das anáforas, “é sempre no presente aquele duplo”! Olha o pronome demonstrativo!

Não me diz nada senão que o duplo não é esse e que não se decorre com possível aprazimento. Apresenta-me o contrário, pois o intento não é o de tocar esse duplo, qual aquela vontade lírica da alma cativa enrolar-se numa espiral de melancolia, mas o de ir deixando com sutileza os orgasmos findos na memória e o pânico evanescente. Falta diagnóstico solidário.

“sempre no meu sempre a mesma ausência”.
Show your support

Clapping shows how much you appreciated Gisele Zanola’s story.