Com amor, sempre

Já faz uns dezenove ou vinte anos que nos conhecemos. Na primeira semana de contato, eu também não entendia o que se passava. Você dormia atrás do sofá, junto a outro, com um choro incompreensível pra mim. Hoje sei que te tiraram dos seus iguais e te puseram junto a nós, esse nós-desestrutura-contenda — família, chamam. Eu era pequena como você, mal dava passos, de linguagens ininteligíveis. Totó, ficou chamado. A determinação comum de uma identidade que eu mesma não apreendia lançada a um nome desinteressado, aparentemente.

Campinas. Itapecerica da Serra. São Paulo. Em São Paulo: Vila das Belezas, Campo Limpo, Capão Redondo. Em cada um dos lugares e naquela cidade interiorana, dezenas de casas. Nem você nem eu entendíamos. Muitas casas, muitas adaptações, muitas tristuras, pouco dinheiro. Sempre isso do pouco dinheiro. E sobre isso eu sei que ainda hoje você não entende, mas garanto que certamente vive. Condição—chamam.

As fases foram curiosas também. Se bem me lembro tínhamos algo de ânimo que nos fazia ficar, por muito tempo, correndo por onde os espaços davam. Ora mais espaço e mais ânimo, ora menos. Eu tinha aulas e você me esperava ansioso pela hora em que você pudesse ter um afago apenas, exatamente como eu. E a brincadeira mais comum entre as pessoas que te observavam era sobre seu sorriso irreparável — desalinhamento dos dentes e mandíbula inferior para frente.

Não sei se poodle e nunca me importou saber. Seus pelos sempre cinza e sempre com aparência de sujos imputavam a minha mãe a tarefa do banho. Passeios soltos. Brigas com cães maiores. Carrapatos e pulgas. Banalidades — chamam.

Até a etapa em que eu miseravelmente esqueci de você. Adoeci. Percebi há pouco que adoecera também, mas há muito. Seus olhos agora não veem meu rosto ou qualquer coisa que esteja ao seu redor; quanto aos ouvidos, atendem às palmas às vezes. Suas pernas traseiras não andam com o mínimo de destreza. Já não late e imagino que todas as suas dores doem pra dentro de si. Velhice — chamam.

Ao companheiro de desde os dois anos de idade: são nesses dias presentes que nossas existências se encontram sinceramente. Um dia por vez, Totó, e a gente alcança sabe-se lá o que.

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