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Hoje, em particular, a cortina já punha-se em prontidão aberta para o que há além-vidraça. Tem algo de bonito lá fora: poderia citar que por entre os morros das favelas nesse frio de quase meados de julho surge um sol-promessa, que traz em seu calor um tanto de remanso e contemplação; poderia, também, dizer que a vida lá fora é completa e religiosamente segura em virtude do céu agora limpo e observador. Os gatos marginais se esquentam na laje. É um azul-fundura sutilmente rabiscado pelo branco-nuvem.

A cortina punha-se aberta. A vidraça não. Por entre os morros da favela esse frio de quase meados de julho dói. Não há sol que cure a privação. A vida lá fora é vigilante, porque não quer, ora, acabar num domingo-descanso. Os gatos marginais secam por comida e o intervalo é por aquecimento e por conformidade, inclusive. É um azul-cova grosseiramente permeado pelo frio. Azul-indiferente.

Por dentro da janela a observação não intenta ser certeira e muito provavelmente compõe equívoco em ambas formulações. Não existe aquilo próprio de poético que não melancólico que sustente a visão calejada, afinal. Não mãos calejadas: essas ficaram pros mais velhos insistentemente fixos à labuta. Não pés, pela mesma razão. Também, ora, não mente calejada pelo muito ferir das experiências. Peço permissão: olhos apenas. Endurecimento das vistas, sem perda da sensibilidade, mas com carência de gaze no calo esfolado e exposto.

Não é beleza perdida pelo fruidor. É dor sentida. Empatia, chamam. Presunção incômoda, até mesmo a mim, chamar tudo isso de realidade, o que veem os olhos. Mãos, pés, mente, a estes, há anestesia que minha classe me dera, e em gratidão me prostro. Mas veem os olhos o cercado, o redor, a privação, o sol, os gatos.

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