Por baixo do tapete

Ela tem mãos incineradas e dela ainda. Tem pernas atrofiadas, mas dela. Olhos atrás dos óculos dos quais nada se retira. Tem palavras simples, dela também. Seios que já amamentaram e hoje são “caídos” sim, e são dela. Quadril que muito carregou, carregou porque é dela. Um estômago que revira a comida, dela. Unhas crescem e caem, como os cabelos, mas são dela. Ela. Que tem ainda rins, fígado e uma variedade imensa de compostos internos, comum à maioria dos animais racionais, dela. Seu esforço é de se manter una, embora não saiba. E embora perceba, em momentos sutis, como aquele em que ela toma um banho pra aliviar as dores, que sofre, ainda não sabe como conduta racional o perceber-se corpo e o perceber-se ela própria de si mesma. Acima do peso. Colesterol alto.

Sai, às seis da manhã, e embarca com os demais e diferentes demais muitas e incontáveis vezes. Cai, quando abaixa seus joelhos para esfregar o chão. Esfregar o chão com as mãos. Mãos dela. Braços dela. Pega a vassoura, coluna dela! Deixa que a máquina cuida das roupas, estende, na ponta dos pés encardidos e doídos que estão abaixo do tornozelo contorcido. Olha a privada, abaixa, limpa a privada com seu nariz. A tampa só não cai em cima da cabeça qual uma guilhotina para que prejuízos não sejam gerados. Continua a cheirar o que impregna. O produto. Claro, coloca a luva, a máscara, tira os óculos, usa bota. Tudo isso no corpo que não deixou, até agora, de ser ela. Tudo isso que até agora não deixou de ser no tempo de vida dela. Arruma as camas. O criado mudo. Lava louça, as janelas. Aspirador no sofá. Comida feita. Para o corpo que não é dela. Para o sofá em que seu corpo não vai sentar. Para a janela que não se pode observar ou cair até, pois não há tempo. A louça que não vai usar. O banheiro que não é seu e cujas excrescências não são suas, mas escorrem sob seus olhos em forma de dinheiro.

Em forma de tempo. Em forma de corpo. Em forma do que deixa de ser seu e se empresta antinaturalmente às habitações de alguns. Tem chaves: segunda de uma, terça de outra — quinzenalmente — , já quarta d’outra, quinta casa outra e sexta casa última. Nada na sua. Porque não tem o que habita, de fato. Em forma de vida. Em forma de trabalho. Forma negação.

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