Querer vencer

Com o pé direito, cruzou a porta para mais um dia de tentativas. Era sua chance de mostrar a força de todos os diplomas, cursos, leituras…dedicação de uma vida. O frio na barriga, a sensação de boca seca e o agudo temor da concorrência o deixava tenso. Era preciso enfrentar desafios. Para isso, fora criado.

Viveu a vida a ouvir que seria alguém. Tão diferente daquela que o colocou no mundo! Estudaria para se transformar em esperança, sonhou sua humilde mãe à porta do barraco quando ele deu o primeiro passo para a escola. Encostada no portal oco, comido por cupins, a jovem mulher viajava em sua imaginação. Ela cresceu abandonada pela vida e só conheceu sofrimento. Tivera filhos e os mantinha sozinha, sem ninguém. Contava centavos.

A casa pequena maltratada pelo tempo fora feita com grande esforço por seu pai e ficava em um lugar quente, com roça, pequenas árvores e muita calmaria. Para acessar a estrada, era preciso andar bastante. Às vezes embaixo de sol; às vezes embaixo de chuva. A vida era dura, mas ela não reclamava. Trabalhava na roça e revendia sua horta na feirinha da pequena cidade onde morava.

Embora não tivesse recebido a educação que sonhara, queria um futuro diferente para seus filhos. Pelo menos um tornar-se-ia doutor. Incentivou o quanto pôde, mesmo consciente da precariedade da pequena escola da região. Queria que a simplicidade vencesse, pelo menos uma vez.

E assim o tempo passou. Ela viu os quatro filhos crescerem e tomarem seu rumo. Manoela casou-se e morava perto da mãe; Julio tornou-se peão e arrastava quilômetros de boi pelo caminho; José quis ser agricultor e acabou por juntar-se com uma vizinha e aumentando a roça da Mãe. Somente o caçula seguiu o rumo tão sonhado. Estudara e formara-se, como a mãe planejou. Era o sonho vencendo a realidade.

Após terminar o último ano do ensino médio, prestou vestibular e passou para uma universidade do governo. Orgulho da família! Mantê-lo fora de casa, em uma cidade estranha, grande e complexa não foi tarefa fácil. E os anos seguiram.

Agora, ele está sentado em uma sala de estar com todos seus anos de ensino nos braços aguardando para mostrar o tanto que aprendeu ao longo dos anos. Ele espera por uma chance da vida. Quer entregar à sua família os frutos colhidos, e carrega esse peso nos ombros. Muita responsabilidade para um jovem.

A sala era fria com um tom impessoal. Faltava o calor dos irmãos e as conversas com amigos na praça da cidadezinha quente do interior. Mas estava feliz, excitado. Pela primeira vez, sua carreira estava em suas mãos. Nesse instante, um calor percorreu seu corpo e lembrou o tanto que sofrera para chegar até aqui.

De repente, uma voz lhe chamou ao fundo. Chegou a hora. Todo o estudo resumido nos minutos de uma entrevista. Ele sonhava com aquele instante havia anos. Uma mulher caminhava em sua direção:

- Vamos. O presidente vai recebê-lo.

Ele acenou positivamente e a seguiu. Estava ansioso, mas confiante. Queria aquela vaga como tudo na vida. Nesse instante, sentiu a presença de sua mãe ao seu lado e ganhou força. Sabia que sua família estava com ele.

A sala da presidência era enorme. Em um giro rápido, percebeu que sua casa na roça cabia toda ali dentro. O local ostentava nas paredes grandes pinturas com naturezas mortas e personagens militares de séculos passados. Identificou ao fundo uma tela de Salvador Dali, seu pintor preferido. Em todo canto havia algum objeto que compunha perfeitamente com a decoração dourada das molduras das telas e a grossa madeira da parede. Havia tantos detalhes que se viu preso e não percebeu quando um senhor simpático, alto, grisalho, magro e atlético sentou à mesa.

O executivo de um dos mais importantes bancos americanos estava em busca de um economista com garra e vontade de crescer. Queria um jovem que se inspirasse em sua história de muita pobreza. O homem vencera na vida a custo de muito estudo e dedicação. Era isso que buscava no novo profissional que assumiria uma de suas principais contas.

De imediato, houve empatia entre os dois homens de gerações distintas, mas com o mesmo passado. A entrevista durou mais de meia hora e foi encerrada com um longo aperto de mãos. Por fim, antes de despedir-se, o senhor perguntou-lhe o nome. Era a primeira vez que falava com orgulho: Manoel. Era como se chamava o pai, que nunca vira.

A promessa de um futuro começava ali. Ele fora aprovado. Um suspiro de alívio foi sentido por quem passou pela porta giratória do prédio imponente que fica no centro financeiro de São Paulo. Faria por merecer aquela vaga. Ao sair do prédio, olhou em volta, encheu o peito e caminhou passos decididos e felizes pela Avenida Paulista.