O magma da memória

Resenha publicada na 186ª edição da Revista Cult (dezembro/2013)

Em História natural da ditadura, Teixeira Coelho mergulha no magma informe da memória para fazer um livro multifacetado, plural em suas várias camadas. A começar pelo gênero: ensaio ou romance? Da incapacidade de classificá-lo numa ou numa categoria nasce um texto híbrido, que desafia as fronteiras de gêneros tradicionais.

Não se trata de um livro sobre uma ciência, ao contrário do que o título possa sugerir. Se em sua História natural — enciclopédia da qual Teixeira Coelho retira o título parcial de sua obra -, Plínio, o Velho, afirma que o entendimento da história só cabe “dentro do compasso do nosso conhecimento”, nada mais justo que, para falar de sua experiência de autoexílio em meados dos anos 1970 (período da ditadura militar no Brasil), o autor de História natural da ditadura recupere o passado da maneira mais aguda possível: a partir de suas ruínas.

E é por isso que esta é uma narrativa densa, de uma densidade perceptível desde as primeiras páginas do livro, que começa com a descrição de dois amigos — dentre eles, o próprio narrador — subindo uma colina e fazendo um esforço colossal para vencer a resistência da tramontana: vento que sopra ao norte da Catalunha e ao sul da França, associado ao suicídio, à excitação nervosa e ao gênio artístico da população local.

Surgem já nesta cena inicial três ideias que serão reincidentes na obra: a dificuldade de encarar o próprio passado (o medo de estar à mercê de sua força caótica), a questão do suicídio como único problema filosófico verdadeiramente sério (que vem de Albert Camus e seu ensaio O mito de Sísifo, publicado em 1942) e, em última instância, como referência ao monumento dedicado à Walter Benjamin em Portbou, chamado Passagens, ponto final da caminhada diante do qual o narrador expressa um tremendo desconforto.

Cabe ainda lembrar que Passagens é também o nome de uma das obras historiográficas mais significativas de Benjamin e da própria contemporaneidade — coincidência que, deve-se frisar, nada tem de fortuita, porque “o reconhecimento atual de Benjamin tem muito desse fracasso exemplar”. Fracasso? O próprio Teixeira Coelho explica: “Deviam pensar que esse era o modo digno de introduzir Walter Benjamin na História, ele que sempre se ocupara da História, mas não nessa perspectiva. (…) E de símbolo de refugiado, nessa operação típica dos congressos acadêmicos, passava-se em seguida à ideia de Walter Benjamin como símbolo do emigrado: diante daquele prédio descascado que um dia fora ocre ou amarelo, aquela proposição pelo cancelamento do indivíduo Walter Benjamin em favor da noção de símbolo desencarnado de uma História anônima, ele que no entanto tinha um nome, que sempre tivera um nome a ser novamente reunido a seus restos num cemitério ou que pelo menos tivera seu nome recolocado numa lápide, me provocava náusea. Os mortos já não podem rejeitar as bandeiras que lhes atribuem depois da morte”.

Aspectos múltiplos

Assim, atribuir a Walter Benjamin a imagem de “um homem que sofreu o destino típico de seu tempo” seria a primeira alusão ao objetivismo dos anos de chumbo para o qual o narrador se revolta e revolta — contra o historicismo e à percepção da história como uma narrativa linear, numa declarada manifestação de preguiça intelectual que recorre às vozes de Giorgio Agamben, Léon Ferrari, Jorge Luis Borges, Doris Lessing, Hannah Arend, Jeanne Marie Gagnebin, Paul Ricouer, Pierre Nora, Jean-Paul Sartre, Pablo Picasso e outros para (citando Leminski) “desler, tresler, contraler” um presente que se assenta sobre uma montanha de cadáveres.

Teixeira Coelho incorpora esse aspecto múltiplo na própria estrutura de História natural da ditadura, feita a partir de alternâncias entre o escrito e a imagem, usando fotografias para pontuar o texto. A estratégia permite quebrar a unidade temática, ampliar o decurso do enredo e, sobretudo, dá às fotografias o tom fragmentário que a narrativa reivindica.

Não há dúvidas de que História natural da ditadura é um livro difícil de ser destrinchado, cheio de asperezas e ruídos, que chega até a provocar uma espécie de angústia no leitor, um mal-estar que não dá para ser mensurado. Nesta denúncia contra as ditaduras do século 20, Teixeira Coelho conduz o leitor aos limites da consciência história e deixa claro que “uma ditadura não tem lógica ou, melhor dizendo, uma ditadura tem sua lógica própria, que é a de parecer ilógica para quem está de fora e completamente lógica para quem está por dentro”.