Reivindicação dos direitos da mulher

Resenha publicada na edição nº 2 da Revista Trino (ES)

O direito à educação não deveria ser privilégio de alguns, mas uma bandeira que todos aqueles que defendem a liberdade, a fraternidade e, sobretudo, a igualdade precisam levantar. Esse é o argumento de Mary Wollstonecraft no livro Reivindicação dos direitos da mulher, em que a autora conclama: “É hora de efetuar uma revolução nos modos das mulheres — hora de devolver-lhes a dignidade perdida — e fazê-las, como parte da espécie humana, trabalhar reformando a si mesmas para reformar o mundo”.

Publicado em 1792, o documento é uma resposta à Constituição Francesa de 1791, que não incluía as mulheres na categoria de cidadãs. Como falar no exercício pleno da cidadania se a mulher ainda é excluída das questões públicas e confinada à vida doméstica? Desta questão é que parte o ensaio, considerado um dos textos fundadores do feminismo e uma ousada réplica às afirmações de pensadores como Alexander Pope e Rousseau, que acreditava que as mulheres deveriam ser educadas apenas para se tornarem boas companheiras para os homens.

A reflexão continua atual. Quem leu a matéria da Veja em que a esposa do vice-presidente do Brasil é chamada de “bela, recatada e do lar” sabe que o preconceito não ficou para trás: a representação da mulher ainda passa pela aparência que elas “devem” ter — uma concepção moldada por estereótipos de gênero. O “retrato da mulher bem educada segundo a opinião aceita de excelência feminina”, Mary aponta, não é só “abjeto”, mas ainda exclui do debate “em que consiste a existência das mulheres quando não há casamento”.

Este livro é, portanto, mais do que um levante contra a moral sexista e conservadora de sua época, mas também uma análise sobre a hegemonia masculina e as estruturas que colocam as mulheres em situação de dependência (inclusive econômica). Como diz Maria Lygia Quartim no prefácio do livro, Mary foi “a primeira a demonstrar que ‘ninguém nasce mulher’, lançando os fundamentos ontológicos da teoria dos gêneros”.

Mary, assim como Olympe de Gouges (que também lutava pela igualdade de gêneros na Europa do século XVIII), era a favor da abolição da escravatura e teve uma trajetória pessoal marcada pela tentativa de ser mais autônoma: passou a adolescência defendendo a mãe dos ataques de fúria do pai; com a ajuda da irmã, fugiu de um marido violento e viajou para o norte de Londres, onde fundou uma escola em Newington Green; foi precursora do amor livre e morreu aos 38 anos, ao dar à luz seu segundo bebê — a escritora Mary Shelley, autora de Frankenstein.

“Ela trilhou um dos poucos caminhos possíveis a uma mulher de sua época para conseguir espaço como intelectual. Teve formação incipiente e, depois, educou-se de modo autodidata”, diz Ivania Motta, tradutora da obra, em entrevista a Leonardo Cazes, do jornal O Globo. “Seus textos foram escritos num período peculiar na Inglaterra em relação à produção de obras teóricas e discussões políticas. Em plena Revolução Industrial e sob o impacto tremendo da Revolução Francesa, desenvolveu-se o mais intenso e polêmico debate ideológico jamais havido sobre o caráter e a natureza das instituições políticas”.

O livro Reivindicação dos direitos da mulher é publicado pela Boitempo Editorial, tem 256 páginas e está à venda por R$ 56.