Sábado, ausente
Ela sabe que não está bem assim que recobra a consciência. Antes mesmo de abrir os olhos, de esticar o braço e ver, na tela do celular, se já é tarde ou se ainda é manhã de sábado, ela sente o princípio de uma preguiça paralisadora, tensionada, que promete durar o resto do dia. A cabeça lateja; é como se tivesse chorado por toda a madrugada e, por dentro, ainda não tivesse parado. O barulho dos ônibus a incomoda. A cidade faz mal para os ouvidos.
Levanta, com vontade de parar na metade do esforço. O apartamento está escuro como se não recebesse nunca a luz do sol. Quando era pequena, sua mãe dizia que era uma vampirinha, porque mantinha o quarto hermeticamente fechado e trocava qualquer atividade diurna pelo prazer de trabalhar no horário invertido. Passava muito tempo trancada e era de um branco desbotado, leitoso, que carecia de um pouco de sol. Agora também precisava de calor: voltava a ter aquela expressão aluada, de quem está perdida nos seus próprios pensamentos — meio alienígena, meio alienada.
E estava distante. Desconectada dos objetos que a cercavam: a escrivaninha, a caneca com o café quente, o cigarro de tabaco bolado ainda aceso na mão. Tinha os olhos opacos, estacionados num par de chinelos que estavam virados de cabeça para baixo no chão. Perscrutava-os, pensando “se eu fosse até lá… Se colocasse alguma ordem na casa, então talvez…”. Então talvez, concluía; dando de ombros e abandonando a ideia.
Ela está triste porque nada faz sentido. Tem vergonha dessa constatação fácil, que é também absurda e verdadeira. Nunca fora uma entusiasta, uma dessas pessoas eufóricas e otimistas para quem tudo parece bom, mas sabe que deixar-se tomar pelo desânimo também não resolve o problema, seu momento de angústia, sua risível descoberta. Quer reagir e dizer alguma palavra forte, que mude o estado, a frequência das coisas que a cercam. Quer pedir colo, mas passa pelos nomes de seus amigos na agenda de contatos “como se fossem estranhos cujo número de telefone ainda não perdeu”.
Esta não é a primeira vez em que passa por essa experiência, cujo nome ela evita pronunciar para não ter de reconhecê-la pelo que ela é: um fenômeno chamado despersonalização. Esse irresistível desejo de olhar o teto por longas e demoradas horas, a ponto de se perder em seus cantos, nas suas pequenas manchas de tinta, improvável mergulho na loucura. Sabe que o exercício pode ajudá-la: provações físicas mais intensas, como a corrida, o trabalho manual ou até mesmo o sexo costumam deixá-la mais alerta, o que seria uma espécie de antídoto para o sentimento de apatia. Outra opção é ir ao espelho, cutucar o rosto, o dorso das mãos, apalpar o volume e a textura de sua própria pele. Mas hoje ela não quer despertar. Não —
Hoje ela está em silêncio, vertiginosa e estremecida. Ela quer existir na medida do seu descompasso. E não importa se ele é absoluto, um hiato no cotidiano, a incontestável prova de sua inabilidade para sair do quarto (o quarto escuro, aquele quarto de criança, onde ela se escondia e era chamada de vampirinha). Porque toda a gente chora de vez em quando, assim, dispersa, o corpo reclinado sobre a mesa, entregue à cisma e ao som das gotas de chuva. Porque sair de cena é bom e às vezes melhor do que pôr a cara na calçada, à procura de um filme, de uma cerveja, de algum evento supostamente inadiável. E abraça sem expectação a mudança de personagem, e assiste evanescer, no ar, a pessoa que ela era, a pessoa que ela foi, feito poeira de estrela.
