Ser poliamor

​​Cara, relutei muito, mas muito mesmo a fazer esse desabafo, em parte porque fiquei com medo de ser julgada, em parte porque eu não queria encarar o que esse medo realmente significava: que eu também tinha esse preconceito, que eu também me julgava. Porque é difícil se assumir poliamor. Se você é bissexual, então, esquece: as pessoas acham que você não é confiável, que “tá solteira, tá disponível”, que se você fica com os seus amigos “não tem problema” ficar com elas também.

Como se esse fosse o problema. Aliás, por que tem que ter problema? Por que as pessoas entendem que o poliamor quer dizer que vai rolar com todo mundo? E o meu livre-arbítrio, e se eu simplesmente não quero?

Os caras agem como se você estivesse facilitando a vida DELES sendo assim, que com você não precisa ter “firula” (leia-se: respeito) porque a sua vida deve ser uma zoeira total. Ninguém te encara como “namorável”, e quando você começa a namorar a sua vida vira um inferno — porque agora, ah, agora você precisa limar as pessoas com quem falava antes, aqueles falsos amigos, que só queriam transar com você.

E se você só queria isso também? E se era sexo e depois virou amizade? Eles são menos amigos porque um dia vocês tiveram um rolo?

Desculpa, eu não sei como essas coisas funcionam. Ou até sei, porque já me vi reproduzindo isso: na base da hipocrisia, omitindo que estava falando com aquelas pessoas, fingindo que assim eu magoaria menos a pessoa que está comigo. Mas cansei, meu, concluí que acho horrível esse conceito de “magoar menos”, é desperdício de energia e tempo, sem contar que é enrolação pura.

Estou me assumindo assim porque quero que me aceitem e quero aceitar a diferença dos outros. Seria até fascismo exigir que todo mundo seja igual a mim, então quero deixar claro que NÃO é isso o que eu espero: se você pratica a exclusividade, legal; se você acha que tem comportamentos que não são aceitáveis quando a gente entra numa relação monógama, beleza, vamos chegar num meio-termo.

Ou não vamos e sejamos apenas amigos. Ou suma da minha vida e pare de fingir que é meu parça quando é conveniente.

Me sinto meio mal colocando dessa forma, mas no fundo todo mundo sabe que quem é amigo não aparece para mijar no poste, para fazer assistência, para garantir que você ainda está lá, esperando. Quem é amigo comparece, trata você de igual para igual, independente da sua orientação sexual ou da maneira como você vive ela. Sabe que você não está esperando por nada, que a relação de vocês não têm um fim, porque não é um instrumento para chegar a algum lugar. O que tem é um contínuo, um “no meio a gente se descobre, e se não der certo, se reinventa” e vamos lá.

Sei lá, também entendo quem não está afim. A gente não pode impor a amizade para os outros, sem contar que a rotina de ninguém comporta tantos amigos (porque tem essa, amizade também é compromisso, precisa estar ali quando a pessoa depende de você e tal).

Eu só estou cansada, porque na internet todo mundo é pró diversidade e na prática eu continuo recebendo mensagens às duas da manhã perguntando se eu tenho umas amigas para apresentar (porque eu sou “liberal”, né, então minha vida deve ser um surubão), ou então o cara me aparece casado e dizendo que tem “uma conexão muito especial comigo” (ah, é? Então pq não me apresenta a sua mulher?), entre outras palhaçadas que eu passei minha vida inteira ouvindo e ignorando porque achava que esse cenário só ia mudar quando eu começasse a namorar.

Cagada, total. Pq se as pessoas não respeitavam você antes não é o título que vai mudar alguma coisa. O nome que você dá para a relação não faz nada por você, aliás: não é porque é aberta que você não corre o risco de se apaixonar por outra pessoa e querer subitamente fechar, não é porque é fechada que você não consegue flexibilizar em alguns aspectos sem que isso necessariamente envolva você ficar com outras pessoas. Você só precisa assumir o que você quer e estar preparado para ouvir o que o outro vai dizer para você. Porque pode ser que ele/ela não tope, e nesse caso não dá para forçar a barra.

Já me aconteceu de fazer boas e más descobertas nesse processo. Pessoas que eu achava que estariam do meu lado independente da natureza da nossa relação simplesmente vazaram e só reapareceram quando eu estava solteira de novo, ou quando o relacionamento delas não estava legal, ou quando eu estava magra (parece piada, mas é real: de um ano para cá eu perdi uma caralhada de “amigos” que eram bem mais simpáticos quando eu estava com 10 kg a menos). A parte boa? É que eu descobri um jeito de amenizar esse sentimento de vergonha e auto-depreciação que eu sentia quando me perguntava se era ninfomaníaca por não conseguir reprimir as minhas vontades.

Eu decidi parar de ser conivente com atitudes que eu acho babacas. Estou saindo do armário porque também quero sair da condição da step, porque acho ela humilhante não só para mim mas para os outros também. Sem contar que eu tenho sido desleal nessa de me iludir achando que a pessoa é minha amiga quando ela de saída sugere que só quer transar. Porra, não me enganou, estou pedindo o quê também?

Eu não queria aderir a um rótulo porque achava que isso ia me limitar, mas pensei bem e acho que a gente só se limita se quiser mesmo. Não é o rótulo que vai dizer a quantidade de amor que eu vou receber ou dar — mesmo porque “poliamor” é um termo bem vago, que abrange várias formas de compreensão da sexualidade. Eu só estou definindo assim pela questão da representatividade, porque acredito que muita gente passa o mesmo que eu e também se sente desorientada diante da escolha de papéis que a gente pode assumir em sociedade.

Eu escolhi esse, mas tenho plena ciência de que se eu quiser ficar com uma pessoa só é isso que vai acontecer e acabou. O que importa é o entendimento mútuo de que o poliamor não é uma maneira genérica de designar que eu estou na pista. A palavra pode até ser um modismo para muita gente, mas os outros que se danem — para mim é uma perspectiva de vida. Estou de saco cheio de me sentir conformista, fazendo crer que não existe uma alternativa política para a instabilidade constante que eu e muitas pessoas vivem em seus relacionamentos. Existe sim. Eu sou poliamor e quem não gostar disso, que fique bem longe de mim :)