Senhor

Oh Father — Madonna

O senhor é a tristeza que eu evito acessar. O senhor que sempre ordenou que eu o chamasse de senhor, e que bronqueava quando dos meus lábios escapava um você.

O senhor é meu erro. E eu sou seu acerto. Nós juntos somos bolhas. Eu sempre tentei furar a minha, e o senhor sempre tentou se esconder na sua. E me doem os olhos quando eu penso no passado. E me dói o pescoço quando penso no futuro. Quando eram os olhos, o problema era meu. Era eu. Eram os remédios que eu tomei escondido e ninguém percebeu. Não foi crise de nervoso, pai, foi meio vidro de rivotril da vovó. Tantas vezes a corda me apertou o pescoço até que de vez eu acordasse e escolhesse viver. Agora o jogo inverteu e a corda está em você. Desculpe, no senhor. “E o que eu posso fazer?” Essa frase que se repete entre seus dentes a cada tragada de cigarro, e que sempre me irritou. Eu já te disse: há muito o que o senhor pode fazer. Mas agora, eu mesma não sei o que existe em mim pra ainda tentar te salvar.

Eu falhei com o senhor, papai. Eu fui a primeira filha, a primeira neta, primeira sobrinha, afilhada, irmã mais velha. Eu era bonita, esperta. Criança de capa de revista, que tinha tudo pra dar certo. E todos tentaram. Eu nunca esqueci das aulas de passarela e como me respeitaram quando eu pedi pra sair. Desculpe! Eu podia ter ganhado rios de dinheiro, eu podia! E hoje, nada disso estaria acontecendo. Eu te daria um apartamento. O fusca conversível que o senhor sempre quis. Roupas novas e férias no Guarujá. Mas eu errei! E falhei de novo quando gravei disco, videoclipe, e insisti uma década na história de ser popstar pra ganhar dinheiro e te sustentar! Era isso. Não era fama. Não era carência. Era por ti. Sempre por ti, pai.

Mas olha pra mim. Eu não consigo pagar o conserto do meu tênis, que há meses me machuca e eu não reclamo. Às vezes, choro no banho pensando no quanto mamãe gasta com shampoo, e eu, inútil, não ajudo em nada. Sigo falhando com vocês todos os dias da minha vida. Mas eu tento! Eu juro que eu tento. O senhor nunca descobriu seu talento e eu também não sei do meu. Mas me dê tempo! Só um pouco mais. Eu sei que a vida corre, que se a vovó morrer a casa não é nossa, que o seu pulmão, de tanta nicotina, só aguenta mais uns anos. Eu sei de todas as desgraças que estão virando a esquina, chegando, mas eu juro, pai, eu estou lutando.

Há pouco, o senhor me pediu perdão, e eu achei bobagem. Não há o que perdoar quando nossas dívidas se equivalem. Mas eu disse que sim pra te aliviar a alma. Só que a minha não se alivia. O sistema não perdoa. O sistema não funciona pra gente como nós. E são seus jogos de loteria e sua esperança de que a sorte vire que ainda me fazem sorrir quando te encontro. Mas sorte é só pra quem faz o bem. E o senhor não sabe o poder que tem. Essa dificuldade em ouvir o que os outros têm a dizer só dificulta a sua própria voz. Esse desespero em ganhar dinheiro fácil. Por favor, calma! Por favor, pai, não piore as coisas. Cuidado. Por mim, cuidado. Eu não te abandonei, a gente se fala todos os dias. Eu como seu hambúrguer com gosto de cigarro e não reclamo do tanto que me abraça. Eu vou conseguir, pai! Eu vou ganhar essa merda desse dinheiro que te pôs a corda no pescoço. Segura mais um pouco. Não pula da cadeira. Porque se o senhor pular, quem vai ficar sem chão sou eu.

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