Meteoro

O perigo eminente tinha se transformado numa névoa quente, abafada. O medo se condensava com o vapor das bocas que não paravam de falar e criava uma atmosfera sufocante.

O céu estava rosa há três dias e naquele — o último — tinha adquirido um tom alaranjado forte, como o resquício de vitamina C efervescente num copo. De alguns lugares do mundo era possível ver um ponto brilhante que diziam se aproximar.

Era isso. O fim. Na verdade, o encerramento do fim, porque o “apocalipse” tinha começado com o anuncio oficial, um mês antes. Os primeiros dias foram de brincadeiras e risadas, misturadas ao arrepio (inadmissível) na espinha. Seria apenas mais um. Criaram eventos nas redes sociais. Memes aos montes. Seria uma grande jogada de marketing? As agências trabalhavam à milhão pensando numa estratégia ainda superior.

“Vamos criar uma réplica da Estrela da Morte!”

“Vamos colocar um balão gigante em forma de porco na atmosfera!”

“E um Esquadrão Explode-Meteoro?”

A segunda semana foi um pouco mais estranha. Um questionamento pairava no ar e as piadas estavam ficando ultrapassadas. Ninguém tinha reivindicado a ação nem desmentido. A agência espacial mantinha-se firme no anúncio e anunciou que estava, aos poucos, dispensando os funcionários.

“Outras empresas deveriam fazer o mesmo.”- aconselharam.

Algumas fizeram, outras acharam absurdo. Não enquanto ainda houvesse lucro. Mas a coisa descarrilou mesmo na primeira onda de saques. Entre a segunda e a terceira semanas, lojas diversas foram roubadas e destruídas. De eletrônicos à remédios para hipertensão. A comida também estava sendo levada e não se encontrava mais muitos enlatados, galões de água nem fósforos.

Na quarta-feira da penúltima semana, as redes de televisão pararam de transmitir. As rádios também. Apenas duas estações deixaram uma música melancólica tocando, em loop, sem qualquer intervalo.
O último jornal teve apenas duas notícias e foi interrompido pelas lágrimas do âncora. “Boa noite”.

Naquela noite, Maria saiu correndo de casa e foi contar que estava apaixonada. Entrou na casa e abraçou Walter no meio do jantar, beijou-o e disse que o amava, que todas as noites entre eles tinham sido perfeitas e que, se fosse para morrer, que fosse com ele. A esposa, os filhos e os pais de Walter observavam igualmente perplexos. Ali, o meteoro caiu antecipadamente.

Na segunda-feira daquelas semana derradeira, as ruas eram uma mistura de deserto com festa. Enquanto alguns preferiam a reclusão ao lado dos seus, outros queriam viver a esbórnia ao máximo, afinal todo carnaval tem seu fim.

Naquela noite, Joaquim largou a batina. Deixou-a encostada na porta de casa e foi para a rua, onde uma centena de pessoas festejava. Pela primeira vez em 17 anos, bebeu cerveja, cachaça, vodka e catuaba. Satisfez seus desejos com todos e todas que cruzaram seu caminho. Estava cansado e desiludido com aquele fim e torcia para que as boas ações ao longo da vida fossem levadas em consideração.

Marcela foi pra casa e abraçou seu cachorro, seu irmão, seus pais, seus amigos. Começou a rezar, sem nem saber pra quem. Ficou em casa e não quis mais sair. A rua não tinha mais o que oferecer, então desistiu. Reclusou-se.

No último dia, houve silêncio. Mesmo entre os mais animados e dentre os loucos, houve um silêncio completo. Alguns fecharam os olhos, outros foram dormir. Vários se mataram em antecipação. Aguardaram.

Chuva? De granizo? Pequenas pedrinhas caiam do céu, tão pequenas quanto lantejoulas. Ué…
O meteoro virou confete, tilintando nos carros e nas janelas.

“E agora?”

“Era isso que queríamos, não?”

As pedrinhas não tinham peso nem para se equiparar às explosões pessoais de cada um.

O meteoro não caiu, mas acabou com tudo mesmo assim.

Giulia de Gregorio Listo

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