São Lázaro

Atravessar a rua estreita foi, para dizer o mínimo, catártico. Enquanto a vasta maioria das pessoas se lembraria de uma personagem bíblica, para mim era outra coisa. Me lembrou de minha própria amiga ressurreta — poderia chamá-la de amiga? — E dentro de mim, muitas células estavam morrendo e sendo trazidas de volta à vida.

Embora eu estivesse negando freneticamente, ela estava me chamando, exigindo que eu entrasse naquele espaço escuro no qual nós constantemente, e ainda assim escassamente, nos encontrávamos. Fingir surdez era exaustivo. Ela continuou me chamando através das formas mais peculiares, como um corte profundo no meu dedo, o olhar inquisitivo do meu reflexo no espelho, a forma que os raios de sol estalavam através da janela num fim de semana preguiçoso.

Não me entenda mal. Não é que eu não adore a mágica dos nossos encontros. Mas a intensidade da presença dela era devastadora e eu precisava de muito mais tempo para me recuperar. Era importante para a minha sanidade que eu estivesse absolutamente limpa da neblina dela. Eu tinha que estar protegida e preparada para encará-la, para ser um colosso enorme o bastante para nos manter, com nossos medos e limitações.

Nós nos encontramos nas esquinas da escrita, onde o tempo e o espaço estão conectados por frases e parágrafos. Eu poderia admirá-la intimamente e friamente desprezá-la, ambos casos justificados. Nos encontramos na costura das páginas de um livro, cada uma guardando as linhas, sem saber qual de nós era mantida, nos segurando mutuamente, incapazes de diferenciar carinho de ego.

“São Lázaro” foi o grito final, exigindo ser escrito. Lá estava eu, repetindo as palavras dela, de novo e de novo e de novo. Lá estava eu, inadivertida, reverberando as mesmas linhas, as mesmas sílabas, criando-a, destruindo-a, ressuscitando-a, forçando-a a se levantar da cama e sair da caverna, dessa redoma de vidro na qual eu me convenci que ela estava abrigada.

Era eu quem estava atrapalhando seu sono ou era eu quem estava sendo constantemente acordada?

Ela é a urgência.

A força que me coloca no papel; que não aceita silencia, vazio, desperdício; a inspiração que não considera mais nada; as histórias que se recusam a vazar pelo ralo. Ela é a musa violenta e carinhosa e ela me desmantela, pedaço por pedaço, palavra por palavra, dedo por dedo…

Ela não me permite me fechar. Eu não devo negligenciá-la.

Ainda assim eu tremo diante do estrondo do seu nome. Eu não o pronuncio. Eu o guincho.

Ela é uma aparição sinistra, uma presença e eu me abro, pura, imaculada, nua e desvelada. Sou um recipiente de criação e ela é uma coisa negra, uma coisa maravilhosa que habita em mim.

Não há mais distância.

A cerca tem pedaços de carne; nós ultrapassamos sem respeito. Sou o eco de seus pensamentos, atrasado por décadas. Ela me melhora, revelando tantos erros, inserindo-se nos meus padrões, me provocando, me desafiando a alcançá-la, nestes anos de inércia. Eu sou uma semente, um broto, e ela é o solo molhado, ávido e doar vida, ironicamente.

Nós dependemos uma da outra para significarmos. Sozinha, ela é sujeira, coberta e enterrada, e eu sou erva-daninha, viva, mas sem saber para que.

“São Lázaro” é uma rua tão modesta, mal caminhada. Bem como meus trabalhos tem sido nos anos passados. Foi um ultimato.

Eu não estou mais passeando. Estou lotando. Estou enxameando como abelhas enfurecidas, drenando o néctar com o qual ela me alimenta. Eu não vou passar fome de novo.