Competições

Existe um ambiente competitivo lá fora.

Escolas promovem aprendizado, socialização e amadurecimento. Não trabalham, contudo, a natureza do questionamento. Algumas ensinam o mundo como um lugar moldado por entidades super-humanas que desprezam nossas limitações. Para viver bem, basta reconhecer, aceitar e admirar aquilo que não somos capazes de fazer.

Nessa história toda, é cada um por si. Vide as avaliações.

Seriam inocentes métodos de mensuração do conhecimento adquirido, ou uma ferramenta funcional na consolidação do status quo behaviorista? A escola é um cenário repleto de hierarquias e classificações. Pergunto: há espaço para os rebaixados, os renegados, os outsiders? Aqueles que questionam, fazem curvas e formulam indagações são prontamente rejeitados e desconsiderados mediante as urgências burocráticas e curriculares que encaramos do berçário à academia.

Em razão de uma disciplina da faculdade, passei por diferentes turmas de uma determinada escola. Foi onde estudei o ensino médio e onde realizei visitas para a elaboração de relatórios. Pouca coisa mudou. O perfil é quase o mesmo. Um pouco mais de refinamento talvez, depois dos desempenhos ruins em exames de ingresso para o ensino superior. Mas a base ideológica vangloriando disputas e velando dilemas continua firme.

Não busco fazer críticas desenfreadas à instituição. O que pode ser visto aqui se aplica em diferentes graus para a educação brasileira como um todo. Currículos engessados, vestibulares apressados e atolados de conteúdos constituem um lugar comum. O que se vê naquele não-tão-humilde colégio é um sintoma de uma doença muito maior. O que mais me machuca é pensar que os alunos não sabem disso. Servem de estatística. Na melhor das hipóteses, são filtrados para promoverem o caráter inovador e engajado da escola.

Em algumas aulas, sentei no fundo. Foram aquelas ministradas aos estudantes do 6º ano do ensino fundamental, com faixa etária variando dos 11 aos 13 anos. É um período crucial na vida de qualquer um: a chegada dos hormônios, os primeiros índices de independência. Nessa fase que aparecem também os primeiros questionamentos sobre si, sobre a família, sobre a escola e, um pouco mais raros, sobre o sistema. Gostos pessoais se desenvolvem. Relações se tornam mais delicadas e sensibilizadas. A confiança compartilha maior espaço com a curiosidade. Pude perceber isso bem ali, sentado nas últimas carteiras com uma visão geral da turma.

O menino sentado ao meu lado, Estevão (nome fictício), ficou intrigado com a minha presença. Parece que qualquer adulto ali além do professor é uma experiência nova de valor inestimável. Não apareci com nada de mais, estava vestido do jeito casual: boné, óculos, camiseta azul-marinho da Vans e calça jeans. Portava um caderninho para anotações, apenas. Era fácil, porém, perceber como destoava do estilo da professora, bastante tradicional: uma blusa e uma calça brancas, bem discretas, além das joias e do longo cabelo amarrado.

Enquanto eu fazia as primeiras anotações, ele me perguntou de onde eu vim. De Marte? Não seria uma resposta inadequada, dada sua reação à minha chegada. Tentei não desenvolver muito, mas respondi com entusiasmo que estava fazendo um trabalho de faculdade e que escolhi a minha antiga escola como objeto de estudo.

Estevão disse que não me entendia e que gostaria de sair da escola o mais cedo possível. Eu ri, mas não senti genuína graça naquilo. Perguntei então o que ele almejava ser no futuro. Prontamente, o garoto respondeu:

“Youtuber!”

Eis que uma das minhas primeiras interações no estágio de docência converge naquilo que esteve distante da minha realidade como aluno. Mediante os avanços tecnológicos e a difusão das redes sociais, a internet também se encontra onipresente na vida dos estudantes. Ela não é mais uma ferramenta isolada, usada para jogar, ver vídeos, interagir com amigos e pesquisar conhecimentos. É uma fonte de renda real e tangível, não difere de nenhuma outra.

Não resisti e fiz mais uma pergunta:

“Mas o que você faria no Youtube?”

“Não sei direito, mas sou bom no Minecraft e acho que poderia gravar vídeos com as minhas histórias nesse jogo.”

Achei simpático. Minecraft, pra quem não sabe, é um jogo de construção de mundos. Sua abordagem minimalista lembra os já ultrapassados Lego. É uma febre entre jovens desde o começo da década, atingindo diversas faixas etárias. Eu mesmo joguei muito pouco, mas vários amigos meus gastaram horas e horas administrando os recursos e montando suas casas virtuais. É um estímulo para a criatividade, no fim das contas.

O diálogo pouco se desenvolveu a partir daí. O professor deu a sua aula, fiz minhas anotações e voltei pra casa para estudar para uma prova de outra disciplina.

Durante a tarde toda, refleti sobre alunos como o Estevão. Criadores de mundo que sentam no fundão e que querem sair da escola o mais rápido possível. Não sei como são suas notas. Não sei como é sua relação com o professor ou com a escola de modo geral. Vi que puxou assunto comigo e não interagia com os demais colegas. Um possível outsider.

A tecnologia ainda não avançou o suficiente para simular nosso dia a dia, para tornar as pessoas mais agradáveis, para nos deixar mais inteligentes e mais envolvidos com os problemas do mundo. Existe um chão frio e áspero sob os nossos pés, pavimentado por desilusões alheias. O atrito resultante pode ser incongruente demais para a pureza e para a inocência, a simplicidade dos sonhos de alguns.

Se eu pudesse transformar alguma coisa na educação brasileira, eu acabaria com as avaliações tradicionais e colocaria todo mundo para jogar algumas horas de Minecraft. Daria aos estudantes a oportunidade de criar e povoar um mundo particular, tirar conclusões e aplicar resultados positivos no mundo real.

Descobriríamos então que há mundos particulares melhores do que outros…

A competição permaneceria.