Ame-o ou deixe-o.
Eu queria deixar o Brasil. Esse é o primeiro desejo que me vem no turbilhão de extremos que se encontra a situação atual do meu país: retrocedendo e sem perspectivas de melhora. 20 anos hoje, no mínimo. E olha que eu, branca, de classe média, com todos os meus privilégios, quero deixar o Brasil. Eu que o amo tanto, quero deixá-lo. Eu sei que ele me ama também, mas não ama a todos. Não ama quem acorda antes do sol nascer pra pegar um trem lotado, quem corre risco todos os dias dentro das suas casas, quem mora nas ruas, quem depende de um sistema de saúde precário, quem depende de um sistema de ensino precário, quem vive com medo só por ser o que é.
O Brasil hoje tá mais parecido com 1964 do que nunca, quando “ame-o ou deixe-o” vigorou. Amar a gente ama, deixar a gente quer. Mas até em frase de efeito o Brasil consegue ser elitista. Porque, sem toda a romantização da frase, em perspectivas reais: como deixar um país em que o salário mínimo não é nem metade de uma mini-estrutura no país mais próximo?
Me questiono se estamos errados em amá-lo. Ou talvez só o amamos por não podermos deixá-lo? Acho que na verdade, o amamos por não deixar a revolta e a consequente vontade de deixá-lo superar esse amor. E isso que nos dá força, porque se não fizermos por nós, ele não vai fazer pela gente. E fazendo por nós, estamos fazendo por ele.