Colecionamos relacionamentos, mas continuamos sozinhos

Uma breve reflexão sobre a capacidade que temos de desgostar sem muito esforço

Outro dia li um artigo sobre casais que depois que começam a morar juntos simplesmente perdem a funcionalidade. É como se aquela relação desprendida de cotidiano e da obrigatoriedade da presença fosse melhor para os dois. Eu preciso do meu momento a só, eu amo você daqui de casa, assistindo mais um episódio de Grey’s Anatomy e não quero a sua companhia.Constatar isso dói. De repente, aquela pessoa que você nutria enorme sentimento e imaginava junto dela seu futuro, não é aquilo tudo. Você não gosta mais dela, das suas manias ou o modo como ela dobra o lençol. Tudo te irrita. Se antes comer com a boca aberta era fofo e ok para o casal, passa a causar repulsa e estranhamento. Você questiona o que é que está fazendo deitado naquela cama king size com um estranho.

Depois de tanto planejar, a construção parece impossível — é como dizem, na teoria tudo é mais fácil. Ninguém quer um compromisso sério. Somos afetados por uma rapé de relacionamentos da adolescência e elencamos os dias chorosos como suficientes para dizer não a qualquer nova possibilidade de conhecer alguém ou de se envolver. Estamos sozinhos e para disfarçar a constatação desse fato, recorremos as pequenas demonstrações de afeto num sexo casual, num beijo da noitada ou num encontro marcado pelos aplicativos de pegação. É como se aquela efêmera emoção tapasse por alguns dias o vazio que nos é reaberto quando nos afastamos do “crush” ou do cara que pagou a conta do restaurante mais caro.

Nunca foi tão fácil desviar. A pessoa coloca uma foto do torso, do tanquinho malhado ou de um pedaço da bunda. Existe uma regra pra falar com ela “sem foto, sem papo”. Você ignora, porque uma pessoa fútil dessa não merece sua atenção. Então você inicia uma conversa legal com alguém e ela pede suas fotos. Estava muito interessante até ali, você decide mandar porque o assunto estava rolando legal e só quer manter a linha educado. Fim. A pessoa some e não te dá satisfação nenhuma, você é só mercadoria estragada que não merece nem justificativa de passagem.

É nesse jogo de passar pra direita ou para esquerda que colecionamos relacionamentos. Colecionamos momentos. Colecionamos o sexo e damos a nota da performance do nosso parceiro baseado no tamanho do pau ou da bunda. Estamos dispostos a nos deitarmos na cama com qualquer um, no segundo ou primeiro encontro. Não nos damos conta de que essa é uma conexão forte, em que a nudez do corpo é só um detalhe quando está ali a nudez da alma. Estamos despidos em lençóis alheios, por inteiro.

Aí encontramos esses “amantes de uma noite” na rua, no bar ou na balada. Nos cumprimentamos, porque aquilo não era só sexo, imagina! O sumiço do dia seguinte foi um imprevisto no trabalho ou uma viagem repentina. Mas sabemos que é o desinteresse, a falta de sinceridade. Não estamos lidando com pessoas que têm sentimento aqui. Estamos lidando com carne. Mercadoria.

É por não enxergar essa fragilidade da alma que nos sentimento sozinhos, mesmo acompanhados. “Sinto-me sozinho nos seus braços”. Quando constatamos que é aquilo, estar envolvido e correspondido, criamos novas expectativas, aumentamos nossas necessidades, nos lembramos dos diversos parceiros que tivemos e solicitamos as maiores notas.


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