Sacro

Numa quarta-feira do mês de Janeiro recebi uma ligação que vem me incomodando desde então. Meu amigo de longa data havia acabado de se mudar pra São Paulo e as novidades a cerca da mudança pareciam ser o motivo da ligação, mas não. Havia na emergência de sua fala a típica empolgação de quem acaba de desvendar um grande mistério e precisa compartilha-lo com o todo o mundo.

Antes de falar sobre a notícia em si, preciso moldar um pano de fundo para que o impacto dessa conversa seja traçado.


Lá em 2011, quando eu tinha meus 13 anos, comecei a frequentar a igreja de forma mais séria, sem a obrigatoriedade de uma criança levada pela família. Minha conexão com Deus era fofinha e sincera, havia uma pureza inegável.

Com a chegada de um novo pároco, a empolgação da comunidade a cerca de uma nova administração era evidente, mesmo que suas missas fossem monótonas, cruas, de homilia rasa e ineficiente.

A medida que o tempo foi passando, a comunidade foi perdendo a esperança por mudanças e eventualmente muitos deixaram essa paróquia. O motivo convencia: o pároco vinha revelando sua forte personalidade rústica, sem desdobramentos e de difícil diálogo. Nenhum fiel se sentia confortável.

Àqueles que não frequentam uma igreja ou nunca tiveram contato com uma, sequer imaginam a complexidade desse universo. A realidade dos envolvidos, pessoas que trabalham numa sacristia, ministros, coroinhas, pastorais, etc. Existe uma hierarquia a ser seguida, o que indica que todos ali vão reverenciar e se dobrar pelo padre (pároco). A sacristia é lugar de silêncio, ali você só entra para colocar sua vestimenta e aguardar o início das missas. É o lugar onde todos os colaboradores da cerimônia se preparam para o evento, mas é o sacristão quem prepara e sabe onde ficam as coisas. A sacristia é dele, entenda. Não queira subestima-lo. A maioria dos leitores vem de pastorais ou movimentos sociais dentro da igreja e contam com um líder. Veja bem, um líder.

Percebeu quantas delegações existem num universo religioso? Triste dizer que talvez essa seja a maior causa de desfalques e desistência de pessoas que antes compunham o meio. A maioria são pessoas egocêntricas, que só querem exercer um poder ali dentro.

Você pode estar se perguntando como conheço esse universo se eu era apenas um fiel, longe dos bastidores de uma igreja. Ainda, o que isso tem a ver com a ligação que recebi do meu amigo em Janeiro?

Desanimados com o pároco, a chegada de um seminarista iria mudar o cenário decadente dessa igreja. O jovem tinha carisma, dialogava igualmente com qualquer pessoa e trazia nas suas homilias uma voracidade nas palavras. Ele acreditava no que falava e por isso não tinha medo de impor entonação e clamar pela sintonia dos fiéis. Não demorou e a igreja voltou a lotar. É claro que o pároco estava à frente das celebrações, mas os poucos momentos que o seminarista se manifestava era motivo de alegria para os que iam à missa.

Não obstante, a biografia do seminarista compadecia os fiéis. Doente, ele tinha que deixar a cidade uma vez ao mês para um bateria de exames. Nunca soubemos ao certo sua doença, mas sabíamos que era séria. Sua família, muito pobre, não podia cobrir as despesas, o que era resolvido com a ajuda dos fiéis e amigos. O seminarista nunca gostou desse posicionamento de pena, mas não havia como recusar. No fim das contas, ele era um pessoa muito boa, conselheira e disposta, o que justificava toda ajuda e carinho que recebia.

O grande trabalho desse jovem foi implantar na igreja um ministério de acólitos, que até então nunca existira na comunidade. Os acólitos são, na hierarquia, um nível acima dos coroinhas. Na cerimônia, eles ajudam o padre em rituais mais emblemáticos para uma criança, por isso são em sua maioria adolescentes ou adultos — e é aí que eu e o meu amigo da ligação entramos na história.

Disposto a recrutar adolescentes para o novo ofício, o seminarista saiu às ruas da redondeza procurando pelo perfil do cargo. Ele sabia, evidentemente, quem frequentava a igreja e quem parecia ideal para o cargo. Recebi o convite em frente a um supermercado e fui surpreendido ao ser interpelado pelo sujeito magricela e alto, tão querido por todos. Quando ele tiraria um minuto para sequer se dirigir a mim, um pré- adolescente de 13 anos?

Exitei, mas fui convencido pela minha mãe a seguir em frente. Meu amigo foi levado por minha conta, por indicação. Não demorou e as reuniões de formação sucederam rapidamente. Em um mês estávamos prontos e consagrados — veja bem — acólitos. Utilizávamos uma aliança (que guardo até hoje) simbolizando nossa união e serviços por Deus e pela igreja. Aquilo pesava. Será que eu realmente estava pronto?

As cerimônias eram bem tranquilas, as funções separadas entre dois acólitos por cerimônia e eventualmente cinco, dependendo da solenidade da mesma. Era bonito de se ver. Jovens que antes estavam fora igreja, agora em cima do altar, do lado do padre, ajudando na celebração. A comunidade estava radiante com o trabalho realizado pelo seminarista e o carinho por sua pessoa só aumentava.

Criou-se nesse grupo de acólitos uma verdadeira amizade. Viajávamos para outras cidades, reuníamos em sítios e encontros cristãos. Acontece que essa amizade extrapolou os limites. Aquilo que o seminarista demonstrava como carinho e afeto foi visto por algumas acólitas do meio como um affair e as declarações por ele não demoraram surgir. Duas acólitas alimentaram esse sentimento pelo seminarista e enviavam cartas para ele, revelando carinho. Evidentemente, ele manteve sua postura, mas faltavam dois anos para se tornar padre, ora, o voto de castidade ainda não havia sido feito. O problema foi que o pároco descobriu que ele vinha recebendo essas cartinhas e pediu pelo afastamento das meninas. Foi intrigante, ninguém entendia o motivo.

Depois de dois anos atuando na paróquia, o seminarista se muda para outra cidade, é o protocolo. Assim feito, a comunidade voltou num estado de inércia e revolta com a saída do mesmo, custando acreditar que era apenas consequência da sua caminhada e não expulsão do pároco — que àquela altura revelava uma inveja explícita pelo carisma do jovem. O relacionamento com o velho só piorava.

Segui no grupo de acólitos até onde aguentei. Fiquei relaxado e desmotivado em ajudar nas cerimônias. Aquele ódio que a igreja sentia pelo padre era real, mas poucos admitiam. Fui contaminado. Muito tempo depois constatei que eu não fazia aquilo por que gostava ou me sentia bem — o motivo era estético: eu estava em cima de um altar. Talvez se eu tivesse continuado apenas um fiel frequentador das missas, não teria tido contato com os bastidores dessa realidade e não teria deixado a igreja.

Pronto para deixar o ministério, uma última cerimônia estava marcada para presença de todos acólitos: a missa em que o seminarista se tornaria padre. Sim, eu participei de uma cerimônia dessas. Fomos todos para a cidade dele e lá constatamos que já sabíamos: ele era querido por todos. O movimento na cidade foi tão grande, que os moradores emprestavam suas casas para receber visitantes das cidades que ele havia passado como seminarista. Era bonito de ver.

A cerimônia ocorreu conforme a solenidade. Nossa participação era visual, só tínhamos que ficar parados com a vestimenta no altar, assistindo à celebração. Três horas em pé, muita emoção, lágrimas e salva de palmas. Com um discurso iluminado, cheio de vida e perspectiva, o jovem seminarista se tornava um padre.

Dois meses depois eu sequer frequentava uma igreja.

Minha relação com aquele grupo e com a comunidade foi evidentemente abalada. O amigo que indiquei, havia saído um ano mais cedo do que eu e já relatava esse sentimento de estranhamento e repulsa por parte dessas pessoas quando era visto na rua. Meu amigo é gay, assim como eu, mas isso não era motivo àquela altura. Eramos jovens que haviam cumprido um papel ali e não nos sentíamos mais confortáveis.

Assim foi com ele, comigo e com o restante do grupo. Você pode contar no dedo quantos continuam frequentando aquela igreja e quantos saíram dela.

Dois anos depois da cerimônia do novo padre, eu, meu amigo e as duas meninas (que foram apaixonadas pelo seminarista na época) nos reencontramos para colocar a conversa em dia e matar a saudade, afinal, a amizade que nasceu ali era sincera. Conversa vai, conversa vem, as meninas revelaram o real motivo do afastamento que sofreram pelo pároco: inexplicitamente, o seminarista dava esperança à elas. O típico caso da pessoa que quer, mas não cede.

Analisando esse lado sexual, eu e meu amigo relembramos as vezes que éramos chamados no Facebook pelo seminarista para uma simples “conversa”. Àquela altura ele já havia se mudado de cidade e acreditávamos estar com saudade, o tom da conversa era esse. Inocentemente, os elogios que ele fazia quanto nosso amadurecimento — “nossa, como você está bonito”, “vai ficar um homem lindo” — não eram puros. Havia ali uma malícia que não enxergávamos.

Trocando essas informações, eu, meu amigo e as duas meninas constatamos que alguma coisa estava errada. Ora, se ele tinha esses sentimentos, será que haveria um limite enquanto padre? Será que ele faria amizades ao longo da sua caminhada, ganharia o coração dessas pessoas e ficaria por isso mesmo? Ou será que ele iria adiante, mesmo que escondido?

Depois desse encontro, voltei para a cidade que me mudei e só mantive contato com meu amigo que estava se mudando e é aí que chegamos na ligação do começo desse texto.

Ele contou que depois daquele encontro, ele saiu com as meninas mais uma vez e consequentemente chegaram no assunto do seminarista (que agora é padre). Ainda intrigados, se desafiaram a chamá-lo no Facebook e insinuar um afeto adormecido. Dessa forma, iriam provar por A+B a infidelidade do padre com sua igreja, com seus votos.

O primeiro a tentar seria meu amigo e se desse errado, as meninas continuariam na armação. o que meu amigo me disse fez com que eu tirasse o telefone do ouvido e pedisse um minuto para tomar um ar e beber um copo d’água. Ele conseguiu não só confissões secretas desse padre como também nudes do mesmo.

Dispensando o conteúdo da conversa que ele teve com o atual “padre”, apenas reflito a situação em que esse homem se encontra. Meu amigo e ele não se falavam há pelo menos dois anos e bastou uma única conversa para que ele revelasse seus maiores segredos. Imagine você o que é estudar dez,quatorze anos para se tornar um padre, escutando todos os dias o que é certo e o que é errado e cometer um ato desses com uma pessoa que sequer participa da sua vida.

É evidente que não condeno o teor sexual da suas atitudes e nem compadeço com a possibilidade dele ter escolhido esse caminho por ser o mais tranquilo, o menos doloroso ou o menos chocante para toda a família— seja ele bissexual ou gay. É triste pensar que essa é a realidade de tantas pessoas que ingressam a vida sacerdotal afim de esconder quem realmente são, mas me desculpem, não justifica nada — não no mundo em que vivemos.

O maior erro aqui não é o que ele fez com esses jovens e nem o que ele vem fazendo consigo mesmo, se escondendo atrás de um título. O erro está no que ele vem fazendo com os fiéis, que creem nessa verdade e ajoelham-se para um confissão acreditando estarem sendo ouvidos plenamente por Jesus (já que o padre tem essa figura) e relatando seus maiores medos, erros e coisas que se envergonham, quando a pessoa que os escuta não tem sequer culhões para julga-los.

Na ligação meu amigo me contou que o padre implorou por confidencialidade, mas lamento dizer que até as fotos enviadas eu vi (e haviam diferentes ambientes e troca de roupas, o que indica que ele faz esse tipo de coisa há um bom tempo). Nos dias que se seguiram, meu amigo relatou que foi chamado várias vezes pelo padre afim de conversar, insinuar coisas e pedir mais fotos, o que foi ignorado.


P.S.: Se você chegou até aqui, quero que entenda que o teor desse texto não é de fofoca e nem de intriga, tanto que não revelei o nome de ninguém e nem os lugares onde tudo aconteceu. Minha intenção é levantar uma reflexão até que ponto a hipocrisia humana pode chegar, afetando não só a si mesmo, como uma rede de pessoas que acreditam numa verdade.

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