A descoberta sexual do homem que não sou

“seu segredo ignorado, por todos e até pelo espelho” Linn da Quebrada
Ilustração de Babi Macedo (travartista)

Há algo de meditativo no sexo. De alguma forma, descobri mais sobre mim enquanto afundava minha cabeça por entre suas pernas, do que nas diversas tentativas de contemplar o nada. Percebi que desconhecia o prazer genuíno, notei que as formas de vivê-lo são tão diversas quanto os corpos podem ser. Foi neste momento infinito, quando seus lábios maiores e menores beijaram os meus, que eu me senti livre pela primeira vez. Ali não haviam coerções, expectativas, ou categorias limitantes de qualquer ordem: havia meu corpo conversando com o seu em língua nativa, e só.

Em algum momento dessa trans-ação, nos despimos das nossas definições de gênero junto com as roupas, e isso me deu medo. Como saber quem somos senão através das nossas identidades? Qualquer resposta foi descartada na medida em que o desejo, tão vigiado e punido, falava por si.

Ilustração de Babi Macedo (travartista)

Eu, cujo falo sempre foi um fardo, que provei de tantas masculinidades — e presumi conhecer todas elas quando me recusei a ser o homem que esperavam que eu fosse, fui pega de surpresa pela sua vulva. Não, ela não lhe resume, nem lhe explica, mas expõe a fratura na norma cisgênera. A figura do homem fálico rapidamente se rompeu no meu imaginário, dando lugar a representações mais palpáveis e justas. Homem é aquele que assim se define. É tão óbvio quanto controverso, simples como deslizar dentro de você, líquido como a materialidade do nosso gozo.

Você fortificou minha feminilidade quando deitou seu quadril sobre mim, interrompeu minha respiração e me fez refletir sobre todas minhas inseguranças. Quando me ergui por cima de você, já era outra. Na verdade eu não era nada além de pulsão e suor, como você. Comi você, ou foi o contrário? Você engoliu e cuspiu, na minha cara, toda a minha pequenez. Debochou dos meus tabus, abriu minha mente e todos os meus poros. Perguntou se podia sabendo a resposta, presumiu corretamento todos os desejos que eu não assumia. Depois de você nunca mais fui a mesma, fui um tanto melhor.