Quando minhas próprias palavras estranhamente fizeram sentido

Lá estava eu, alguns anos atrás, esperando passar toda aquela década entre o momento que fechei os olhos e a hora em que o sono finalmente viria. Naquele dia ele não veio fácil.

Pode-se dizer que não existe mais um momento tão introspectivo quanto o pré-sono, pós-desistência-de-um-dia-insuficientemente-grande. Talvez nunca tenha existido. Os olhos fechados no silêncio são o instante em que a raiva de ainda estar preso ao ontem se junta com a esperança de amanhã. Você ali deitado é o que restou do hoje, a única coisa que falta dormir no mundo inteiro.

Ah, você dorme assistindo TV? Bem, é melhor que deixar o livro cair na cara.

A questão é que, quanto maior este intervalo entre deitar e dormir, mais rápido sua mente gira. Depois de duas horas, até vertigem dá — o suficiente para pular da cama de frustração, respirar fundo, desistir e deitar de novo. Eu deitei, tentei ordenar tudo aqui dentro em uma fila de ansiedade e despachar as preocupações para algum sonho em queda qualquer. Foi neste momento que entendi meu problema.

Eu tenho muitos assuntos não resolvidos comigo mesmo. Muitos! Mas nada comparado à bagunça que eu era naquela época. Desde o passado mais antigo ao futuro mais imediato; minha mente em mais pedaços que uma carta de amor perdido. Sim, eu estou falando de depressão, ansiedade, auto-estima, o pacote completo. Uma das milhões de máquinas quebradas na espécie automatizada que valorizamos — mas isto é conversa para outra hora. Tinha todos os motivos do mundo para isto, e todos eles estavam aqui dentro girando e me tragando para o centro, uma galáxia inteiras de estrelas sem luz.

Mesmo assim, no escuro do quarto e no período mais escuro da minha vida, eu não conseguia identificar o que estava sentindo. Quem sabe seja a velocidade com que estes pensamentos me atormentavam — tão rápido que nem tentando fixar um ponto e acompanhar com o olhar eu conseguia uma pista. Quem sabe. A verdade é que eu tinha todas aquelas palavras e nenhuma conseguia ser lida. Foi neste dia que me dei conta desta estranha noção. E hoje eu sei, de certeza adquirida por sorte e experiência própria, que não ouvimos a nós mesmos de verdade.

Nesta altura eu já tinha várias pessoas ao meu redor dando pistas sobre a mesma coisa: por que você não escreve? Um diário quem sabe? Escreva apenas o que você está sentindo. Até esta noite de insônia perdida no passado, eu fugia dessa ideia como a razão foge de nós quando achamos ter a razão. Não, você não tem razão. Nem eu tinha.

Depois de passar anos convivendo intimamente com todas falhas na muralha que ergui em volta da minha personalidade, eu achava que entendia meus pensamentos em sua completude, de frente para trás, bilíngue, em braile quando acariciava tudo que julgava errado em meu rosto. Como fui ingênuo. Finalmente desisti de tentar acompanhar minha cabeça e prendi todas essas ideias em uma cadeia cruel e definitiva: em um texto. Em seguida veio outro, e outro, e em um dia qualquer desses pela nossa vida senti uma sensação esquisita no rosto, de pele sendo repuxada para os lados. Fui correndo ao espelho, achando que eu estava derretendo ou algo assim; só quando vi percebi que era apenas algo que eu não via em mim a muito tempo.

Era um sorriso aliviado.

Ele me veio porque descobri algo encantador. Presas à tela ou ao papel, as palavras não correm, e com isso suas letras não se misturam desorganizadas. Sério, minha cabeça era uma festa infantil com açúcar demais. Descobri que não tenho que fazer minhas ideias crescerem para se adaptarem à vida adulta, apenas tenho que organizá-las e dar atenção a cada uma, independente de quão fantasioso seja um pensamento de criança. Foi fácil, como aprender o abecedário, entender-me descrito naquelas palavras. Escrito encontrei uma pessoa que nunca havia saído da minha própria cabeça — Adulto, mas ainda bastante atraído por movimentos bruscos e cores fortes. E caramba, quantas cores eu consigo enxergar em palavras pretas escritas na tela branca. Todas as estrelas liquidificadas no meu cérebro se acenderam, e cada uma tinha um tom diferente.

Foram aquelas palavras que mudaram tudo. Foram aquelas palavras que me mostraram alguém que eu não conhecia. Naquele dia, depois que eu escrevi meu primeiro conto, eu dormi tão rápido quanto uma criança jogada no banco de trás do carro.