A Diatribe de Paulo em Romanos 2:1–5,17–29.

Originalmente o significado de diatribe, na literatura grega filosófica a qual nasceu esse gênero — significa “passatempo”, “divertimento”, “dissipação”, “conversação”. Porém o seu significado ganhou uma abrangência das mais variadas, passando do seu significado primeiro até a ser entendida também como prédicas de caráter popular parenética. Tal recurso literário surgiu por volta do século III a.C. através do filósofo cínico grego, Bion de Boristene. A diatribe consiste em expor idéias, doutrinas filosóficas ou morais em forma de diálogo, possuindo gênero coloquial e dotado de sentenças curtas ou condicionais, com o interesse de dialogar com um interlocutor imaginário. O uso deste recurso literário, diatribe, passou por escritores cínicos, estóicos até chegar ao uso de escritores cristãos.

O apóstolo Paulo, bem como outros escritores do novo testamento, faz uso demasiado deste recurso tão rico, devido à sua eficácia didática. Ao se analisar alguns dos contextos motivadores dos escritos Paulinos, percebe-se facilmente a intencionalidade de Paulo, ora escrevendo discursos retos e comuns e ora produzindo discursos totalmente retóricos, viciosos e parenéticos com um toque de ironia satírica. O texto objeto de estudo que será analisado neste trabalho à luz do estilo diatríbrico será o de Romanos (2.1–5,17–29).

É importante destacar os elementos que caracterizam uma diatribe. São eles:
 ●Diálogo vívido com um interlocutor imaginário; ●Objeções, conclusões falsas e rejeições; ●Lista de vícios; ●Súbita mudança de discursos; ●Paralelismo antitético; ●Perguntas retóricas em paralelo; ●Enumeração de substantivos; ●Assíndetos ou frases mal conectadas; ●Discurso agressivo, irônico e parenético.

Dos elementos citados acima, o diálogo vívido com um interlocutor imaginário, é o primordial para a essência da diatribe. Este elemento têm o objetivo de criar um colóquio imaginário de um mestre com um interlocutor que se opõe aos seus ensinos e chega a conclusões falsas; o objetivo do mestre nesse diálogo é rejeitar e responder à essas objeções e falsas conclusões conduzindo o interlocutor imaginário (e o leitor) a um novo conceito. À luz de Romanos (2:1–5,17–29) iremos desfragmentar os versículos identificando elementos diatríbicos nos mesmos, usados por Paulo.

Primeiramente, (Rm 1:29–32) texto que antecede o nosso texto em análise, nos mostra um dos elementos de uma diatribe, a lista de vícios. Tal lista, tem sua origem provavelmente na filosofia helênica e sofreu transformações ao passar ao judaísmo helênico. Em antagonismo à lista de vícios temos as listas de virtudes, às quais são menos recorrentes no novo testamento do que o “catálogo vicioso”.

Desfragmentando Romanos (2:1–5,17–29) temos o seguinte esquema:
 ●(Rm 2:1–2) “Portanto, és indesculpável, ó homem quando julgas qualquer que seja; porque no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas”

“Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que praticam tais coisas”- Percebemos aqui a presença de um diálogo vívido, entre um mestre, Paulo, e o interlocutor. Também é notório o recurso retórico de Paulo com a expressão “Bem sabemos” (v.1,2).

●(Rm2:3–5) “Tu, ó homem, que condena os que praticam tais coisas e fazes as mesmas, pensa que te livrarás do juízo de Deus?”

“Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?”

“Mas, segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus,”- Percebe-se nestes versículos a identificação de perguntas retóricas, (v.3,4) e um forte tom parenético, exortativo, (v.5) tipificando uma característica diatríbica.

●(Rm2:17–20) “Se, porém, tu, que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus”

“que conheces a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei” “que estás persuadido de que és guia dos cegos, luz dos que se encontram em trevas,”

“ instrutor de ignorantes, mestre de crianças, tendo na lei a forma da sabedoria e da verdade”. — Nestes quatro versículos notamos a presença de assíndetos, ou seja, a supressão proposital de conjunções, conectivos (v.19,20); notamos também a enumeração de substantivos (v.20); e um forte tom irônico e satírico (v.17,19,20).

●(Rm2:21–24) “tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas?”

“Dizes que não se deve cometer adultério e o cometes? Abominas os ídolos e lhes roubas os templos?”

“Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?”

“Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa”. — Notemos nestes versículos a presença de um tom ríspido e provocante (v.21,22,23,24); perguntas retóricas (v.21,22,23); forte tom parenético(v.24) e paralelismos antitéticos (v.21,22,23).

●(Rm2:25–29) “Porque a circuncisão tem valor se praticares a lei; se és, porém, transgressor da lei, a tua circuncisão já se tornou incircuncisão”.

“Se, pois, a incircunsição observa os preceitos da lei, não será ela, porventura, considerada como circuncisão?”

“E, se aquele que é incircunciso por natureza cumpre a lei, certamente, ele te julgará a ti, que não obstante a letra e a circuncisão, és transgressor da lei.”

“Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne”

“Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus” — Nestes cinco versículos finais de nossa análise é fácil notar a presença de paralelismos antitéticos (v.25,27); forte tom parenético (v.27,28,29); perguntas retóricas (v.26); tom irônico (v.26,27); diálogo vívido (v.25,26,27,28,29); e uma súbita mudança de assunto (v.24,25).

A diatribe é um recurso literário bastante eficiente, devido à sua forte didática, e riqueza coloquial, portanto, é bastante usada no novo testamento. A análise deste trabalho se concentrou neste pequeno trecho da epístola de Paulo aos romanos, no entanto Paulo faz uso da diatribe em diversas outras cartas, sempre com um propósito de envolver bastante o seu leitor, trazendo a ideia do diálogo de um mestre desconstruindo os conceitos errados de um interlocutor que levanta objeções falsas, mas que no final sempre entende a mensagem passada pelo mestre.

Por, Glauber Carvalho.

__________________________________

Bibliografia

· As Formas Literárias do Novo Testamento — Klaus Berger — Edições Loyola.

· Dicionário de Termos Literários — Massaud Moises — Edição Revista e Ampliada — Editora Cultrix.

· Paulo o Apóstolo dos Gentios — Rinaldo Fabris — Editora Paulinas.

· Dicionário de Filosofia — J. Ferrater Mora — Edições Loyola.

· Comentário Bíblico — Dianne Bergant, CSA e Robert J. Karris, OFM — Volume 2 — Edições Loyola.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.