Despossuído

Não se sabia ao certo se isso era dos procedimentos, mas, certamente, era por obediência a alguma norma geral, que se viu deixando sempre o rosto na entrada do prédio. Por pudor, pelo corredor, ia também abandonando o nome. O corpo só não saía todo de si porque era impossível. Mas até chegar ao seu posto abstraía-o de algum modo.

Vivia, dentro do dia, por outro organismo, que não era desprovido de olhos, apesar dos movimentos cegos. E os tais olhos, uns dos outros, geravam olhares direcionados a algo que nunca eram eles mesmos, embora fossem sempre flagrados.

Lá dentro, e dentro do tempo, esburacavam-se transpassados por esses olhares.

Assim, encarnados como fantasmas, toda a vontade, mesmo a fome, era saciada por uma boca e um estômago alheios, era saciada por dentro de alguma coisa além, esmaecendo o gosto, como se saciando organismo de outrem.

Embora o espaço encolhesse por alguma força de gravidade, o tempo se alargava, e o rosto, deixado na portaria, evanescia, pelo relaxar dos movimentos, a cada saída, de cada dia; quase ficando transparente pela rua. E o nome, que caía, aos pedacinhos, já ficava sem lugar a salvo.

Foi por isso que, certo dia, a caminho de casa, tomou um susto quando alguém, trazendo-lhe o seu nome na boca, pediu-lhe uma opinião. Espantou-se de se lembrar que existia ali no corpo que ocupava. E sentiu medo de surgir, assim, não se sabe de onde.

No prédio, depois de não ter bem certeza se o pássaro que havia pousado na janela o enxergava lá dentro, ou se era algo, independente dele, que dialogava com aquele pássaro, passou alguns dias olhando para fora, absorto, sem a intenção daquela subversão, que no fim, após se recompor prontamente, não soube se fora notada.

Policiou-se, então, pelos dias que iam se acumulando, desassossegadamente, confundindo-se uns nos outros, até que, não se sabe em qual deles, diante do olhar fixo de alguém, calou-se em um espanto maior.

Mais do que não ser um espaço ocupado por si, tentou, ele mesmo, se sentir ali, diante daquele olhar, e não conseguia. Era esquisito não poder saber sequer de onde estava olhando aquilo acontecer. E mesmo olhando, simplesmente não saber o que ocupava aquele espaço onde deveria estar o seu corpo.

Mesmo assim, sem si, ainda lhe preenchia, de onde não estava e de onde deveria estar, um medo, no último segundo, um pressentimento súbito, quando, de si mesmo, de uma vez por todas, escapuliu. Sumiu. E não sentiu mais nada além desse susto, o coração aos pulos, atônito, por infinitos segundos, até que de novo emergiu para o lugar em que, como há pouco temia, e agora tremia, quase se perdia.

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