Cadeia alimentar
Sobre pessoas, urubus e pombas mortas.
Há algumas semanas presenciei um fato um tanto bizarro que, embora passados muitos dias, permanece vivamente gravado na memória. Era um sábado meio acizentado e o centro de Porto Alegre, como de costume, estava meio esvaziado. Ia com alguns colegas na direção do Mercado Público para pegar um ônibus quando, na altura da Esquina Democrática, percebo que algo cai do céu. Dando fim à queda que durou segundos, um som “molhado”, como se um balão cheio d’água tivesse sido arremessado de uma das tantas janelas dos prédios da Borges. Automaticamente olhei para cima e, para minha surpresa, de uma fenda entre as janelas do prédio, vejo um urubu alçando voo. Não sei bem ao certo se ele realmente tinha asas enormes ou se é o costumeiro exagero que carregam nossas lembranças, mas sei que fiquei entre arrepiado e apavorado com a imagem. Pavor que só aumentou quando, ao olhar para o chão à procura do objeto caído não identificado, vi os restos mortais de uma pomba.
Me conhecendo como uma pessoa extremamente fácil de surpreender, recebi com normalidade o dar de ombros dos colegas para a cena, mesmo que não aceitasse que aquela imagem, incomum, tão literária, fosse encarada com um dar de ombros.
Dias depois, ainda com o som da queda, o voo do urubu e o repouso final da pobre pomba na sarjeta na cabeça, conversei com a Samara, minha colega de faculdade sobre e, papo vai papo vem, refletimos sobre o aspecto incomum, estranho e bizarro daquela cena, só para chegarmos à conclusão que, muito pelo contrário, aquilo talvez fosse até banal. O sábado, o dia cinza, a tarde de descanso talvez nos permitam o olhar atento para esses momentos efêmeros, naturais. Movimentos simples e horizontais que fogem de vista nos nossos momentos de atraso, na nossa preocupação constante em não sermos assaltados, no nosso mergulho nas telas de celulares ou no som de fones. Como disse Samara, é a cadeia alimentar. O resto mortal do pombo é o alimento do urubu e nós somos o alimento de uma vida mecanizada, regida por um sistema que nos engessa e que nos reduz à uma busca por competência extrema, perfeição detalhada e padronização imutável, que na teoria de sabe-se lá quem, vai render algum tipo de felicidade.
Talvez justamente isso tenha me impressionado tanto e impressiona tantos outros talvez. Atentar para as “anormalidade naturais” que rondam nossa rotina, sempre à margem da nossa correria, do afobamento diário, coisas viscosas que caem ao chão, ou que sobem ao céu, fugindo de tudo isso que é proposto e imposto. Ainda sinto pena da pomba e fico tolamente me perguntando se o urubu achou absurdo aquela figura humana olhando para ele enquanto voava para o céu cinzento.