Nessa história não existe pai

Nessa história não existe pai. Existe o abandono de João, atado junto daquele nó no meio de sua garganta. Existe a raiva de Isabel, sufocada no seu punho fechado. Existe a complacência de Artur, caindo sobre ele como uma neblina tranquila, daquele jeito sereno com o qual ele sempre levou aquilo. Existe o esquecimento de Andréia, profundo como um corte em sua memória, esvaziando aquela figura de qualquer outra coisa que não fosse uma silhueta disforme.

Nessa história não existe pai. Existe Ariane e aquele dia em que caiu o seu primeiro tombo de bicicleta. Naquele dia também existiu sangue, existiu a necessidade de uma mão e também a certeza de que os aprendizados da vida lhe fariam sangrar. Existe Marcelo e aquela festa em que seus lábios foram beijados. Ah, aquela festa! Talvez fosse só uma bobagem, mas havia algo entre os lábios dele e daquele outro menino que o faziam acreditar que ele havia crescido tanto. Já sei beijar, já sei amar. Existiu naquela festa a vontade de que alguém notasse que ele crescia. Existe Moisés e o seu primeiro vestibular. Parabéns, Moisés! De primeira! Existiu naquele dia de tanto êxtase e a necessidade de compartilhar o orgulho, a conquista, a alegria com alguém. Existe também Alice e seu primeiro apartamento, através do qual circulava, da sala para o quarto, do banheiro até a cozinha, a vontade de dizer que aquele lugar com janelas grandes e um banheiro de azulejos verdes era seu, todo seu.

Nessa história não existe pai. Existe talvez o medo de Giuliano, incrustado em lembranças esmaecidas. Existe talvez um traço em Daniela. Um nariz, um lábio, um olho. Quem sabe até a alma, pra quem acredita que temos uma. Daniela acreditava. Existe talvez a dúvida, amiga de longa data do abandono e inquilina do fundo do coração nervoso de Ariel, que batia mais rápido por qualquer coisa. Por quê?

Nessa história não existe pai. Existe um vazio. Na carteira de identidade de Pâmela. Na foto de escola do Gabriel. No carro-choque de Larissa. No domingo de Gustavo. Vazio. Nem um pedido de desculpas. Ou uma batida na porta. Ou uma pose para foto. Ou um sorriso. Ou um parabéns. Só o abandono e tudo aquilo que ele deixa pelo caminho. Vazio.

Nessa história não existe pai, mas é sempre bom lembrar que nessa história existe uma história. Existe a história de Isabel e de Artur. De Andréia e Ariane; de Marcelo, Moisés e Alice. Existem suas conquistas, suas dores, descobertas, tristezas, alegrias, tropeços, acertos. Existe a melancolia dos dias borrados em cinza grafite, existe a vontade de se apaixonar dos dias tingidos pelo calor de um sol de verão. Ai, Daniela, Giuliano e Ariel, existe tudo, tudo e mais um pouco nessas histórias, uma enxurrada de coisas que deixam o abandono lá atrás, num início distante, esquecido aos poucos.

Existe também, e principalmente aliás, as mães, as avós e as tias. Ajudando nos tombos de bicicleta, notando como eles crescem (como crescemos!), comemorando eufóricas uma aprovação no vestibular, assistindo discretamente como eles aprendem a amar, conhecendo as casas deles, esses filhos, netos e sobrinhos, dentro das quais eles irão viver mais, tropeçar mais, conquistar mais, amar mais. Tudo isso e mais um pouco.

Nessa história não existiu pai. É verdade que às vezes ele lembrava disso no silêncio dos domingos de agosto. No fundo, até gostava de lembrar. Ele sempre acreditou que seria lembrando do erro que não o repetiria.

Em outras histórias existirá um pai.