Ocupando Porto Alegre
“Todas as narrativas que compõem este livro são reais. Mesmo as que não são, são”.
É com essa advertência que o escritor Marcelo Rocha dá início ao seu livro Ocupa Porto Alegre e Outros Contos, obra vencedora do Prêmio Açorianos de Criação Literária de 2013. De fato, as histórias contadas no livro poderiam muito bem fazer parte do dia-a-dia de qualquer um, assim como no lugar de seus protagonistas poderiam muito bem se encaixar nossos vizinhos, amigos, parentes ou mesmo nós, leitores.
Fazendo uso de uma linguagem direta e irônica, Rocha engana quem acha que por trás da frágil aparência de 120 páginas do livro escondem-se contos escritos e reunidos às pressas. Muito pelo contrário: fazendo de cada narrativa um retalho, conto após conto o autor vai costurando um grande panorama da sociedade moderna, mergulhada em solidão, lidando cotidianamente com o fracasso pessoal e profissional, às voltas com as aflições da cidade grande e as aparências padronizadas, sejam elas estéticas ou culturais.
Essa é, sem dúvida, a maior característica do livro. Transitando por uma Porto Alegre úmida e cinzenta, os ordinários protagonistas se encontram (ou se desencontram) em meio a engarrafamentos (Em Trânsito), obedecendo à lógica que o autor chama de “uma nova sociabilidade’’, na qual os engarrafamentos, tão comuns nas metrópoles, passam a exercer o papel de um novo ambiente a ser explorado pela literatura; da mesma forma eles se reencontram na Cidade Baixa (Reencontro) e se veem perdidos no vácuo da constante “falta de assunto” não sabendo como “proceder aqueles dois amantes que haviam se prometido a felicidade eterna”, refletindo, em ambos os casos, nos atuais conceitos de “conheço” e “não conheço”, hoje dilúidos pela onipresença das redes sociais nos espaços de interação. Há um ar opressor de solidão pairando pelos contos, assim como uma constante aparição de gatos de apartamento, sufocando os personagens a ponto de levá-los ao confinamento (Pele de Osga), a caminhadas noturnas enlouquecidas e perigosas pelo Bom Fim (À Procura de Nei Lisboa) e à atitudes bizarras, que no fim se revelam um questionamento à personificação dos animais domésticos, ou, como no caso, à “animalização” de nós seres humanos (Os Gatos).
Os casados de Rocha por sua vez, representam na grande maioria dos contos o que há de pior nos casamentos da modernidade: a ambição e a constante paranoia com a traição (Um História de Amor) e as atitudes desesperadas para se livrar de uma realidade engessadora, opressiva e cotidiana (Oblivium). São casais que dificilmente conhecerão finais felizes.
Porém, mesmo representando uma grande porção desta grande obra, a representação da Porto Alegre moderna, chuvosa e engarrafada não é a úncia façanha do texto de Rocha. Ele ainda encontra espaço para, em diversos contos, fazer uma crítica de sorriso amarelo à academia e toda a sua pompa e certeza de superiodade. Não satisfeito, ele põe toda a aspereza e acidez na caneta para revelar o seu ranço com a academia e dissecá-la como ela — supostamente — é (Uma História de Amor, Memórias de um Cadáver no Curso de Letras). A literatura gaúcha também não escapa, principalmente aquela literatura de grandes heróis, de personagens másculos e incorruptíveis, imaginados “à sombra de Érico Veríssimo”. “- Eu por exemplo, nunca seria protagonista de um romance de literatura gaúcha. Preta, gay e feia” esbraveja uma personagem de Uma Tese não Escrita. O autor também se inspira em George Orwell para criticar a relação do povo com a política e seus governantes (Fazendo Modorra) e, como uma irreverência invejável, enfia o dedo na ferida do fundamentalismo, introduzindo uma figura que, apesar de bizarra, se assemelha e muito à figuras terrivelmente reais como Silas Malafaia (Cidades Invisíveis).
E, no meio de todo esse cinza das críticas e da modernidade, tão bem representados nos paralelepípedos quase monocromáticos da capa do livro, se destacam dois contos de uma sensibilidade emocionante: Um Carta Guardada, que aborda a atemporalidade dos nossos sentimentos, mesmo limitados pela morte; e Redenção, uma belíssima declaração de amor ao Parque Farroupilha.
Por fim, o conto que dá nome ao livro, faz jus ao cargo ao questionar de maneira brilhantemente maluca e engraçada o conceito da ideia da centralização da cultura de um estado em sua capital.
Ocupa Porto Alegre e Outros Contos é, como já dito, um fiel panorama da sociedade moderna apressada e com os olhos voltados quase que constantemente para os smartphones. É um reflexo do que é ocupar Porto Alegre, e, especialmente, do que é ocupar Porto Alegre sendo um estudante de comunicação, sendo um acadêmico ou mesmo sendo as estátuas de Quintana e Drummond na Praça da Alfândega. Mergulhando nas entrelinhas das palavras ágeis do autor, que nos fazem deslizar de um conto a outro sem pausa, totalmente incertos do que virá em frente, é possível refletir de forma intensa sobre a solidão, sobre o que se faz ao companheiro ou companheira quando se está em um relacionamento, sobre o que fazemos e, principalmente, o que não fazemos e sobre a rapidez com a qual vivemos tudo hoje em dia. Nessas entrelinhas úmidas, engarrafadas, ao som de buzinas e de risos na Redenção, se esconde a visão de Rocha para algumas das grandes discussões desses tempos loucos nos quais estamos fantástica e terrivelmente presos. Uma leitura engraçada, ácida, que nos faz rir de seus personagens sem que nos demos conta de que, na verdade, estamos rindo de nós mesmos.