O Jantar

Cheguei cedo para a janta. Conheci-a ontem, não queria deixar uma má impressão. Ela abre a porta. Está muito arrumada e bonita. Como sempre, imagino. Sorri e me beija o rosto. Entre e fique a vontade, aceitei seu desafio de cozinhar hoje, então nunca se sabe o que pode acontecer. Ela brinca. Eu realmente a desafiei, porque ela é uma mulher totalmente diferente das pessoas com que convivo. Vive de artes, no alto escalão da sociedade, nunca pegou ônibus ou cozinhou na vida. Ela retira o assado, pega a faca e corta o barbante. Depois os deixa despretensiosamente na mesa de madeira clara, ao lado do frango. Parecem cúmplices daquela morte, quase amantes, a faca, a mesa e o barbante. Meu olhar é só para ela. Tão afiado como a faca.

As mãos são magras e delicadas. A direita segurava firmemente o peito do frango, o levanta suavemente, mostrando assim, o arrombo havia nele antes de assá-lo. Por dentro, um buraco negro. Ela pega o recheio que havia preparado, já cozido e temperado. Enfia o recheio com seus dedos finos e engordurados, até preencher todo espaço do frango. Lança em minha direção um olhar provocativo, como se seus dedos fossem se mover exatamente assim dentro do meu corpo após o jantar. O frango parece apetitoso. A pele, em partes douradas, em partes ainda branca, se misturam com a mão clara, entrando apenas em contraste com suas unhas que marcam presença com cor de sangue. Sua mão esquerda reluz no dedo médio um anel de pedra preta azulada, daqueles que impõe poder, enquanto ainda engordurada puxa com ferocidade a cocha. Tento não pensar em seu lábio vermelho sendo mordido pelos seus pequenos dentes perfeitos. Nem encarar seus olhos selvagens que medem cada pedaço do meu corpo. Seria mais fácil se você cortasse o frango com uma tesoura. Explico, já segurando sua mão oleosa que se esforça em vão a arrancar a cocha. Eu a ajudo a destrinchar, nossas mãos se misturam à carne quente do assado. Ela lambe meus dedos sujos, diz que o gosto está bom. Quer provar o gosto dos meus lábios. Seus dedos engordurados entram em mim como se fosse por o recheio. Eu me embaraço, como o barbante, e a ataco como se ela fosse o assado, mas ela não tem gosto de frango. Seu molho é ainda mais saboroso. A gente se perde na noite, eu com o pecado da gula, ela com o da luxuria.

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