Apenas “ela”

Eu estava na soleira da porta, fumando um cigarro e pensando em qualquer miséria quando ela chegou. Nunca algo me foi tão inesperado. Apertei os olhos para ver se era mesmo quem eu pensava, mas é claro que eu não me enganaria.
Ela estava completamente diferente. Era uma típica figura de veraneio com sua tanga estampada, blusa frente única, sandálias de salto, bolsa e chapéu de palha e óculos de sol. Eu sabia que por trás daquelas lentes escuras haviam olhos lilases e brilhantes e que o chapéu escondia cabelos loiros tão claros que eram quase brancos.
Ela parou na minha frente e não falou, apenas sorriu. Um sorriso feito convite.
***
No passado, ela fora meu mistério, minha hipnose. Arrancou minhas forças feito quebrante. Eu era tão jovem, ingênuo, inocente e tudo o que há para ser quando se é tão jovem.
Fui pego de surpresa em um dia vazio da adolescência e viajei por muito tempo no mundo dos sonhos, um mundo feito de luzes coloridas que às vezes caem em sombra. Pairei como em conserva durante muito tempo, o qual nunca pude definir. Flutuava de braços e pernas abertos no meio do nada e apenas a mente funcionava, perdida em lugar nenhum.
Às vezes tenho a certeza de que minha identidade se esvaía aos poucos, que meu corpo era como uma casca; um casulo que se abre para deixar algo mais bonito passar. Pois foi no momento mais crítico que senti alguém segurando minha mão, e foi como se tudo o que eu deixava escapar voltasse ao meu corpo com um baque.
Com esforço, virei a cabeça, e vi aquela mulher com feições brandas e puras, atravessando meus olhos com os dela e eu soube que ela lia, então, todo o meu eu. Já não havia segredos.
Fechei os olhos e concentrei-me no ar que se movia dentro de mim e senti-me mais vivo que nunca.
***
Quando percebi, já estava em outro lugar, deitado em lençóis brancos e macios, mas não havia chão, nem paredes ou teto. Apenas uma névoa branca de reflexo roxo. Ouvi um som angelical e só então percebi que ela ainda me fazia companhia. Ela estava cantando, mas não pronunciava palavra alguma. O som que escapava de sua boca era como o de um instrumento de som melancólico e quase materializava-se na névoa, cobrindo tudo.
Seus cabelos eram daquele tom quase branco que só encontramos no mundo fantástico, tão longos que quase tocavam os tornozelos. Os olhos, eu ainda não identificara a cor, mas absorviam-me até o último pensamento e sensação. Quando ela parou a música para tomar fôlego, pude ver que os seus lábios tinham uma leve inclinação que por um momento cheguei a pensar que era um sorriso, mas eram apenas os belos traços de sua feição.
Ela trajava tecidos branquíssimos como os meus lençóis, vestido cortado como o de uma fada branca e purificadora. Seria ela uma fada? Não me importa o que fosse, ela apenas excitava-me do início ao fim, em todos os sentidos, e eu soube que assim seria até a morte.
***
Essa foi a primeira de muitas vezes que a encontrei, ou que ela me encontrou, para ser exato. Eu não mais pairava no meio do nada, encontrava-a prontamente em meus sonhos.
Ela nunca falou. Apenas cantava ou ficava estática, me olhando por um longo tempo com os olhos que enfim, identifiquei como lilases. Depois me pegava pela mão (o único lugar em que alguma vez me tocou) e me guiava por algum caminho que me levava de volta ao mundo real, para viver mais um dia.
Eu a encontrava em sonho, mas sabia o quanto ela era real… Nenhum efeito psicodélico ou fruto da imaginação.
Eu queria perguntar seu nome, mas no mundo em que nos víamos, eu não tinha forças para falar. Restava-me apenas ansiar pelos nossos encontros, e durante o dia ela era minha fada sem nome, minha lembrança e saudade. Mas só durante o dia, porque à noite, em sonho, eu não precisava de nomes ou certezas, apenas do seu rosto a me fitar. Eu vivia em função dela, e sabia que a insônia jamais me atingiria.
Mas houve um tempo em que os sonhos ficaram mais escassos e eu voltei a sonhar também com outras coisas normais. Assim, o fim ficou próximo e um dia ela já não estava mais lá. Eu sabia que ela nunca mais voltaria, e o tempo passou.
***
No dia que ela voltou e me sorriu, com os óculos de sol e chapéu de palha, meu coração virou geleia e minhas entranhas contorceram-se de ansiedade. A minha fada voltara, ela estava ali para mim. Eu não a via em sonho, e sim em jeito e traje de mulher comum. Mas é claro que ela não era como as outras.
Com sua volta, convidava-me a retornar para ela. Agora eu tinha escolha, ela não segurava minha mão e me guiava, e sim prostrava-se diante de mim esperando minha palavra, o meu sim.
E a minha aprovação seria inevitável, eu jamais a esquecera. E eu pude saber que ela me escolheu quando me encontrou pairando no meio do nada, que se declarou me guiando, e assim pertencemos um ao outro nos meus sonhos. Eu sabia que ela me escolhera também quando voltou naquele dia, disfarçada em seus novos trajes, discreta e feliz, esperando por mim.
Ela estava ali, não era mais sonho ou lembrança. Eu ainda não sabia o seu nome ou a vira pronunciar alguma palavra, mas estava ali de volta, muitos anos depois. E eu soube que não iria mais embora quando fui eu que peguei em suas mãos e guiei-a pelos meus próprios caminhos.