O que meu seriado preferido fez por mim

Será que a vida tem roteiro?

A sabedoria popular gosta de nos dizer que somos senhores do nosso destino, mas são muitos os momentos da vida que não temos controle algum: a morte de alguém amado, a decepção em um relacionamento que chegou ao fim ou a frustração naquela amizade que não era tão verdadeira quanto parecia.

Aos 17 anos, perdi minha paixãozinha de colégio e pensei que o mundo ia desabar, mas foi o seriado How I Met Your Mother que, aos poucos, me ajudou a sair da fossa. Chega ser engraçado lembrar disso agora, mas a questão é que passou. A vida seguiu o seu curso no momento em que eu superei essa decepção. Aposto que você também tem uma história de perda, talvez muito mais difícil que a minha.

A questão sempre é: como vamos sair dessa?

Antigamente, existia uma forma bem clara de superar essas dificuldades. A mitologia, através do conto mitológico, tinha uma função: orientar-nos para os momentos difíceis, quando a falta de perspectiva nos rouba qualquer esperança.

Imagine como era viver em uma sociedade que não tinha explicação para absolutamente nada. Nem para seus sentimentos e muito menos para os fenômenos da natureza. O que se tinha era a mitologia. Ela que explicava o porquê do sol, da chuva, do raio e da seca. Era ela, também, que explicava o porquê de nascer, crescer, casar, procriar e morrer. Através dos rituais, a mitologia ganhava corpo em cerimônias que orientavam a postura e as emoções diante das mudanças da vida.

Sabe qual é a função disso?

Significar. Isso quer dizer: dar sentido àquela situação que nos exige uma envergadura emocional muito maior do que o normal. Quando encontramos um sentido para os acontecimentos em nossa vida, ganhamos força, coragem ou o que mais for preciso para seguir.

Assim, quando o mito está vivo e presente em uma sociedade, ele serve como uma bússola, um guia.

Mas o que um seriado de TV tem a ver com isso?

No curso da história, aos poucos a humanidade foi perdendo o papel do culto ao mistério da vida e os ensinamentos dos mitos ficaram nebulosos. Porém, há uma boa notícia. Embora não falemos mais sobre isso, os mitos e as narrativas mitológicas estão aqui. Entre nós. Todos os dias.

Pense o seguinte: quantas vezes você enxergou um pedacinho da sua vida num filme ou seriado de TV? Quantas vezes você ficou constrangido — ou constrangida — vendo o problema de sua relação ser explicitamente exposto num episódio de Friends, How I Met Your Mother ou The Big Bang Theory? Alguma vez isso fez você pensar em como agir nas próximas vezes?

Eu, sim.

Por isso, How I Met Your Mother tem um significado especial na minha vida. Me ajudou a superar um momento difícil e enxergar que as coisas são assim: mesmo diante do sofrimento, há sentido, há graça, há um porquê. O sofrimento passa e tudo segue.

Não temos mais todas as narrativas mitológicas para nos ajudar a entender a vida. No nosso mundo, também fica um pouco difícil de sustentar algumas práticas misteriosas. Mas, depois de um ano e meio de pesquisas sobre o tema, falando com fãs de seriados, posso afirmar que, pra muita gente, o seriado tem um papel bonito e importante.

Às vezes, vivemos nossa vida muito mais dentro da mente do que fora dela. Através de uma narrativa mental que nos ajuda a dar um sentido para este mundo, construímos nas nossas cabecinhas o nosso roteiro de realidade. Quando pergunto se a vida tem roteiro, acho que a reposta é sim, e é a gente que faz. Por isso, é importante ter boas referências.