Como a Cultura e o coletivo nos controlam?

Charge de Laerte Coutinho

A Cultura exerce uma pressão diária sobre todos os nossos comportamentos. Perceber isto é fácil: torcer contra a Argentina é costumeiro, mas quando foi (e por qual motivo) passamos a rivalizar tanto com nossos hermanos?

E quando a Cultura e as concepções coletivas passam a influenciar nossa saúde psíquica? O Brasil é um dos poucos lugares no mundo em que a miscigenação sistemática determinou a criação de sua nação. Nossa formação populacional (começando com o encontro em índios e portugueses, com a introdução dos negros africanos pela escravidão e por fim com a imigração de povos de diversas nacionalidades no séc. XX) é determinante na nossa constituição cultural e psíquica. Somos um povo que conheceu o fenômeno da “globalização” antes da era da comunicação.

Enfrentamos diversas questões sociais diariamente, muitas vezes sem termos consciência disto. O machismo e o racismo, por exemplo, influenciam concepções inconscientes sobre como uma mulher deve se comportar e o que um negro pode ou não aspirar em sua vida.

Frequentemente problemas com a autoestima podem estar ligados não somente a causas pessoais (como frustração com o relacionamento ou o trabalho), mas também a imposições coletivas sobre a aparência que as mulheres devem seguir, ou a que profissões os negros “podem” exercer, por exemplo. Como estas questões estão incrustadas na alma brasileira desde o início de sua formação, não é raro encontrar alguns pacientes no consultório que nunca perceberam sofrer com algum preconceito, seja pelo seu gênero, etnia ou religião, passando diversos momentos de sua vida questionando quais seriam os motivos de sua infelicidade, culpando a si e aos próximos pelos infortúnios enfrentados.

Além disso, muitas vezes os problemas enfrentados são herdados de nossas famílias; o sofrimento das famílias que chegaram ao Brasil fugindo de guerras ,da miséria ou de perseguições religiosas e políticas em seus países de origem é transferido aos que nascem aqui, transformando-se muitas vezes em sintomas psíquicos, como a dificuldade de lidar com o cuidados dos filhos, com o fanatismo religioso e um respeito exacerbado com a tradição, ou mesmo na própria relação com a comida!

Reconhecer e tomar consciência sobre estas marcas geradas pela história auxiliam no lidar com as próprias limitações, abrindo possibilidades de ação frente a estes sofrimentos, culminando numa transformação pessoal e, também, cultural. Somente assim os erros do passado podem deixar de exercer tanto controle em nossas vidas; somente assim passamos heranças menos pesadas para as gerações que virão.