O sentimento de incapacidade frente à realidade.

Ou o “porquê eu não dou certo?”

Se a pessoa acredita no tempo, então ela não tem possibilidade de mudar rapidamente; pois há uma constante expectativa de que “em seu devido tempo” tudo vai se ajeitar. Se a pessoa não for capaz de resolver um conflito, ela espera que “com o tempo” os conflitos se resolverão por si mesmos e ela não precisa fazer nada a respeito deles. Você observa essa atitude muito frequentemente, especialmente a crença no tempo para resolver a vida da pessoa. As pessoas se consolam desse modo não só pelo fato de nada fazerem realmente, mas também por não se prepararem para o que tem de fazer, porque para isso há muito tempo e, portanto, não há necessidade de se apressarem. (…) Quanto mais velhas essas pessoas ficam, mais se agarram à ilusão de que um dia se realizarão. Certas pessoas quando chegam a certa idade, geralmente aos 40 anos, começam a ficar mais dentro da realidade e começam a usar suas próprias forças, ou então tem uma crise emocional que é devida ao fato de não poderem viver sem o conforto da ilusão com o tempo. - Erich Fromm

Um dos sentimentos mais comuns encontrados em todos os ambientes conflituosos é o da incapacidade em solucionar os problemas. Diversas pessoas, por não sentirem a “força” necessária para olhar para as suas questões e enfrentá-las, acabam por confiar na resolução mágica das mesmas, relegando ao tempo a missão de solucionar aquilo que incomoda.

É possível encontrar este sentimento na expectativa de resolução de um casamento, na esperança de transformação do outro, no desejo de sucesso de um trabalhador que não consegue finalizar seus projetos, ou mesmo na sedutora capacidade que temos em procrastinar, evitando nossas obrigações diárias.

Serei justo: parte da culpa em postergar qualquer atividade reside no fato de vivermos em uma sociedade doentia, altamente estressante e que impõe um ritmo sofrido. É natural que em diversos momentos procuraremos outras atividades que nos permitam desfrutar de algum prazer, mesmo que improdutivo. No entanto há aqueles que ao mesmo tempo em que relegam a solução de sua vida para o Tempo sofrem diante de seu sentimento de incapacidade. Há também aqueles que não compreendem porque não conseguem sustentar uma atividade, se interessando por diversas áreas, procurando um dom para exercer, mas deixando seus ofícios diante da primeira frustração.

Portrait of a Young Man and His Typewriter — Bibeloteca Mollusca

Um jovem criativo pode passar a vida inteira tentando escrever sua obra de arte, trabalhando nela durante anos, sem escrever uma página se quer. Sempre haverá um sentimento de que aquilo que se produz não é bom o bastante, ou que aquela página nunca será tão boa quanto ela poderia, fazendo com que o nosso jovem escritor relegue ao tempo a sua chance em cumprir com sua meta. No entanto este mesmo rapaz chegará, em algum momento de sua jornada, à conclusão de que não produziu nada, gerando uma frustração imensa e uma cicatriz profunda, culpando-se por sua passividade e incapacidade.

Porém, quando conseguimos reconhecer este aspecto na nossa personalidade, podemos tomar uma decisão e mudar de atitude. A maneira como somos criados, aspectos inconscientes da nossa personalidade, as imagens primordiais e fantasias infantis exercem uma grande influência na nossa atuação no mundo. O autoconhecimento promove a chance de uma transformação; quando conhecemos nossa subjetividade podemos assumir uma posição diferente diante de nós mesmos, modificando nossos comportamentos em situações que outrora eram de difícil resolução. Somente quando me conheço consigo perceber porquê determinado problema me consome e qual é a saída para ele.

Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der. C.G. Jung