“Psicologia Analítica: uma introdução aos princípios de C.G. Jung”

*Texto produzido para a apresentação na XII Semana da Psicologia UFScar

Introdução à Psicologia Analítica

O romantismo filosófico surge entre os séculos XVIII e XIX, em oposição ao racionalismo. O homem deixa de ser dominado somente pela razão, e passa a ser visto como objeto também do incontrolável, da imaginação, dos sentimentos, sofrendo a ação da espontaneidade. O plano do irracional passa a ser tão importante, e em algumas vezes mais, que o do racional.

Carl Gustav Jung é indicado por muitos como o último romântico. Ignorado (ou melhor, banido) dos círculos acadêmicos de sua época e até o presente momento, parte por sua desavença com Sigmund Freud, parte pela aproximação de suas ideias com os fenômenos ditos ocultos, Jung defendeu que o afastamento da humanidade dos aspectos arcaicos, irracionais, misteriosos, e a valorização única dos aspectos racionais da personalidade conduzem às neuroses modernas e aos fenômenos de massa que assolaram a terra, como o nazismo, o comunismo e o momento político atual brasileiro. A vivência inconsciente, sem crítica, sem o autoconhecimento, coletiva, fragiliza a saúde psíquica dos indivíduos, causando sofrimento e o adoecimento psíquico. A saída da humanidade, para Jung, seria o autoconhecimento que permitiria o desenvolvimento coletivo e pessoal com responsabilidade, solucionando os problemas encontrados pela humanidade para a perpetuação da espécie

As manifestações de junho de 2013 são prova dos movimentos inconscientes e coletivos

Carl Gustav Jung e a Psicologia Analítica

Carl Gustav Jung nasceu na Suíça, no cantão da Turgóvia, em 1875. Seu pai era um modesto pastor protestante e sua mãe foi uma figura dúbia, de saúde fragilizada, segundo o próprio Jung. Grande parte de sua infância foi solitária: Jung sempre brincava sozinho e por algum tempo viveu com uma tia idosa, no breve período de separação de seus pais.

Aos 6 anos começou a aprender latim com seu pai. Durante toda a infância leu diversos textos sobre religião comparada e na adolescência encontrou-se no estudo da filosofia, base fundamental de sua teoria. Aos 17 já conhecia as obras de Schopenhauer, Nietzsche, Kant, Hegel, os clássicos Gregos e muitos outros.

Seu interesse e dilema pessoal com a religião começou também durante seu crescimento. Um dos primeiros sonhos que Jung se lembra foi relatado por ele em sua autobiografia, Mémórias, Sonhos e Reflexões (JUNG, 1963):

“Mais ou menos na mesma época(…)tive o primeiro sonho de que me lembro e que, por assim dizer, me ocupou durante toda a vida. Eu tinha então três ou quatro anos.

O presbitério fica isolado, perto do castelo de Laufen, e atrás da quinta do sacristão estende-se uma ampla campina. No sonho, eu estava nessa campina. Subitamente descobri uma cova sombria, retangular, revestida de alvenaria. Nunca a vira antes. Curioso, me aproximei e olhei seu interior. Vi uma escada que conduzia ao fundo. Hesitante e amedrontado, desci. Embaixo deparei com uma porta em arco, fechada por uma cortina verde. Esta era grande e pesada, de um tecido adamascado ou de brocado, cuja riqueza me impressionou. Curioso de saber o que se escondia atrás, afastei-a e deparei com um espaço retangular de cerca de dez metros de comprimento, sob uma tênue luz crepuscular. A abóboda do teto era de pedra e o chão de azulejos. No meio, da entrada até um estrado baixo, estendia-se um tapete vermelho. A poltrona era esplêndida, um verdadeiro trono real, como nos contos de fada. Sobre ele uma forma gigantesca quase alcançava o teto. Pareceu-me primeiro um grande tronco de árvore: seu diâmetro era mais ou menos de cinquenta ou sessenta centímetros e sua altura aproximadamente de uns quatro ou cinco metros. O objeto era estranhamente construído: feito de pele e carne viva, sua parte superior terminava numa espécie de cabeça cônica e arredondada, sem rosto nem cabelos. No topo, um olho único, imóvel, fitava o alto.
O aposento era relativamente claro, se bem que não houvesse qualquer janela ou luz. Mas sobre a cabeça brilhava uma certa claridade. O objeto não se movia, mas eu tinha a impressão de que a qualquer momento poderia descer do seu trono e rastejar em minha direção, qual um verme. Fiquei paralisado de Angústia. Nesse momento insuportável ouvi repentinamente a voz de minha mãe, como que vinda do interior e do alto, gritando — “Sim, olhe-o bem, isto é o devorador de homens!”. Senti um medo infernal e despertei, transpirando de angústia.

O sonho com essa figura religiosa arcaica, o deus Fálico, foi motivo de análise durante toda a sua vida, como ele mesmo descreveu na citação. Jung se confrontava também com as ideias cristãs o tempo todo; percebia as figuras sagradas ora como bondosas, ora como assustadoras. O relacionamento com seu pai e a igreja protestante também eram motivo de angústia para Jung, que via seu familiar como um homem de pouca fé.

Seus interesses acadêmicos variavam entre as ciências biológicas, a história e a filosofia. O desejo de Jung era cursar Arqueologia, no entanto a situação financeira de sua família não permitia que ele fizesse algum curso fora da cidade em que moravam, na Basiléia.

Na medicina optou por se especializar em Psiquiatria, na esperança de conseguir conciliar seus interesses nas áreas humanas com sua profissão. Seu trabalho de conclusão foi “Sobre a psicologia e a patologia dos fenômenos ditos ocultos”, de 1902, um trabalho científico sobre os fenômenos mediúnicos famosos, nas sessões das mesas girantes, comuns no final do séc. 19. Logo formado começou a atuar no Hospital Psiquiátrico Burgholzli, cuidando dos pacientes com distúrbios psicóticos.

Em 1900 Sigmund Freud publicava um dos seus textos mais famosos e mais impactantes para as ciências médicas, a Interpretação dos Sonhos. Jung, que já atendia no Hospital na companhia de Eugen Bleuler (que já era amigo de Freud) entrou em contato com o texto; inicialmente não foi capturado por ele, como a muitos médicos da época, mas depois, com o seu trabalho com o teste de associação de palavras, viu que de alguma forma seus resultados obtidos com o teste corroboravam com algumas ideias presentes no texto de Freud. Em 1906 eles começam a se comunicar por cartas e eventualmente se encontraram, na famosa ocasião em que passaram 13 horas conversando ininterruptamente. Neste encontro já foram apresentadas as ideias de cada médico sobre o funcionamento psíquico, e neste momento já discordaram sobre o funcionamento religioso e o caráter sexual que Freud dava as pulsões e a libido.

Embaixo: Sigmund Freud, Stanley Hall, Carl Gustav Jung; Abraham Brill, Ernest Jones, Sandor Ferenczi

Freud atribuía que as motivações psíquicas para as ações de uma pessoa e seu desenvolvimento eram de natureza sexual, erótica. Jung nunca concordou com essa afirmação; para ele outros conflitos de naturezas distintas, como questões sociais, de adaptação do meio, questões envolvendo o poder e os desdobramentos emocionais ocasionados por infortúnios na vida também motivavam os comportamentos. E para Jung o desenvolvimento era impulsionado por um fenômeno de natureza religiosa, pelo desvendar do oculto e pela fascinação do homem pelo misterioso. A busca de sentido para a vida era já no início de sua carreira o verdadeiro motor psíquico do desenvolvimento. Já Freud acreditava que as religiões e o comportamento religioso eram mais uma manifestação neurótica; Jung sabia que a amizade dos dois fatalmente terminaria devido a distância das ideias entre os médicos.

Freud via em Jung a grande chance para internacionalizar seu novo método, a psicanálise. No começo do século 20 os judeus já eram perseguidos e considerados cidadãos de segundo escalão, em toda a Europa. O movimento psicanalista era composto somente por membros judeus, e a psicanálise era vista como uma ciência judaica, má vista academicamente. Jung, por sua vez, era cristão, e aos olhos de Freud o sucessor ideal para o seu posto como propagador do método. Jung foi o primeiro presidente da Associação Internacional de Psicanálise, de 1910 à 1914.

Mas em 1912 a relação dos dois começa a ruir e finalmente em 1913 a amizade é rompida. As divergências teóricas eram muitas e Jung sabia que a publicação do seu texto “Metamorfose e símbolos da libido” seria a gota d’água para acabar com qualquer vínculo entre os dois. Nesse texto Jung apontava a existência de um inconsciente coletivo, pertencente a humanidade e que era acessado por todos, afirmando também que a energia psíquica era indiferenciada, além de debater a função simbólica do amor incestuoso no desenvolvimento psíquico, abandonando finalmente a teoria sexual de Freud.

Após a separação, Jung sofreu um processo de depressão profunda. Todos aqueles que seguiam Freud o abandonaram e o psiquiatra suíço se viu sozinho em um período intenso de produção de seu inconsciente. Foi nesse momento em que Jung começou a sofrer delírios e sonhos muito intensos, que culminaram na produção de seu último trabalho publicado, post mortem, o Livro Vermelho. Segundo o próprio autor foi nesse período em que os conteúdos produzidos pelo seu inconsciente eram confirmados pela pesquisa acadêmica e pela análise e observação de trabalhos de colegas, como o do sinologista Richard Wilhelm com sua tradução do I Ching e o Segredo da Flor de Ouro.

Foi durante esse período que Jung fundamentou sua teoria. Ele por fim reuniu todo o material recolhido e os transcreveu naquilo que chamou de Psicologia Analítica, sua forma pessoal de enxergar e interpretar o fenômeno do homem.

Fundamentos Teóricos

Uma das bases da teoria junguiana é o conceito de Inconsciente Coletivo. O inconsciente para Freud era povoado por repressões, memórias, desejos não realizados e mais conteúdos de caráter pessoal. Para Jung, o inconsciente nos moldes de Freud é denominado o Inconsciente Pessoal, pois nele os conteúdos dizem respeito as experiências vividas pela pessoa, tendo sido conscientes um dia ou não. Já o Inconsciente Coletivo seria uma realidade, uma instância, em que não há local definido para a sua existência e, no entanto, todos os seres humanos possuem condições de acessá-lo. As psiques individuais estão inseridas dentro do inconsciente coletivo. Nele podemos encontrar todas as potencialidades, todas as maneiras de agir e que foram acumuladas por nossa espécie desde, talvez, o surgimento da vida. Alguns teóricos pós-junguianos relacionam o inconsciente coletivo à memória evolutiva de nossa espécie.

Todas essas experiências coletivas são armazenadas em estruturas que Jung denominou Arquétipos. Eles são formas, padrões comportamentais coletivos de nossa espécie, e que podem ser ativados ou não pelos indivíduos. Seja qual for a experiência individual de alguém, essa pessoa necessariamente passará por vivências que fazem parte do desenvolvimento natural de uma vida, como crescer, viver, aspirar a algo, lidar com a morte, em algum momento da vida constituir algo como um relacionamento, etc. Todas essas vivências coletivas são para Jung Arquetípicas, e quando estamos observando a ação de um arquétipo estamos observando o inconsciente coletivo e suas potencialidades.

No entanto, a vivência do Arquétipo é impossível. O que vivemos é uma experiência pessoal, uma das diversas potencialidades presentes em um Arquétipo. A essa experiência damos o nome de complexo. São os complexos que armazenam nossas lembranças, repressões e memórias, todas elas pertencentes as potencialidades de um Arquétipo. Eles são estruturas inconscientes e fazem parte do inconsciente pessoal. O descobrimento dos complexos foi a primeira contribuição de Jung para a psicanálise, resultado dos experimentos realizados com o teste de associação de palavras, o que mais tarde tornou-se o detector de mentiras. Quando vivemos uma experiência carregada de emoção, intensa, como por exemplo, apaixonar-se, vivenciamos um padrão de comportamento arquetípico com nuances pessoais, ou seja, todos nos apaixonamos, mas a maneira como cada paixão atinge cada pessoa é singular, embora os mecanismos da paixão sejam os mesmos.

Moisés, da Frida Khalo. O motivo arquetípico do falo foi um dos primeiros contatos de Jung com o Inconsciente Coletivo

Outro ponto crucial para a teoria de Jung é a existência de uma função simbólica da nossa personalidade. A linguagem inconsciente é a dos símbolos, que são formas de descrever algo que não se conhece completamente ou que não pode ser definido com clareza. Os símbolos representam algo maior do que eles mesmos; são figuras carregadas de energia, não arbitrárias. É por meio de símbolos que conseguimos significar aspectos importantes de nossa vida. O símbolo consegue atuar de forma enérgica sobre o indivíduo; a atuação de um símbolo induz a respostas afetivas.

Os símbolos estão conectados no inconsciente coletivo a algum arquétipo, e por serem carregados de energia causam respostas emotivas quando surgem. Assim podemos compreender que um arquétipo está ativado quando este símbolo carregado de afetividade nos toma.

E, segundo Jung, as imagens arquetípicas e símbolos são vivenciadas naturalmente por meio dos sonhos. Diferentemente de Freud, que entendia o sonho como uma função compensadora, no qual seria possível vivenciar o desejo reprimido por meio de símbolos que enganavam a consciência, os sonhos para Jung carregam informações, quando lembrados, essenciais que podem contribuir para melhorar a vida do indivíduo. Nem todos os sonhos são importantes, alguns são somente memórias residuais daquilo vivido no dia, no entanto, quando o sonho causa um impacto afetivo, quando ele nos mobiliza e inclusive há o desejo de contá-lo, é sinal de que existem imagens arquetípicas e símbolos que podem ser utilizados na vida de forma consciente.

É possível encontrar nos sonhos motivos históricos presentes em diversas construções culturais. O ódio entre irmãos, presente em diversas histórias, como Cain e Abel, Osíris e Set, e outros, pode ser relatado em imagens por meio de um sonho. E esse padrão presente desde o desenvolvimento da humanidade nos conta quais as consequências de uma animosidade entre familiares e o que pode ou não ser feito. É possível então aprender com essa história sem a necessidade de viver a experiência efetivamente, ajudando no desenvolvimento da personalidade do sujeito.

Não é preciso viver o conflito final de Caim e Abel para aprender suas consequências.

Para Jung, até próximo dos 40 anos de idade, o indivíduo preocupa-se com outros aspectos psíquicos de sua vida, como a constituição da sua personalidade, a vivência dos desdobramentos da infância, a consolidação de aspectos materiais da vida, como a profissão e família; somente depois dessa idade há um movimento de introspecção no qual a pessoa analisa sua história afim de compreender quem se é e qual o significado de sua vida. A esse desenvolvimento da personalidade, do tornar-se quem se é, Jung deu o nome de Processo de Individuação.

Um dos arquétipos que Jung descreveu muito em sua obra é o Self. Para ele, o Self é o arquétipo que representa a totalidade e a completude da existência, o que pode representar para algumas pessoas a imagem de Deus. Jung no entanto não chega a esse ponto, mas diz que este arquétipo está relacionado com a imagem de Deus, e que ele nos impulsiona para a totalidade, para o nosso Destino, para nos tornarmos uma pessoa completamente individuada.

Entretanto esse objetivo não é possível de ser alcançado. Esse processo perdura por toda a vida de um indivíduo, e a cada momento é possível descobrir aspectos da personalidade que eram desconhecidos até então. Não é possível esgotar os conteúdos inconscientes, o processo de tornar-se cada vez mais consciente é infinito.

Ao analisar a vida de Jung e sua obra é possível perceber o seu Processo de Individuação. Desde cedo seu embate com a Espiritualidade e com a transcendência do homem o marcaram, o que acabou influenciando toda sua obra, dando significado a ela, colocando-a inclusive à margem do pensamento Acadêmico. Seu interesse em estudar tudo aquilo que foi negligenciado pela ciência moderna, e que continua sendo demasiadamente humano, fez com que o próprio Jung assumisse a responsabilidade de não ser aceito, de ser taxado de ocultista. No entanto, como o próprio psiquiatra diz várias vezes, sua teoria foi a maneira que ele próprio encontrou de compreender sua vida e a vida de seus pacientes; foi o relato daquilo que viveu internamente e as elaborações de todos aqueles conteúdos.

Carl Gustav Jung

Jung por fim detestava a ideia de ter jovens seguidores Junguianos: seu desejo era que cada estudante criasse sua maneira de observar os fenômenos, que cada um voltasse para sua vida interna e ouvisse aquilo que não era ouvido, desse espaço para aquilo que não surgia, que encontrasse suas potencialidades, e quem sabe, assim, contribuir para o entendimento daquilo que temos de mais complexo, nossa Alma.

Referências

JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos e Reflexões. São Paulo. Ed. Nova Fronteira. 16ª edição. 1963.

JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus Símbolos. São Paulo. Ed. Nova Fronteira. 9ª edição. 1964.

JUNG, Carl Gustav. Obras Completas de C. G. Jung. Petrópolis, RJ. Ed. Vozes. 2011

JACOBY, Mario. O Encontro Analítico. Transferência e Relacionamento Humano. São Paulo. Ed. Cultrix. 1992.

HILLMAN, James. Ficções que curam: psicoterapia e imaginação em Freud, Jung e Adler. Campinas, SP. Ed. Verus, 2010.

ROTH, Wolfgang. Introdução à Psicologia Analítica de C. G. Jung. Petrópolis, RJ. Ed. Vozes. 2011.

SILVEIRA, Nise. Jung, Vida e Obra. Rio de Janeiro. Ed. Paz e Terra. 1991.

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