Filmes na minha vida: Instagram e o desejo de viver a vida dos outros.

Sábado à noite e eu em casa, pois estava sem dinheiro. A sensação era de que o mundo estava acontecendo lá fora, enquanto eu privado aos grandes acontecimentos. Aproveitei para fazer aquilo que a maioria das pessoas na minha situação faz: uma maratona de filmes na Netflix. Abençoada Netflix, que surgiu para nos livrar do tédio total de um sábado a noite sozinho em casa.

Antes de iniciar o filme, resolvi dar uma bisbilhotada no Instagram para ver o que as pessoas estavam fazendo, e assim eu poderia morrer mais uma vez de ódio com minha situação tediosa. Porém, por incrível que parece, eu estava tendo o mesmo comportamento que o personagem do filme que acabara de começar.

O filme que escolhi contava a história de um homem, que devido a um acidente teve a perna engessado, ficando impossibilitado de sair de casa. Eu não havia quebrado a perna, mas estava sem dinheiro que dava na mesma situação. Contudo, a grande semelhança é que ambos estavam bisbilhotando a vida alheia, eu através do celular e ele, por uma janela.

Janela Indiscreta é um filme antigo do Alfred Hitckook, onde o personagem passa a desconfiar de um possível assassinato ao observar mudanças de comportamento de um homem da janela em frente e coisas que acontecem ao redor.

Assim como o personagem , eu observei as fotos e “instastories” das pessoas e fiquei imaginando como estariam a vida delas, ou como elas seriam, a partir de fragmentos de cada imagem e texto. Vemos imagens e criamos percepções. O mundo de hoje está assim.

Não sei se você já percebeu, mas os algorítimos das redes sociais acabam nos relacionando com pessoas próximas ao nosso circulo de amigos e se muitos amigos nossos seguem uma pessoa, ela acaba sendo sugerida em nossos feeds de notícias. E foi assim que o Garoto de Olhos Verdes surgiu na minha vida.

Resolvi dar aquela stalkeada básica no perfil dele para que eu pudesse montar uma perspectiva de quem era aquele garoto que havia despertado a minha atenção (e de muitas outras pessoas, já que possuía mais de 10mil seguidores). Bom, ele costumava fazer muitaspostagem, creio que mais de 1 por dia e colova muitas coisas no instastories.

Tinha foto da família, do cachorro, na academia (várias), dos amigos. Ele estudando, no transito, coisas da rua, mais fotos de academia, o clássico selfie de bom dia, na igreja, na balada, em bares. Só pelas fotos dava pra saber quase tudo da vida dele, parecia perfeitamente que ele era o próprio Jim Carrey em O Show de Truman.

Trata-se da jornada de um homem, que desde o nascimento tem sua vida retratada e filmada, sem ele saber, onde todo o país acompanha cada minuto de seu dia a dia por um programa de televisão, e quando o cenário da cidade fictícia começa a cair sem querer, o personagem passa a desconfiar e investigar o que há de errado.

A metáfora fica quanto há extrema exposição da vida das pessoas do mundo atual, mas a diferença é que na realidade, nós escolhemos tornar nossa vida um show, pois as imagens podem construir a percepção do que somos, e o que não somos, para as pessoas e ele parecia ser um homem com a vida perfeita: bonito, jovem, classe alta, corpo atlético, rodeado de amigos e seguidores, bem sucedido, de família, estudioso e ainda sabia cozinhar. Pronto, havia encontrado o cara.

Descobri que ele também malhava na smartfit, assim como eu, porém em outra unidade. Então vi a oportunidade de ter um encontro com aquele garoto de olhos verdes, mas antes disso, fiquei observando as redes sociais dele para saber o que gosta, pois eu por ser bastante eclético, poderia me adaptar para atrair sua atenção.

No dia em que passaria a frequentar a mesma academia que ele, me vi em uma situação um pouco incomum em minha vida: eu estava meio obcecado pela vida dele, assim como no filme A Vida Dos Outros.

Neste filme de espionagem, ambientado na época da guerra fria. Um agente secreto passa a investigar a vida de uma família suspeita de serem comunistas na Alemanha Ocidental, entretanto o investigador acaba ficando obcecado pela vida deles e o que fazem. Acho que cada um de nós temos um pouco do personagem.

Praticamente já estava com todas as informações dele nas mãos. Formado em publicidade. Estava fazendo pós em Midias Sociais na ESPM, trabalhava em um escritório na Vila Olímpia, tinha 2 cachorros, virginiano, fã de Games of Thrones, detestava catuaba, preferia Contini.

Infelizmente no primeiro dia que passei a frequentar a Smartfit da Augusta, ele não pareceu. Nem no segundo, nem no terceiro… só foi um dia que percebi que ele havia feito um check-in na unidade da Paulista que eu fui imediatamente pra lá e quando cheguei, já não estava mais lá.

Foi depois de 1 semana, quando estava fazendo meu treino de pernas, ouvindo a música Cheguei da Ludimilla, foi que ele apareceu. Estava acompanhado de mais dois amigos, sendo ele ao centro. Parecia mover-se em câmera lenta como o grupo das Poderosas no filme Meninas Malvadas.

O filme é uma comédia de 2004 que conta a história de uma garota que viveu na África toda a vida, mas que iniciaria seus estudos em uma típica escola norte-americana High School e lá ela conheceria o grupo das garotas mais famosas do colégio: as poderosas. Lideradas por Regina George. A mais influente. A garota que todas queriam ser.

Quando mandei mensagens para meus amigos, que tinham ele em comum nas redes sociais, parecia as outras personagens do filme descrevendo quem era a Regina George. Pequenas percepções que me ajudaram a criar uma perspectiva de quem era aquele garoto.

Além de ser popular no Instagram, também era na vida real. Todos da academia o cumprimentava e boa parte do tempo ele ficava conversando com as pessoas a volta. Eu olhava timidamente para ele, nunca conseguindo olhar diretamente em seus olhos.

Recorde-me meus tempos de adolescente na escola, onde assim como a maioria das pessoas, queria também fazer parte do grupo dos populares. Mas nunca fui enquanto adolescente e tampouco sou como adulto. Mesmo assim fico imaginando, as vezes delirante, um vida em que todos me conhecem. Recebo diversos convites e nunca estou só. Porém esse mundo é para poucos.

Vivemos em um mundo cheio de pessoas que lutam por atenção. Até pouco tempo atrás somente a televisão dava visibilidade, hoje a internet e as redes sociais ajudam a alimentar esse sonho. A maioria de nós jamais alcançará esse posto e esta é a dura realidade. Sempre fico pensando: e se pudéssemos um dia experimentar como é ser famoso? Nem que fosse só por um mínimo de tempo? Houve um filme que já havia explorado isto.

Quero Ser John Malcovich, comédia dos anos 1999 (para mim uma das melhores que já vi) conta a história de um homem de vida mediana que começa a trabalhar em um escritório no andar 7 e meio (sim, um andar com altura de 1,5 metros onde as pessoas tem que trabalhar agachadas) e acaba encontrando uma pequena porta. Ao entrar naquela porta, transporta imediatamente para a mente do famoso John Malcovich.

Após viver a experiência de ser um famoso por minutos, ele é atirado (do nada) em uma estrada. Então ele começa a repetir sempre e entrar na cabeça do cara, mas a coisa começa a degringolar quando o homem resolve alugar a portinha para que outras pessoas possam ser John Malcovich, inclusive o próprio. Hilário.

Tenho certeza que muito de nós, principalmente se for homem, gostaria de viver a vida do Garoto de Olhos Azuis. Eu ficava sempre pensando nisso, principalmente quando estava entediado com minha própria vida.

A presença dele já havia virado rotina na minha vida, inclusive escrevi uma poesia para o cara, a qual vocês podem ler aqui. Contudo, me faltou coragem de iniciar um papo com o rapaz. Tinha sempre alguém do lado dele. \só que o destino trataria de nos unir e cruzar nossas história. E o destino tinha nome: Tinder.

Pois é, após nos vermos tanto na academia e nem ter olhado nos olhos um do outro, fomos nos conectar por um aplicativo. Paradoxos dos tempos modernos.

Começamos a conversar e eu queria logo ve-lo. Não tinha nada demais em nossas conversas, apenas o basicão. Ambos gostaram um do outro, porém por contratempo não estávamos conseguindo nos encontrar mais na academia, e no fim de semana que poderíamos marcar algo, ambos viajariam, a nossa sorte é que descobriríamos que a gente tinha o mesmo destino: Rio de Janeiro, Rock in Rio — Show da Lady Gaga.

Perfeito. Não tinha situação melhor para nos encontrarmos. A cidade maravilhosa seria o cenário de nossa história. Daríamos os beijos mais cinematográficos e ainda viveríamos uma experiência inesquecível ao som da Lady Gaga. Já estava imaginando a gente ouvindo Million Reasons.

Quando soube o bairro que ele ia ficar, até tentei me mudar para lá, mas não havia mais vagas. Eu em Botafogo e ele em Copacabana. Eu chegaria um dia antes.

Quando estava na estrada, eu parecia estar vivendo o personagem da Cameron Diaz no filme Tudo Para Ficar Com Ele. Pois nesta comédia romântica, ela viajava a com as amigas atrás de um cara que havia conhecido dias antes e eu estava na mesma situação, também viajando com os amigos.

Porém, o presságio de que as coisas não seria tão boas começou assim que coloquei os pés no Rio de Janeiro. Lady Gaga cancela participação no Rock in Rio. Assim como a cantora Maísa, meu mundo caiu. Fiquei desolado. Só não fiquei pior, pois o Rio é lindo é há muito o que se aproveitar.

Confesso que foi um alívio quando soube que ele viria mesmo assim. Então combinamos então de ir para um bar, junto com outros amigos, na noite que veríamos o show da Gaga.

Estava com expectativas em alta, até encontra-lo na recepção do hotel em que estava. Aquele encontro seria realmente inesquecível, mas que até hoje quero esquecer.

Jesus, Maria e José.

Ele não largava da porra do celular. Todo momento ficava tirando selfies e fotos. Não dava para conversar um instante com a pessoa. Ele pouco se divertiu no bar. Dava um sorriso, gravava um vídeo, postava e ia para o celular. Chegou até tirar foto com o drink que eu havia postado. Mas pra minha sorte, a bateria dele acabou e conseguimos conversar. Foi aí que descobri importantes fatos da vida dele:

· Não gostava de estudar. Detestava ler livros da área,, mas fazia postagem quando, raramente, estudava.

· As fotos de comida, a mãe foi quem fez.

· Tomava bomba na academia, pois sentia que os exercícios não davam resultados.

· Os amigos não gostavam de cinema ou teatro, só balada.

· Acreditava cegamente em signos

· Não tinha um trabalho, apenas freelances em agências

· Detestava acordar cedo e ir para o trabalho

· Detestava a pós graduação com família

· E era corinthiano (afs)

Totalmente diferente daquilo que aparentava, mas que eu tinha convicção de quem era. Não só eu, mas quase todas as pessoas. No final das contas a gente ficou, mas eu não aguentaria ficar com ele por mais de 2 horas. Juro.

Essa foi uma importante lição para mim e as ilusões que acabo criando ao imaginar como seriam a vida dos outros com base nas fotos que vejo postar.

Hoje em dia, pouco nos falamos, mas toda a vez vejo uma selfie dele pela manhã, ou com legenda de bom dia ou sem camisa com uma frase edificante. Acho engraçado. Mas pessoas como ele, que sabem que são bonitas, acreditam veemente que a beleza da juventude é eterna. Assim como na vida do personagem principal do filme O Retrato de Dorian Gray.

Assim como naquele clássico, o livro e não o filme, muitos gostariam de preservar as aparências e acabam escondendo seu verdadeiro eu. Dorian Gray não envelhecia, mas seu retrato sim. E na nossa realidade, o retrato daquelas pessoas são elas próprias na vida real, sem maquiagem, ou filtros. Pois assim como vivi e descobri, as aparências enganam e hoje eu sei que os filtros de gatinhos não tornam ninguém mais amigável. Tudo é somente percepção.

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